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Os rostos dos inocentes mortos na guerra do tráfico no Espírito Santo
Os rostos dos inocentes mortos na guerra do tráfico no Espírito Santo. Crédito: Acervos pessoais / Ilustração: Geraldo Neto

Os rostos dos inocentes mortos na guerra do tráfico no Espírito Santo

Entre 2020 e 2022, ao menos 10 crianças e adolescentes inocentes, na maioria negros e moradores de bairros de periferia, foram mortos no Estado

Tempo de leitura: 10min
Vitória
Publicado em 06/05/2022 às 06h40

Na porta de casa, no quintal, brincando na rua, indo ou voltando da padaria e até enquanto dormiam. Destas maneiras, em situações comuns do dia a dia, crianças e adolescentes, todos inocentes, foram assassinados no Espírito Santo. Nesta reportagem, A Gazeta mostra quem são essas vítimas da guerra do tráfico, que atinge, principalmente, moradores negros de bairros de periferia. Há casos em cidades maiores, como em Vila Velha, na Grande Vitória, mas também no interior do Estado, em pequenas comunidades, como Braço do Rio, em Conceição da Barra, na Região Norte.  

Nas estatísticas, mortes decorrentes da guerra do tráfico de drogas viram números. Para as famílias, se convertem em dor. Quando se trata da partida de crianças e adolescentes sem ligação com o crime, há um significado ainda mais profundo: o de uma vida ceifada prematuramente pela violência. Esse é o caso da dona de casa Francisca Soares, mãe do pequeno Théo Henrique Soares Santos, de 2 anos. 

Théo Henrique Soares Santos, 2 anos
Théo Henrique Soares Santos, 2 anos. Crédito: Acervo pessoal / Ilustração: Geraldo Neto

O menino foi atingido por uma bala perdida na altura da orelha, quando iria a uma padaria com a mãe, no bairro Rio Marinho, em Vila Velha, na noite de 17 de fevereiro de 2022. Ele foi levado para o Hospital Infantil de Vitória, mas teve a morte confirmada no dia seguinte. Francisca não foi atingida e, em meio aos barulhos dos disparos, tentou proteger o filho.

Francisca Soares

Mãe do Théo 

"Ele tinha pedido pão e, quando estávamos no terceiro degrau da escada, indo na padaria, começamos a ouvir os tiros. Tentei proteger ele, mas quando vi, já estava baleado. Fica a revolta. Mais uma criança baleada, ninguém vai preso, nenhuma resposta, ninguém diz nada. É como se a vida de uma criança não valesse nada, é como se fosse um traficante qualquer"

Dias depois do crime, dois irmãos, de 24 e 25 anos, que não tiveram os nomes divulgados, foram presos pela Polícia Civil. Não é possível afirmar que um deles atirou na criança, mas ambos são suspeitos de envolvimento no crime

Como está o caso: a corporação informou que o caso segue sob investigação da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Vila Velha. "Um dos autores foi identificado e possui mandado de prisão temporária expedido em seu desfavor, mas até o momento não foi detido", afirmou.

BRINCAVA NO QUINTAL

Alice da Silva Almeida, 3 anos
Alice da Silva Almeida, 3 anos. Crédito: Acervo pessoal / Ilustração: Geraldo Neto

Outra vítima inocente é Alice da Silva Almeida, de 3 anos, que brincava no quintal de casa, no bairro Dom João Batista, em Vila Velha, na noite do dia 9 de fevereiro de 2020, quando um adolescente alvo de criminosos da região fugiu para a residência da família da menina.

Passados mais de dois anos da morte, a mãe de Alice, a dona de casa Amanda Guedes, relembra a perda da filha e reflete sobre a morte de outras crianças. "A dor nunca vai passar. Me disseram uma vez que um dia eu ia aprender a conviver com a dor, mas que ela nunca acabaria. E é verdade. Hoje eu aprendi a conviver dia após dia com a saudade que eu sinto da minha filha, tem dias que são mais difíceis, o vazio consome o peito e dá vontade de gritar", conta.

Em meio à dor, ela compartilha uma mensagem de esperança com outras mães que também perderam seus filhos. 

Amanda Guedes

Mãe da Alice

"Me coloco no lugar dos pais e peço muito a Deus para confortar. O meu conselho é: se apegue muito a Deus. Só ele me deu a paz que excede todo o entendimento humano. Nada me consolava, só Deus que sempre me acalmou, de uma forma que não sei explicar"

Como está o caso:  a conclusão dessa história, uma das mais emblemáticas do Estado, mostrou que o ataque foi consequência da disputa do tráfico de drogas na região e que a ordem para matar o jovem partiu de dentro de um presídio. Segundo a Polícia Civil, o inquérito policial já foi concluído e remetido à Justiça. Um dos envolvidos no crime, Isaías Themoteo Leão, conhecido como 'Guerreiro', de 27 anos, se encontra foragido.

O sofrimento de Francisca e de Amanda se repetiu, pelo menos, outras oito vezes desde 2020 com outras famílias do Espírito Santo.

MORTO POR ENGANO PERTO DE BAR

Arthur Santos Leal, 14 anos
Arthur Santos Leal, 14 anos. Crédito: Acervo pessoal / Ilustração: Geraldo Neto

O adolescente Arthur Santos Leal, de 14 anos, estava sentado ao lado de um bar quando foi baleado no bairro Agostinho Simonato, em Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Espírito Santo, na noite do dia 28 de abril de 2022. Dois homens chegaram em uma motocicleta e um deles desceu do veículo, efetuando os disparos.

Os dois suspeitos foram localizados pela Força Tática da Polícia Militar e confessaram que foram ao bairro para matar um desafeto da disputa envolvendo o tráfico de drogas e, por acidente, assassinaram o adolescente, considerado pelo tenente-coronel da corporação Fabrício da Silva Martins como “uma criança de 14 anos, indefesa e inocente”.

Como está o caso: a Polícia Civil informou que, após a coleta de depoimentos e análise do fato, os dois homens foram autuados em flagrante pelos crimes de homicídio consumado qualificado e tentativa de homicídio, sendo encaminhados ao sistema prisional. A prisão dos dois foi convertida em prisão preventiva. O caso foi encaminhado à Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Cachoeiro de Itapemirim, que dá continuidade à investigação.

BRINCAVA NA CALÇADA

Kemilly Vitória Faria Santos, 9 anos
Kemilly Vitória Faria Santos, 9 anos. Crédito: Acervo pessoal / Ilustração: Geraldo Neto

A pequena Kemilly Vitória Faria Santos, de 9 anos, brincava na calçada quando bandidos passaram atirando em uma rua do bairro Ilha da Conceição, na região da Grande Santa Rita, em Vila Velha, na noite do dia 27 de abril de 2022. Ela foi atingida na cabeça, chegou a ser levada para o Hospital Estadual Infantil e Maternidade Alzir Bernadino Alves (Himaba), mas não resistiu. No ataque, um jovem de 20 anos que comprava um lanche foi baleado. Um adolescente, que era o alvo dos criminosos, também foi ferido

Como está o caso: segundo o delegado Tarik Souki, o alvo dos disparos era um adolescente de 17 anos que acabou morto, mas os tiros atingiram Kemilly. Na avaliação de Souki, a comunidade está em meio a uma disputa de traficantes por pontos de venda de entorpecentes. O caso segue sob investigação da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Vila Velha e, até o momento, nenhum suspeito foi detido.

VOLTAVA DE PADARIA 

Jeferson Gabriel Santos, 14 anos
Jeferson Gabriel Santos, 14 anos. Crédito: Acervo pessoal / Ilustração: Geraldo Neto

Jeferson Gabriel Santos, de 14 anos, saiu para comprar pão, na manhã do dia 26 de março de 2022, no bairro Santa Rosa, em Cariacica, e, na volta para casa, se viu no meio de um tiroteio. Ele foi atingido por cerca de 10 tiros e acabou caindo morto na calçada. Do portão da residência da família, a mãe do adolescente assistiu toda a cena e precisou ser socorrida por uma ambulância.

A Polícia Militar confirmou que o menino era inocente e teria sido vítima de bandidos que disputam pontos de tráfico de drogas na região de Santa Rosa. O jovem, inclusive, evitava padarias mais próximas de lugares perigosos, temendo ser vítima de criminosos.

Como está o caso: o inquérito policial segue em andamento na Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Cariacica e, até o momento, nenhum suspeito foi detido.

ENQUANTO DORMIAM

Keyrison Santos Oliveira, 10 anos, e Kamile Santos Oliveira, de 8 anos
Keyrison Santos Oliveira, 10 anos, e Kamile Santos Oliveira, de 8 anos. Crédito: Acervo pessoal / Ilustração: Geraldo Neto

Os irmãos Keyrison Santos Oliveira, de 10 anos, e Kamile Santos Oliveira, de 8 anos, foram assassinados dentro de casa, enquanto dormiam, na madrugada do dia 16 de outubro de 2021, em Braço do Rio, Conceição da Barra, Norte do Espírito Santo. A residência em que as crianças, a mãe e o padrasto estavam foi invadida por homens armados, que atiraram e fugiram do local.

As investigações mostraram que as mortes foram provocadas por uma disputa do tráfico de drogas na localidade. Segundo a polícia, a mãe das crianças, de 31 anos, e o padrasto, de 17 anos, atuavam no tráfico e o rapaz era alvo dos criminosos. Quatro suspeitos — de 15, 16, 17 e 17 anos — foram localizados e apreendidos.

Como está o caso: a Polícia Civil informou que mais um jovem, de 18 anos, que estaria envolvido no crime, segue foragido.

CONFUNDIDO

Vitor Alvarenga Sperandio, 13 anos
Vitor Alvarenga Sperandio, 13 anos. Crédito: Acervo pessoal / Ilustração: Geraldo Neto

Vitor Alvarenga Sperandio, de 13 anos, foi assassinado com tiros de metralhadora na noite do dia 19 de julho de 2021, no bairro Cachoeira da Onça, em São Gabriel da Palha, Norte do Espírito Santo. Na ocasião, uma idosa, de 64 anos, foi atingida na mão por uma bala perdida. As investigações mostraram que foram dados mais de 15 tiros, dos quais quatro atingiram Vitor. Disparos foram feitos por dois indivíduos que chegaram em uma moto atirando.

Como está o caso: o delegado Rafael Caliman, responsável pela delegacia do município, afirma que Vitor não tinha nenhum envolvimento com atividades ilícitas e foi morto por engano. Um homem foi ao morro dos suspeitos atirar contra eles. Para se vingar, os criminosos foram ao bairro onde Vitor morava e o mataram por engano. O delegado destacou que o caso foi concluído e os dois criminosos, de 22 e 27 anos, foram presos.

NO PORTÃO DE CASA

Heloísa Dias Nascimento, 2 anos
Heloísa Dias Nascimento, 2 anos. Crédito: Acervo pessoal / Ilustração: Geraldo Neto

Heloísa Dias Nascimento, de 2 anos, estava no portão da casa de uma vizinha, alvo dos criminosos, quando foi vítima de bala perdida. O ataque aconteceu na Rua José Carlos Langa, no bairro Planalto, em Linhares, Norte do Espírito Santo, no início da noite do dia 3 de dezembro de 2020. 

Como está o caso: segue sob investigação da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Linhares. Segundo as investigações, o alvo dos suspeitos era a vizinha Sandra dos Santos Calixto, de 45 anos. O marido dela, Francisco de Assis dos Santos Calixto, foi morto a tiros em junho de 2020 e reforça a tese da polícia de ligação dos crimes com o tráfico de drogas. O mandante do crime foi morto durante uma troca de tiros com agentes de segurança da Bahia. Até o momento, nenhum suspeito foi detido.

BRINCAVA NA RUA

Jhonatan Pereira dos Santos, 5 anos
Jhonatan Pereira dos Santos, 5 anos. Crédito: Acervo pessoal / Ilustração: Geraldo Neto

Jhonatan Pereira dos Santos, de 5 anos, foi atingido na cabeça por uma bala perdida, na tarde do dia 23 de junho de 2021, no bairro Zumbi dos Palmares, em Vila Velha. Ele chegou a ser socorrido por populares e levado ao Hospital Infantil de Vitória, mas veio a óbito. No dia do crime, ele brincava na porta de casa com a babá.

O alvo dos disparos seria um homem conhecido como Charles. Ele estaria traficando drogas na escadaria e os criminosos fizeram uma emboscada, cercando o local para matá-lo.

Como está o caso: A Polícia Civil informou que o inquérito foi concluído e encaminhado ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES), com os autores presos, sendo três adultos e um adolescente apreendido.

NEGROS DE BAIRROS PERIFÉRICOS: AS VÍTIMAS 

Na avaliação do advogado, professor e presidente da Comissão de Igualdade Racial (Abracrim-ES), Marcos Vinícius Sá, as mortes de jovens negros não ocorrem ao acaso. "Há uma política de morte onde se dita quem pode viver e quem deve morrer, conforme ensina o filósofo Achille Mbembe", destaca. Vinicíus Sá salienta ainda que os dados comprovam o que movimentos e pesquisadores negros há anos apontam a respeito do genocídio da juventude negra. 

"Diversos são os fatores que levam ao extermínio da juventude negra: condições socioeconômicas, letalidade policial e ausência de políticas públicas que combatam tais desigualdades. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021 aponta que a chance de uma pessoa negra (pretos e pardos) ser assassinada é 2,6 vezes maior que uma pessoa não-negra (indígenas, amarelos e brancos). Daí a urgência de adoção de políticas públicas que combatam de frente a questão racial que assola o país", evidencia.

Para o mestre em Segurança Pública, Thiago Andrade, a população negra é atingida de uma ponta a outra, dos envolvidos nos crimes às vítimas inocentes, por essa vulnerabilidade social, em que emerge a guerra do tráfico de drogas. 

“A violência é exacerbada em bairros pobres e uma das formas de se resolver os conflitos". Andrade evidencia que, quanto mais cedo uma pessoa é aliciada pelo tráfico, menos valores sociais ela carrega consigo.

As mortes de crianças e adolescentes não são previstas pelos criminosos, segundo Andrade, mas ao ir a uma comunidade para matar um inimigo, eles não se importam em tirar a vida de outras pessoas.

“Uma das formas de você demonstrar força para o tráfico de drogas é realizar esses ataques. Os criminosos vão até a comunidade e saem disparando a esmo, sem uma vítima definida. Isso vai causar um pânico no local e dar um certo temor para aquele grupo que está ali. Eles pensam o que vale mais: a imprevisibilidade de ser investigado, preso e processado ou impor terror e conseguir aumentar o território e dominar uma localidade?", finaliza. 

Edição de conteúdo: Laila Magesk e Rodrigo Lira
Edição visual: Adriana Rios
Infografia e ilustração: Geraldo Neto

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