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Em Cariacica, aliados viram trunfos dos candidatos: apresentador de TV, senador e ministro

Disputa pulverizada para a prefeitura fez a campanha virar uma corrida sobre quem tem mais aliados políticos. Além disso, candidatos fazem questão de destacar que moram na cidade

Vitória
Publicado em 10/11/2020 às 19h53
Data: 23/01/2020 - ES - Vila Velha - Prefeitura Municipal de Cariacica  Editoria: Cidades - Foto: Ricardo Medeiros - GZ
Disputa pela prefeitura continua nebulosa em Cariacica e sem favoritos. Crédito: Ricardo Medeiros

Pulverizada, com 14 candidatos, e sem a participação direta de lideranças tradicionais, a disputa pela Prefeitura de Cariacica desenhou-se embolada, sem um franco favorito, em pesquisa Ibope divulgada em 17 de outubro. E, de lá pra cá, as eleições 2020 na cidade se tornaram uma espécie de aposta sobre quem tem mais aliados na política.

Uma estratégia para compensar o pouco ou mediano capital político dos próprios candidatos. O dia da votação no primeiro turno se aproxima: domingo, 15 de novembro.

Célia Tavares (PT), por exemplo, tem ao seu lado o deputado federal Helder Salomão (PT), que foi prefeito do município por dois mandatos, eleito em 2004 e reeleito em 2008. A parceria é tão forte que os dois estão juntos em todos os atos de campanha: na rua, nas redes sociais e no discurso da candidata. Ao falar de suas propostas, em diversas ocasiões, Célia começa com a frase “No governo Helder Salomão, nós fizemos...” A candidata foi secretária municipal da Educação durante os oito anos.

O próprio slogan da campanha, inclusive, é “Cariacica feliz de novo”, uma referência aos mandatos do petista. Já nas peças publicitárias, uma variação da mesma ideia: “Helder fez, Célia vai fazer mais.”

A busca por apoio, no entanto, não parou aí. A candidata também publicou um vídeo em que a deputada federal gaúcha Maria do Rosário (PT-RS) demonstra apoio a sua candidatura. A parlamentar inicia o vídeo, inclusive, elogiando o mandato de Helder enquanto prefeito e completa: “É a candidata do Helder, é a nossa candidata.” Célia até recebeu dinheiro do Fundo Eleitoral, distribuído pelo partido. Dos R$ 272,2 mil que já recebeu, R$ 264 mil foram transferidos pelos diretórios nacional e estadual da sigla.

Euclério Sampaio, Célia Tavares e Sandro Locutor, candidatos em Cariacica
Euclério Sampaio, Célia Tavares e Sandro Locutor, candidatos a prefeito de Cariacica. Crédito: Montagem/Reprodução Facebook

A legenda, no entanto, preferiu apostar mais em João Coser, candidato à Prefeitura de Vitória. O valor recebido por Célia é muito menor que o destinado à campanha de Coser, que recebeu R$ 961 mil. A sigla não tem outros candidatos a prefeito na Grande Vitória.

Do outro lado do espectro político, à direita, Subtenente Assis (PTB) apela para vídeos com representantes do governo federal, como a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). O candidato também usa camisetas com o rosto do mandatário.

Na rua, Assis conta com o apoio do casal “bolsonarista de carteirinha” Carlos Manato (sem partido) e Soraya Manato (PSL). Os dois o representaram, inclusive, em uma caminhada pela cidade, após o candidato entrar em isolamento, diagnosticado com Covid-19. O vice na chapa, Cristiano Lima (PRTB), assumiu as atividades da campanha no período. Assis, no entanto, voltou às atividades presenciais no dia 7 de novembro.

383,9 mil habitantes

É A POPULAÇÃO DE CARIACICA SEGUNDO O IBGE (2020)

Já Euclério Sampaio (DEM), que tem como principal bandeira a “união” – e chegou a dizer que Cariacica não precisa de um candidato “de direita ou de esquerda” – também está apelando para ajuda externa. No período de pré-campanha e convenções partidárias, o deputado contou com o apoio de Marcelo Santos (Podemos), uma das principais lideranças políticas locais e seu colega de Assembleia Legislativa. Foi Marcelo, também, quem conduziu as articulações para que o Republicanos entrasse na coligação de Euclério, que conta com seis partidos: DEM, Republicanos, Podemos, Avante, PMN e Cidadania.

Lideranças do Republicanos, como o presidente da Assembleia, Erick Musso, e o presidente estadual do partido, Roberto Carneiro, estiveram presentes em um evento realizado para oficializar o apoio das duas siglas ao demista.

Desde o início da campanha, no entanto, Euclério aparece nas ações de rua e reuniões sem a presença dos “peixes grandes” que o acompanhavam anteriormente. Marcelo e Erick estão em uma espécie de tour político pelo Estado, apoiando diversos candidatos pelo interior e, por isso, raramente aparecem nos eventos de Cariacica. Nesta terça-feira (10), no entanto, Marcelo apareceu ao lado de Euclério e do prefeito de Viana, Gilson Daniel (Podemos) em um vídeo compartilhado por Euclério e pelo próprio Marcelo no WhatsApp. 

Já o apoio de peso do Republicanos, na verdade, está em outra campanha. O deputado federal e apresentador de TV Amaro Neto (Republicanos), popular na Grande Vitória, está com Sandro Locutor (PROS). Os dois aparecem juntos em caminhadas, reuniões e, inclusive, fizeram isolamento ao mesmo tempo quando Locutor teve a confirmação de que estava com coronavírus, dias após aparecer de mãos dadas com o deputado em um vídeo.

O candidato chegou a ficar internado na UTI, mas teve alta e já retomou as agendas ao lado do parlamentar. Na saída do hospital, apoiadores cantavam músicas religiosas e faziam orações enquanto Locutor estendia os braços e posava para fotos.

Com Marcelo ocupado, tentando eleger seus candidatos no interior, e o Republicanos visivelmente mais presente na campanha do adversário, Euclério divulgou, no dia 4 de novembro, que tem o apoio da deputada federal tocantinense Professora Dorinha (DEM-TO). Não demorou muito e quem também gravou um vídeo pedindo votos para Eulério foi o ministro da Cidadania do governo Bolsonaro, também filiado ao DEM, Onyx Lorenzoni.

Quem mais permaneceu fiel ao demista, na verdade, foi a base evangélica. Desde o período de pré-campanha Euclério fazia publicações semanais em cultos, por exemplo, com imagens em que aparece ajoelhado recebendo orações. Colheu como fruto uma série de vídeos para as redes sociais em que diferentes pastores, de pelo menos nove convenções evangélicas, demonstram apoio e pedem votos. O candidato alega, também, ter “unido evangélicos e católicos” – como parte da construção da imagem de que representa a união.

ISOLADO NO TABULEIRO, MAS CONSOLADO PELO PARTIDO

Quem tenta outra estratégia é Marcos Bruno (Rede). Sem coligar com nenhum partido, o candidato conta com apoio, principalmente, de figuras da própria legenda, como o prefeito da Serra, Audifax Barcelos. Mas já exibiu vídeo, também, do ex-secretário de Estado da Educação Haroldo Corrêa Rocha, que comandou a pasta no governo Paulo Hartung (então filiado ao MDB).

O candidato foi vereador no município, assumindo em 2013. No ano seguinte, elegeu-se deputado estadual. Em 2016, concorreu à prefeitura, mas com 27 mil votos não foi para o segundo turno. Desde então, estava fora do cenário político.

Marcos Bruno, Subtenente Assis e Saulo Andreon, candidatos a prefeito de Cariacica
Marcos Bruno, Subtenente Assis e Saulo Andreon, candidatos a prefeito de Cariacica. Crédito: Montagem/Reprodução Instagram

Mesmo longe dos holofotes, a Rede – e o candidato – consideram que a votação conquistada na última disputa foi expressiva e, sem Marcelo Santos e Helder Salomão, que optaram por não concorrer, ou o atual prefeito, Juninho (Cidadania), que está no segundo mandato consecutivo e não pode se reeleger, o caminho teria ficado aberto para a retomada do redista.

Para fazer campanha, Marcos Bruno conta, até agora, com R$ 860.510,00. Toda a verba vem do Fundo Eleitoral, recurso público repassado pelo partido. 

A Rede não tem direito a propaganda eleitoral em rádio e TV, porque tem apenas um deputado federal eleito e o tempo é distribuído de acordo com o tamanho da bancada federal de cada partido. Em Cariacica não há horário eleitoral gratuito na TV mesmo (pois lá não há sede de emissora de TV).  Sem espaço na rádio, Marcos Bruno investiu a maior parte do dinheiro em impulsionamento de conteúdo na internet e, assim como todos os outros candidatos, tem feito campanha nas ruas.

O SILÊNCIO DE CASAGRANDE... E DE JUNINHO

O contexto das eleições em Cariacica de fato não coopera para a despontada de favoritos. Os candidatos buscam aliados até de fora, mas enquanto isso, alguns políticos locais assistem ao desenrolar da disputa em silêncio.

É o caso do governador Renato Casagrande (PSB), que não apoiou nenhum candidato expressamente. Há sinais, enviados por terceiros, mas o chefe do Executivo estadual não falou abertamente sobre quem apoia na corrida. Seu partido tem candidato próprio, o ex-vereador Saulo Andreon.

De todos os candidatos aliados do governo, no entanto, Saulo é um dos que menos recebeu sinais de apoio de Casagrande. Apesar da vice-governadora, Jaqueline Moraes, estar envolvida de forma fervorosa na campanha do socialista, admite que no município não fala pelo governador. 

Saulo, até a última pesquisa Ibope do dia 17 de outubro, tinha um dos menores percentuais de intenção de voto, ficando fora do empate técnico com apenas 2%. O marketing da campanha, inclusive, acredita que um dos motivos para o mau desempenho na pesquisa seria o nome de urna do candidato. Trocaram na Justiça Eleitoral durante a campanha. De “Professor Saulo” passou para “Saulo Andreon.”

Enquanto isso, Euclério é considerado o candidato do Palácio Anchieta, por ter recebido o apoio de Marcelo Santos, que garantiu que a decisão foi com o aval do governador. Além deles, Sandro Locutor, que ocupou cargos na estrutura do governo antes da campanha, também conta com a simpatia de Casagrande.

Outro que não se manifestou foi o atual prefeito do município, Juninho. Seu partido, o Cidadania, está com Euclério, decisão que Juninho garante que não reflete sua posição pessoal. Ele também não se alinha publicamente a outros dois candidatos que esperavam seu apoio: Joel da Costa (PSL) e Ivan Bastos (MDB).

O prefeito acabou se tornando o saco de pancadas de quase todos os lados. Durante entrevistas feitas por A Gazeta sobre as propostas de cada candidato, foi comum ouvir que Cariacica está “abandonada”, que a renda per capita do município é um “atestado de incompetência” dos gestores municipais e outras alfinetadas do tipo.

As conversas foram gravadas após a pesquisa ibope apontar que para 68% dos moradores de Cariacica a administração de Juninho é ruim ou péssima. Foi a pior avaliação entre todos os prefeitos da Grande Vitória.

FOCO NA FAMILIARIDADE

Uma das acusações que sempre “assombraram” quem concorre em Cariacica é a de que os candidatos não seriam, de fato, dali. Em uma disputa que não conta com muitos ataques diretos entre os candidatos – diferentemente do cenário na Capital, por exemplo. Mas é possível ouvir que Euclério, por exemplo, estaria concorrendo em uma cidade à qual não pertence. Em 2004 ele concorreu à Prefeitura de Vila Velha, sem sucesso. 

Ivan Bastos, Adilson Avelina, Helcio Couto, Joel da Costa e Celso Andreon, candidatos em Cariacica
Ivan Bastos, Adilson Avelina, Helcio Couto, Joel da Costa e Celso Andreon, candidatos a prefeito de Cariacica. Crédito: Montagem/Reprodução Instagram

Talvez por isso um dos pontos em comum em todas as campanhas é a ênfase que os candidatos dão a quanto tempo vivem na cidade. O demista, por exemplo, fez uma série de postagens com fotos de onde nasceu e cresceu para reafirmar que sempre foi de Cariacica. Durante as entrevistas concedidas para A Gazeta, quase todos que disputam também fizeram questão de iniciar qualquer resposta dizendo há quanto tempo moram e trabalham em Cariacica.

DISPUTA FAMILIAR

Fatos curiosos também marcam a eleição em Cariacica. O candidato Adilson Avelina (PSC) é marido da vice-governadora, Jaqueline Moraes, mas ela, como já mencionado, está no palanque de Saulo Andreon. Avelina tem o apoio do senador Marcos do Val (Podemos), de quem já foi assessor parlamentar. 

O candidato, aliás, chegou a utilizar foto da esposa em material de campanha, em um contexto como se ela o apoiasse na corrida pela prefeitura, o que desagradou a vice-governadora, que deixou claro não ter dado autorização para a publicação.

E o fato de o sobrenome Andreon aparecer duas vezes entre os candidatos não é mero acaso: dois irmaõs disputam a prefeitura da cidade: Saulo e Celson Andreon.

R$ 831,3 MILHÕES

FOI O ORÇAMENTO DE CARIACICA PARA O ANO DE 2020

Ponto em comum, também, são as reuniões com lideranças comunitárias. Por mais que as campanhas estejam presentes nas redes sociais, a batalha pelos votos dos cariaciquenses tem se dado, de fato, nas ruas e casas dos bairros. As propostas, no entanto, não se diferem em muitos pontos. A maioria dos candidatos apresenta soluções parecidas para questões na área da saúde, como a extensão da cobertura da Estratégia de Saúde da Família, o uso da tecnologia para diminuir filas de espera por marcação de exames e a construção de um centro de especialidades.  

Também têm ideias similares para estimular a economia local, como a desburocratização para atrair empresas e o foco na localização estratégica do município para escoamento de mercadorias, e para a infraestrutura, como refazer o calçamento das ruas e fazer asfaltos duradouros.

Entre os poucos pontos de divergência estão a guarda municipal armada e a implantação de escolas militares. Com tantos nomes na disputa – a maioria pouco conhecida – e propostas similares, os votos podem acabar se pulverizando e o cenário eleitoral ainda é nebuloso.

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