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Volume de provas trava denúncia no MPES contra 20 indiciados na Operação Baest

Volume de provas trava denúncia no MPES contra 20 indiciados na Operação Baest

Relatório final do inquérito foi concluído em setembro de 2025, mas até agora ninguém foi denunciado; nova informação relacionada a desembargador pode alterar o rumo da investigação

Publicado em 5 de março de 2026 às 09:20

FIla de carros apreendidos durante a Operação Baest, da Polícia Civil
FIla de carros apreendidos durante a Operação Baest, da Polícia Civil Crédito: Divulgação | Polícia Civil

A Operação Baest, realizada em 2025, é citada pela alta cúpula de segurança do Espírito Santo como uma das mais relevantes dos últimos anos por alcançar o braço financeiro do Primeiro Comando de Vitória (PCV). A ação resultou na apreensão de R$ 100 milhões em bens e no indiciamento de 20 pessoas supostamente ligadas a crimes de lavagem de capitais. No entanto, passados quase seis meses desde a conclusão do relatório final, não houve o oferecimento de denúncia contra ninguém.

Após a Polícia Civil concluir as investigações, em setembro de 2025, o caso foi remetido ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES), responsável por avaliar todas as provas reunidas contra os indiciados e decidir se oferece denúncia, solicita mais dados para complementar a investigação ou arquiva o caso.

Questionado por A Gazeta sobre o não oferecimento das denúncias, o órgão ministerial disse que não chegou a essa etapa. O motivo, segundo o MPES, é o elevado número de investigados e de dados que ainda não foram recebidos nem analisados. Por conta disso, o órgão ministerial não teve acesso a todas as provas levantadas pelos investigadores para conseguir avançar na análise de cada indiciamento e na posterior conclusão das investigações.

A apuração encontra-se em fase extrajudicial, com dados pendentes de recebimento e análise probatória pelo Ministério Público, com reconhecida complexidade de fatos, quantidade expressiva de dados obtidos a partir de medidas cautelares judiciais, ainda não instrumentalizados integralmente pela Polícia Civil em relação a todos os investigados.

Ocorre que a situação, que já não era fácil de ser analisada, ganhou contornos ainda mais complexos. Nesta semana, a Polícia Civil revelou que vai precisar reavaliar todas as provas levantadas na operação, com possibilidade, inclusive, de abrir uma nova frente de investigação, diante do surgimento de novas evidências contra suspeitos em fevereiro, um deles com possível foro privilegiado. É o caso do desembargador federal Macário Júdice Neto, preso pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de vazar operações policiais.

O Ministério Público então verificou que ainda havia dispositivos cujos conteúdos não haviam sido extraídos nem analisados. Por essa razão, foi solicitada a análise desse material. A Polícia Civil informou que recebeu na terça-feira (3) esse pedido.

Revelação de delegado pode impactar o rumo da operação

As investigações que culminaram na Operação Baest eram tocadas pelo Centro de Inteligência e Análise Telemática (Ciat), uma unidade criada na estrutura da Polícia Civil totalmente focada em investigar movimentações do crime organizado no Estado, por meio de ferramentas capazes de alcançar dados telemáticos e cibernéticos.

Assinaram o relatório final quatro delegados, incluindo Romualdo Gianordoli Neto, que não era mais responsável pelo Ciat, por ter sido promovido a subsecretário de Inteligência na Secretaria de Estado de Segurança logo após o centro de investigações prender Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo.

Na última segunda-feira (2), o governo do Estado convocou uma coletiva para falar sobre os desdobramentos da Operação Baest. Isso porque surgiram informações de que os delegados que concluíram o relatório haviam identificado em um celular de um empresário da Serra, alvo de busca e apreensão durante a ação policial, conversas com o desembargador Macário Júdice Neto, mas não incluíram esses dados no documento final.

O magistrado do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) está preso desde dezembro, suspeito de vazar a Operação Zargun, realizada no Rio de Janeiro (RJ), que levou à prisão do ex-deputado Thiego Raimundos dos Santos, o TH Joias, que teria ligações com o Comando Vermelho.

O que os secretários de Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno; de Economia e Planejamento, Álvaro Duboc; e o delegado-geral da Polícia Civil no Espírito Santo, José Darcy Arruda, manifestaram é que não tinham ideia de que a operação realizada no Estado havia chegado ao nome do desembargador.

Conforme informaram, eles só tiveram conhecimento disso em fevereiro, quando Romualdo Gianordolli prestou depoimento no âmbito do inquérito aberto pela Corregedoria da Polícia Civil, que apura acusações levantadas por ele contra a instituição. Os secretários manifestaram ainda que, ao notar possível envolvimento de suspeito com foro, deveriam ter comunicado a situação ao comando da corporação.

Em outubro de 2025, após assinar a conclusão do relatório com os delegados do Ciat, Romualdo Gianordolli foi exonerado do cargo de subsecretário. O secretário de Segurança, Leonardo Damasceno, disse ter havido quebra de confiança na relação com o chefe José Darcy Arruda, uma vez que os delegados do Ciat precisam se reportar ao delegado-geral e não à subsecretaria, conforme decreto que estabeleceu a criação da unidade em 2022.

José Darcy manifestou que os delegados respondiam somente a Romualdo Gianordolli e que os relatórios não eram passados ao comando da Polícia Civil. Mas o delegado discordou das acusações e publicou vídeos nas redes sociais com críticas ao comando da Segurança no Estado, dizendo, inclusive, que a corporação se encontrava “bastante corroída”.

Romualdo Gianordolli ainda associou sua demissão ao fato de ele e os demais investigadores terem identificado, nas investigações, pessoas supostamente ligadas ao governo do Estado. E que, por conta disso, o comando da Secretaria de Segurança teria decidido desligá-lo da subsecretaria, e os seus colegas do Ciat.

Por conta dessas acusações, a Polícia Civil abriu um inquérito para apurar em qual aspecto haveria corrosão na estrutura e convocou Romualdo Gianordolli a depor e explicar as acusações. Ao justificar suas alegações, o delegado voltou a citar que as investigações haviam chegado a nomes importantes, como o do desembargador.

Foi aí, segundo o comando da Segurança, que o governo teve conhecimento de que mais pessoas poderiam estar ligadas à organização criminosa alvo da Operação Baest, incluindo Macário Júdice Neto, que por ser magistrado federal, tem direito a foro privilegiado.

O problema apontado pela secretaria é que essas informações não foram incluídas no relatório assinado pelo então subsecretário e pelos demais delegados. E pela relação desgastada, além das mudanças promovidas no Ciat, fruto desses conflitos, acabaram não chegando ao conhecimento do comando da Polícia Civil.

Além da informação envolvendo o desembargador, foi citado no depoimento de fevereiro a suspeita de que o empresário da Serra alvo da operação estaria envolvido em licitações do governo do Estado e que usava Macário Júdice como uma espécie de “consultor jurídico”.

Mudança de instância da investigação

Diante das novas suspeitas apontadas, a Polícia Civil, após nomear um novo coordenador para o Ciat, delegou a ele a função de rever todas as provas levantadas pelo grupo anterior que atuava na unidade.

A partir dessa revisão, o novo coordenador vai avaliar se cabe abrir uma nova frente de investigações para apurar os diálogos entre o empresário da Serra e o desembargador. Até o momento, de acordo com o Ministério Público, não há entre os 20 indiciados agente público com foro privilegiado.

Se a investigação caminhar nessa direção, pode ser que os casos relacionados ao desembargador deixem de tramitar na Justiça Estadual e tenham que ir para instâncias superiores. Desta forma, além de ter que analisar todas as provas levantadas até aqui pela Polícia Civil, o órgão ministerial precisa avaliar o que fazer com esses elementos novos relacionados às suspeitas de envolvimento em licitações públicas e as conversas com o desembargador.

De acordo com o Ministério Público, eventuais provas que interessem a outras investigações poderão ser compartilhadas pela Polícia Civil, mediante autorização, com outras autoridades, como a PF, caso haja indícios de envolvimento do desembargador.

O que dizem os citados

O governo do Estado, na entrevista coletiva dada nesta semana, disse que vai solicitar à Secretaria de Estado de Controle e Transparência (Secont) para analisar se há licitações estaduais envolvidas com suspeitos de ligação com a organização criminosa alvo da Operação Baest.

O Ministério Público informou que solicitou formalmente o acesso a todas as provas digitais produzidas para análise e individualização de condutas, manifestando-se em juízo pela manutenção da restrição de bens apreendidos e bloqueados.

“A apuração encontra-se em fase extrajudicial, com dados pendentes de recebimento e análise probatória pelo Ministério Público, com reconhecida complexidade de fatos, quantidade expressiva de dados obtidos a partir de medidas cautelares judiciais, ainda não instrumentalizados integralmente pela Polícia Civil em relação a todos os investigados”, informou.

O delegado Romualdo Gianordolli negou que tenha deixado de passar informações ao comando da Polícia Civil e rechaçou a acusação de que tenha criado um “Ciat paralelo”. Disse que seguiu rigorosamente o mesmo padrão histórico adotado pelo centro de investigação, com tramitação física na fase investigativa inicial, com posterior digitalização para conversão em processo judicial eletrônico.

Manifestou, por fim, que seria “irresponsabilidade funcional” e “violação frontal ao dever de sigilo” incluir, no relatório final da primeira fase, os nomes dos investigados da fase seguinte. “Isso não é transparência. É sabotagem da investigação. É entregar o jogo, alertar alvos, destruir provas e garantir a impunidade. Só alguém completamente alheio à prática investigativa ou comprometido com outro tipo de interesse defenderia algo assim.”

“Encerramos, de forma técnica e responsável, a primeira fase com os alvos já consolidados, e solicitamos o compartilhamento de provas para avançar à segunda fase — como manda a boa prática investigativa. O que houve, na sequência, não foi erro procedimental: foi uma obstrução branca. O núcleo investigativo foi desfeito de forma abrupta, desarticulando a continuidade dos trabalhos e comprometendo o avanço das apurações”, manifestou.

O delegado disse, por fim, que os indícios envolvendo agentes públicos foram levados diretamente à Secretaria de Segurança em outubro, mas não foram tomadas providências.

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