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PC vai reavaliar provas da Operação Baest após delegado citar Macário

PC vai reavaliar provas da Operação Baest após delegado citar Macário

Em coletiva de imprensa, a alta cúpula da Segurança no Estado afirmou que só ficou sabendo de diálogos entre empresário da Serra e desembargador neste ano, seis meses após o relatório final ser concluído

Publicado em 2 de março de 2026 às 17:44

Romualdo GIanordoli
Romualdo Gianordoli afirmou em depoimento à Polícia Civil que o empresário da Serra alvo da Operação Baest tinha ligação com desembargador Macário Júdice Crédito: Carlos Alberto Silva

Polícia Civil vai reanalisar todas as provas levantadas na Operação Baest, cujo relatório final foi concluído em setembro de 2025, e avalia se vai abrir uma segunda fase. A medida ocorre após o delegado Romualdo Gianordolli Neto revelar, em depoimento à Corregedoria da corporação, em fevereiro deste ano, que o celular de um empresário da Serra investigado no âmbito da ação policial continha conversas com o desembargador Macário Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2).

O magistrado capixaba está preso no Rio de Janeiro desde 16 de dezembro do ano passado, por suspeita de obstrução de investigação. Ele teria, supostamente, vazado informações sigilosas sobre a Operação Zargun, que prendeu o então deputado estadual do Rio de Janeiro TH Jóias, que seria ligado ao Comando Vermelho, em setembro do ano passado.

Nesta segunda-feira (2), o governo do Estado convocou coletiva de imprensa para falar sobre o assunto. Participaram o secretário de Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno, o secretário de Economia e Planejamento, Álvaro Duboc, e o delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda.

Em maio de 2025, os investigadores apreenderam o celular de um empresário e identificaram conversas com o desembargador. No entanto, de acordo com Damasceno, o relatório final assinado por Romualdo e outros delegados em setembro do ano passado não fazia nenhuma menção aos diálogos ou ao magistrado.

O secretário afirmou ainda que a alta cúpula da Segurança no Estado só foi tomar conhecimento dos diálogos em 2 de fevereiro deste ano, durante o depoimento de Romualdo na Corregedoria da Polícia Civil, no âmbito do inquérito aberto para apurar as declarações feitas por ele contra a corporação nas redes sociais. Na ocasião, ele disse que a instituição estava corroída.

“Em dezembro, o secretário de Segurança determinou a instauração de uma investigação para apurar o que Romualdo havia declarado. Se ele diz que tem problemas na Polícia Civil, que se apure”, explicou Álvaro Duboc.

Leonardo Damasceno afirmou que, diante das informações colhidas no depoimento, o novo coordenador do Centro de Investigação de Análise Telemática (Ciat), agora tem o papel de reanalisar todo o material levantado na operação. "A Polícia Civil hoje vai continuar a Operação Baest, exatamente para ver a complementação necessária daquilo que foi ocultado”, declarou.

José Darcy Arruda disse que as novas apurações estão nas mãos do delegado Guilherme Eugênio, que vai analisar todo o contexto daquela prova. "Se tiver que ser feita uma segunda etapa, certamente será feita”, declarou.

As informações sobre os diálogos só foram enviadas oficialmente à Secretaria de Segurança em 5 de fevereiro, quando Gianordoli anexou uma petição ao depoimento.

Questionado por A Gazeta sobre a não inserção das informações no relatório final, Romualdo afirmou que a primeira fase da ação já tinha muitas informações e os dados relativos ao telefone subsidiariam uma segunda etapa da operação. “A investigação estava grande demais, então fechamos o levantamento dos alvos que já tínhamos na primeira fase, o restante do material seria aberto em uma segunda”, declarou.

No depoimento à Polícia Civil, o delegado ainda revelou outra informação que não havia inserido no relatório final da operação, a de que o empresário preso estaria envolvido em licitações do governo do Estado e que o desembargador o auxiliaria como uma espécie de “consultor jurídico”.

Diante dessa nova revelação, a Sesp encaminhou as informações à Secretaria de Estado de Controle e Transparência (Secont), para avaliar se o empresário venceu processos licitatórios promovidos pelo governo do Estado.

Trâmite avaliado como inadequado

O governo do Estado avaliou que o trâmite adotado pelo delegado não foi o adequado e que, ao identificar uma conversa de alguém como o desembargador, com foro privilegiado, deveria ter compartilhado as informações, para ser avaliado se a investigação deveria subir de instância, e acionado os órgãos de controle para apurar as licitações.

“Quando nós obtemos uma prova onde há prerrogativa de foro envolvido e que não é a instância em que o processo está tramitando, você faz um relatório, encaminha ao juiz e, se ele não tem competência, encaminha o caso para outra instância. Infelizmente, parece que isso não foi feito. Os delegados deveriam ter tomado essa providência tão logo tomaram conhecimento se haveria algo de ilícito na relação entre o empresário e o magistrado”, declarou Álvaro Duboc.

O delegado-geral, por sua vez, afirmou que Romualdo, enquanto subsecretário de Inteligência, não deveria ter acesso irrestrito às investigações da Polícia Civil e que agiu de forma a criar um “Ciat paralelo”.

“Agora a Corregedoria quer saber por que ele fez isso por fora? O que levou a fazer isso? Qual era a intenção? Qual era o objetivo? Por que não pediu ao Ministério Público e ao Poder Judiciário uma autorização para  compartilhar as informações? Por que ficou de maio a setembro com esse material escondido? É isso que queremos saber dele”, declarou Arruda.

Em dezembro, quando fez publicações falando de sua exoneração, Romualdo Gianordoli relacionou as exonerações promovidas por José Darcy Arruda no Ciat à descoberta de pessoas com supostas ligações com a gestão estadual.

O secretário de Segurança explicou que, desde meados de 2025, a relação de Romualdo com o comando da Polícia Civil já estava desgastada e que houve uma quebra de confiança, momento no qual foi aberta uma apuração interna para avaliar a apropriação de informações. “Ele saiu do Ciat levando os computadores com o conteúdo pertencente à Polícia Civil”, declarou. De acordo com o secretário, a exoneração de Romualdo ocorreu pela perda de confiança com o delegado-geral.

Leonardo Damasceno negou, por fim, que as exonerações tenham ligação com as conversas do desembargador, uma vez que os diálogos só chegaram ao conhecimento do Estado meses após as mudanças no Ciat. 

“São dois assuntos completamente distintos, separados e independentes, sem absolutamente relação nenhuma entre eles. A Operação Baest e a exoneração do Romualdo não têm qualquer relação com Macário. A gente diz isso com muita firmeza e com muita clareza. Em nenhum momento foi falado comigo ou com o delegado-geral sobre Macário sobre a Operação Baest”, declarou o secretário de Segurança.

A reportagem procurou o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) para saber sobre a reavaliação das provas e sobre o possível envolvimento do magistrado com o empresário investigado, mas até a publicação da reportagem não houve retorno.

Delegado nega apropriação de informações

Romualdo afirmou que o pronunciamento do secretário de Segurança, ao afirmar que teria ocorrido apropriação indevida de dados da Polícia Civil, carece de fundamento e beira o absurdo. “É, francamente, ridículo”, afirmou.

“Nossa equipe trabalhou diretamente com esses dados no exercício regular de nossas funções institucionais. Não se trata de qualquer acesso clandestino ou indevido, mas sim de conhecimento adquirido de forma legítima, técnica e profissional. A insinuação de que deveríamos simplesmente 'esquecer' tudo o que foi analisado, como se fosse possível uma espécie de lobotomia institucional, revela uma visão distorcida, ou, no mínimo, extremamente conveniente, da realidade”, alegou.

O delegado afirmou, por fim, que a gestão estadual tenta inverter a lógica dos fatos para proteger posições e preservar cargos. “Em vez de enfrentar o mérito das informações e dos questionamentos apresentados, opta-se por atacar quem trabalhou seriamente com os dados. A sociedade não é ingênua. E nós tampouco aceitaremos narrativas frágeis, construídas às pressas, para defender interesses políticos. O compromisso desta equipe sempre foi, e continuará sendo, com a verdade, com a legalidade e com a responsabilidade institucional”, manifestou.

Em janeiro, o delegado foi transferido para a Delegacia Especializada de Acidente de Trabalho (Deat), em Boa Vista II, na Serra, após ser exonerado da Subsecretaria de Inteligência e de publicar vídeos críticos ao comando da Segurança no Estado.

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