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Economia do ES pega impulso para crescer mais que o Brasil

PIB capixaba deve expandir mais que o nacional em 2021. Mas segunda onda da Covid-19 preocupa

Publicado em 03/12/2020 às 03h02
Atualizado em 03/12/2020 às 06h41

PIB capixaba pode avançar mais que o do Brasil

A economia do Espírito Santo deve expandir mais que a do Brasil em 2021, segundo projeções da Tendências Consultoria. Mas segunda onda da Covid-19, que começa a chegar ao Brasil e tem se alastrado por vários países da Europa, preocupa e pode frustrar avanço

O cenário posto pela crise do novo coronavírus continua a trazer incertezas quanto ao futuro da atividade econômica, mas já há projeções traçadas sobre como as economias capixaba e nacional deverão se comportar em 2021. A Tendências Consultoria Integrada estima que o Produto Interno Bruto (PIB) do Espírito Santo vai crescer 3,2% em 2021, desempenho superior ao esperado para o país, com alta estimada de 2,9%.

O crescimento, entretanto, vai ser em cima de uma base bastante deteriorada, uma vez que, para 2020, os números, especialmente o local, não são nada animadores. A Tendências calcula que o Estado terá retração no PIB de 9,8%, muito superior à queda nacional, de 5,6%.

Se esse dado se confirmar, será o pior desempenho da história da economia capixaba. Até hoje, a maior queda registrada foi em 2009, quando a geração de riquezas encolheu 6,9% em virtude da crise americana do subprime. Aliás, o dado projetado para 2020 coloca o Espírito Santo atrás somente do Rio Grande do Sul, que deve amargar perdas da ordem de 9,9%.

O economista da consultoria Lucas Assis explica que a retração capixaba sofre forte influência da relação do Estado com o setor da mineração. De acordo com ele, a queda da produção de pelotas pela Vale e a redução das exportações do minério de ferro pelo complexo portuário de Tubarão atingiram em cheio a economia, fazendo o resultado destoar da média nacional.

-9,8%

PREVISÃO DE QUEDA NO PIB DO ES EM 2020

“O setor extrativo tem um grande peso para a produção industrial do Espírito Santo, e o Estado foi fortemente afetado, principalmente no segundo trimestre, pelas paradas das usinas no Sistema Sudeste. Itabira (MG), por exemplo, fornece a matéria-prima para a produção de pelotas, e houve esse choque em 2020”, justificou o economista, ao citar que a previsão para a produção industrial capixaba é de queda de 16,4% em 2020, contra -7% do Brasil.

O desempenho ruim para a atividade econômica também é esperado por outros analistas, mas em menor grau. Tanto o economista Orlando Caliman quanto o diretor de Integração do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira, estimam que a contração do PIB deverá ficar na casa dos 5% e, portanto, não ser o maior impacto negativo contabilizado por aqui.

Lira está confiante em uma recuperação em V que, de acordo com ele, já é possível identificar desde o início do segundo semestre. O setor do comércio, por exemplo, teve o melhor mês de agosto dos últimos seis anos. Ele avalia ainda que o fato de o Espírito Santo ter um elevado grau de abertura para o comércio exterior vai contribuir para a melhora dos indicadores, já que lá fora muitos países estão à frente do Brasil no enfrentamento da Covid-19 e com suas economias em fase de retomada, como é o caso da China.

Pablo Lira

diretor de Integração do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN)

"Temos tudo para superar, mas claro que devemos sempre estar em estágio de alerta. Até porque a forte interseção com o mercado internacional da mesma forma que nos ajuda neste momento pode nos afetar se a segunda onda da doença se consolidar lá fora e levar à necessidade de nova suspensão das atividades econômicas"

Para Lira, as ameaças sanitárias e econômicas continuam existindo, mas em virtude de o Estado ter se estruturado de uma forma organizada no combate ao coronavírus, ter um ambiente de negócios propício e ter lançado mão de instrumentos como os fundos de Infraestrutura e Soberano - que, em sua visão, funcionam como mecanismos de estímulo ao desenvolvimento - permitem ao Espírito Santo atravessar e se sair melhor desta tempestade financeira e sanitária.

Caliman ressalta que, assim como o minério, o petróleo é grande responsável pelo recuo do PIB. Mas ele considera que mesmo que o percentual de retração venha a se apresentar igual ou até maior do que o de 2009, na prática, as pessoas sentirão menos o efeito da atual crise. “Isso porque o setor petrolífero não tem o mesmo efeito na economia real do que o estrago que ele faz no cálculo do PIB”, explica.

Além disso, o pagamento do auxílio emergencial pelo governo federal vem contribuindo para que as consequências da pandemia, em 2020, sejam menores do que as projetadas no primeiro momento pelos especialistas.

Lucas Assis finaliza dizendo que a Tendências acredita que a recuperação local e nacional vai acontecer em dois momentos distintos: um mais rápido, com a volta gradual das atividades e abertura do comércio, e outro mais lento por conta dos efeitos permanentes que uma crise dessa natureza implica ao mercado de trabalho, às empresas e às contas públicas.

Na sua avaliação, se 2020 fecha o ano em um contexto menos pessimista do que era esperado, em função das políticas de transferência de renda e de crédito, 2021 ainda guarda muitas surpresas e incertezas. “Em 2021, haverá a redução dos estímulos, especialmente do auxílio emergencial, e continuamos com uma fonte de risco de origem macroeconômica, o quadro fiscal, que segue bastante complicado especialmente por conta de toda a paralisia do governo para decidir o orçamento de 2021. Além disso, a possibilidade de flexibilização do teto de gastos gera uma percepção de risco elevada.”

Indústria se movimenta e puxa a “recuperação em V”

Crescimento da economia no Espírito Santo, no segundo semestre de 2020, tem sido tão rápida quanto foi a queda nos primeiros meses do ano. Esse movimento se chama "recuperação em V"

Linha de produção da Fibrasa
Linha de produção da Fibrasa na Serra. Crédito: Ricardo Medeiros

No Espírito Santo, os efeitos adversos da crise sanitária provocada pela Covid-19 acompanharam a escalada da doença. Se, por um lado, as mortes não devem ser tratadas como números, por outro, são eles que revelam os estragos na economia.

De abril a junho de 2020, o PIB no Estado apresentou um recuo de 5,9% na comparação com o trimestre anterior. Embora negativo, o indicador é melhor que o nacional, cuja queda foi de 9,7% no mesmo período avaliado.

-5,9%

RECUO DO PIB CAPIXABA ENTRE ABRIL E JUNHO DE 2020

O diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Daniel Cerqueira, argumenta que o Espírito Santo se saiu melhor, entre outros fatores, pela coordenação do governo estadual no enfrentamento à crise.

Daniel Cerqueira

Diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN)

"Existe um custo de manter a economia fechada e se buscou maneiras alternativas de mitigar os efeitos da pandemia, avaliando o que era possível abrir (atividades econômicas) sem risco à saúde da população, e com ações de financiamento às microempresas, o que foi fundamental. É um governo comprometido com a preservação das vidas, mas também com a saída organizada dessa crise suscitada pela Covid. Houve ainda um processo de diálogo amplo com o empresariado em que se demonstrou que, no futuro, a economia poderia se recuperar"

E, para Cerqueira, o Espírito Santo caminha para a chamada “recuperação em V”, com os setores econômicos, principalmente a indústria, já indicando uma tendência de melhores resultados no seu desempenho. Confirmando essa retomada, o presidente do IJSN vislumbra, a médio e longo prazos, um crescimento sustentável do PIB e taxas mais vigorosas que a fase pré-pandemia.

Ele afirma, porém, que não há como sustentar o aumento se não for através da produtividade. Assim, é imprescindível tornar a economia cada vez mais competitiva, diminuindo custos de transação, como a burocracia, e aumentando a eficiência. “A segunda questão é descortinar uma enorme riqueza oculta no Espírito Santo, que é o investimento nas pessoas, no capital humano”, defende.

O economista Eduardo Araújo considera que o Estado esteja passando pela “recuperação em V”, quando a retomada é tão veloz quanto a queda. A atividade econômica, nesses casos, volta ao nível pré-crise. No entanto, há uma possibilidade da oferta de postos de trabalho não acompanhar o mesmo ritmo de crescimento. Para ele, um dos grandes desafios do momento é o desemprego e a redução na renda.

A propósito, Araújo acredita que a década 2011-2020 vai terminar pior do que começou porque, além do quadro atual da pandemia, houve uma sucessão de crises que resultaram na redução de receitas para o poder público. “O repasse de recursos não melhorou nesses últimos anos; existem mais tributos sobre os contribuintes do que se devolve em obras”, constata.

Araújo afirma que as questões de emprego, de certa forma, estão diretamente vinculadas aos avanços dos projetos de infraestrutura, que não têm sido implementados na velocidade necessária para corresponder às demandas.

“Então, devemos entrar em 2021 com uma situação de agravamento no quadro de emprego e renda, o que vai exercer um desafio maior para o gestor público. Haverá mais pressão social, e o caixa não estará tão bom para fazer investimentos. É um momento de muitas incertezas, mas é bom lembrar que vivemos em um país com a potencialidade de riquezas naturais, e, no caso do Espírito Santo, situação fiscal melhor do que outros Estados.”

Recuperar a economia é o desafio dos novos gestores

Os municípios terão que se mobilizar para criar um ambiente de negócios capaz de atrair investimentos e ajudar no avanço da economia, abrindo empregos diretos e indiretos.

Data: 06/03/2020 - Coronavírus está afetando o cenário econômico mundial
Coronavírus está afetando o cenário econômico mundial. Crédito: Shutterstock

Ao observar os indicadores relacionados à pandemia, o economista Alberto Jorge Mendes Borges, diretor da Aequus Consultoria, recorda que alguns analistas extrapolaram nas previsões pessimistas para 2020. Contudo, no final do primeiro semestre, os municípios apresentavam um ganho de receita da ordem de 2%.

“Não é nada muito substancial, mas, em um cenário de pandemia, esperavam a derrocada das cidades. Eu achava que não seria terra arrasada, mas o FMI (Fundo Monetário Internacional), por exemplo, projetou uma queda de 10% no PIB, espalhando pânico. Hoje vemos que deve ficar abaixo de 5%”, pontua.

A perda de receita, afirma o economista, ficou concentrada no segundo trimestre, ou seja, no pico da pandemia. Depois, entraram em circulação recursos para os municípios e, ainda que o dinheiro tenha chegado tardiamente, está ajudando os gestores a honrar os seus compromissos. O foco de atenção de Alberto Borges já se volta para 2021, com desafio grande para os futuros prefeitos.

Alberto Borges

Economista e diretor da Aequus Consultoria

"Eles enfrentarão toda a dúvida sobre os reflexos da pandemia na economia brasileira, como a economia vai se comportar em um cenário sem o sistema de auxílio que, em 2020, foi muito forte tanto para as pessoas quanto para as cidades. A questão é: qual será o efeito lá na frente?"

Alberto Borges reconhece que o governo federal não vai ter muito dinheiro para injetar, pois, o endividamento público está alto e, portanto, não vai ter capacidade de alavancar a economia.

“O mais provável é que encontrem um cenário de baixo crescimento econômico e, quem for assumir, deve ter clareza que, com a economia assim, pode ser um pouco mais complexo equilibrar as contas. Não quer dizer que virá uma recessão, mas também não podemos dizer se teremos capacidade de uma retomada rápida da economia. Devemos andar de lado, como nos últimos anos, e as receitas públicas também”, conclui.

Data: 04/09/2019 - ES - Vitória - Foto aérea de Vitória, Terceira Ponte,Ilha do Boi, Curva da Jurema - Fotos aéreas para o aniversário de Vitória - Editoria: Cidades - Foto: Felipe Mota - Fly Now - GZ
Vista aérea de Vitória: capital do Espírito Santo. Crédito: Felipe Mota/Fly Now

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