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Governo do ES e delegado discutem nas redes sociais e briga pode parar na Justiça

Governo do ES e delegado discutem nas redes sociais e briga pode parar na Justiça

Romualdo GIanordoli fez vídeo com acusações contra a Polícia Civil e Secretaria de Segurança reagiu, chamando as alegações de falsas, e o acionou na Corregedoria

Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 21:23

Romualdo GIanordoli
Romualdo GIanordoli, delegado da Polícia Civil, entrou em conflito com a cúpula da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social, após publicar vídeo com ataques à corporação Crédito: Carlos Alberto Silva

A exoneração do delegado Romualdo Gianordoli Neto da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) se converteu em uma briga nas redes sociais entre ele e o comando da pasta. Incomodado com a demissão, o delegado publicou um vídeo no Instagram com acusações contra a Polícia Civil e irritou a alta cúpula da Segurança estadual, que acionou a Corregedoria da corporação. O caso ainda pode parar na Justiça.

No fim de dezembro, Romualdo fez a primeira publicação no Instagram, em collab (colaboração) com um perfil de política de direita, sobre sua exoneração, e disse que em breve explicaria por qual razão havia sido rebaixado na secretaria. O delegado ainda deu a entender que pode ser candidato nas próximas eleições e, inclusive, respondeu a seguidores que, caso se filiasse, seria em um partido alinhado ao seu campo político.

“O sistema não gosta de quem fala demais. Muito menos de quem fala a verdade. Em breve, vocês vão entender por que fui exonerado”, escreveu Romualdo na legenda.

Em 6 de janeiro, o delegado publicou um novo vídeo, no qual faz uma série de alegações contra a Sesp e a Polícia Civil. A publicação foi feita em colaboração com o mesmo perfil de direita do primeiro post e um outro, este ligado a uma frente conservadora do Estado.

No vídeo, Romualdo associa sua exoneração à Operação Baest, liderada por ele enquanto subsecretário de Inteligência, realizada em maio de 2025. A ação levou ao bloqueio de R$ 100 milhões em carros, imóveis e contas de criminosos. O delegado afirma que havia conseguido alcançar o braço financeiro da organização ligada ao traficante Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo, e identificado um empresário da Serra que estaria envolvido com o crime organizado.

Segundo afirmou Romualdo no vídeo, as investigações contra esse empresário acabaram não avançando, pois ele teria ligação com pessoas do “alto escalão” da sociedade, que teriam contato com o governo do Estado e com a Polícia Civil. Neste momento da gravação, o delegado afirmou que a corporação se encontra “bastante corroída”.

“A Operação Baest é exatamente o que acontece quando se chega a um indivíduo desse. Ele ameaça entregar todos os outros que gravitam em sua volta. Então, na verdade, ele ameaça implodir o sistema. Quando se chega numa pessoa dessa, e o sistema, quando se sente ameaçado, reage”, afirmou o delegado no vídeo.

Ao tomar conhecimento do vídeo, a cúpula da Sesp reagiu e respondeu Romualdo no próprio post feito por ele no Instagram. Na resposta enviada ao delegado, a pasta afirmou que embora seja legítimo a integrantes das forças policiais terem pretensões eleitorais, a destituição de cargo comissionado não pode ser utilizada como pretexto para ataques levianos.

Sesp decidiu processar delegado

Procurada por A Gazeta nesta quinta-feira (8), a secretaria repudiou as alegações de Romualdo e afirmou que as afirmações do delegado são falsas, levianas e irresponsáveis.

A Sesp afirmou que a exoneração ocorreu em razão do desgaste da relação interpessoal do então subsecretário com integrantes da estrutura da segurança pública. Na avaliação da secretaria, essa circunstância se apresentou como incompatível com a condução de uma função estratégica e sensível.

A secretaria acrescentou que, “em razão da gravidade das declarações divulgadas, as manifestações foram formalmente tratadas como notícia-crime, o que resultou na instauração dos procedimentos cabíveis para apuração integral dos fatos”.

As providências incluem o acionamento dos órgãos competentes, tanto no âmbito da Corregedoria da Polícia Civil quanto da Justiça comum, nos termos da legislação vigente.

De acordo com a Sesp, no curso da apuração, Romualdo será regularmente intimado para apresentar, “de forma pormenorizada”, os elementos de prova que sustentem suas alegações.

Ainda segundo a secretaria, a ausência de comprovação poderá levar à responsabilização nas esferas penal e administrativa, inclusive pelos crimes de denunciação caluniosa e desvio funcional, caso reste caracterizado o uso indevido de informações protegidas por sigilo judicial.

Delegado Romualdo Gianordoli faz acusações contra Polícia Civil e governo do Espírito Santo reage
Delegado Romualdo Gianordoli faz acusações contra Polícia Civil e governo do Espírito Santo reage Crédito: Reprodução Instagram

Romualdo afirma que foi surpreendido com decisão da Sesp

Em conversa com A Gazeta nesta quinta-feira (8), Romualdo afirma ter recebido com surpresa a informação de que responderá a procedimentos administrativos e criminais. "Até o momento, não fui formalmente comunicado sobre a instauração de qualquer medida dessa natureza, e sigo absolutamente tranquilo e à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários."

Romualdo ressalta que as suas manifestações não possuem cunho político. "Tampouco se dirigem à instituição Polícia Civil, que é a minha casa, da qual me orgulho e à qual dediquei minha trajetória profissional. As observações realizadas dizem respeito exclusivamente a atos administrativos específicos, que considero atípicos e merecedores de reflexão sob a ótica da legalidade e da boa administração pública, sempre com respeito institucional e dentro dos limites da lei", conclui.

Delegado responsável pela prisão de Marujo

Romualdo Gianordoli ganhou notoriedade após comandar a operação que resultou na prisão de Marujo, em março de 2024. Em setembro daquele ano, meses após a ação, o delegado foi promovido e virou subsecretário de Estado de Inteligência.

A relação, até então harmoniosa publicamente, ganhou outros contornos em outubro de 2025, quando foi publicada no Diário Oficial do Estado sua exoneração. Na ocasião, ao ser questionado pelo colunista Leonel Ximenes sobre o rebaixamento, Romualdo atribuiu o afastamento a um “desentendimento profissional” com o delegado-geral da Polícia Civil, [José Darcy Arruda]. “O governo [do Estado] considerou que isso deixaria e equipe rachada e optou por me tirar”, afirmou.

Fora do comando da subsecretaria, o delegado foi nomeado para exercer uma função gratificada de assessoria na Sesp, pelo secretário estadual da Segurança Pública, Leonardo Damasceno, mas foi dispensado do cargo em 16 de dezembro. Após a dispensa, Romualdo afirmou que recebeu a exoneração com surpresa e tratou o caso como desrespeito.

Por ser concursado, ele não perde o emprego e seguirá como delegado, mas só deve se apresentar à corporação para o trabalho em 29 de janeiro, uma vez que está de férias.

Nota da Sesp na íntegra

“A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) e a Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) repudiam de forma veemente, categórica e inaceitável as declarações falsas, levianas e irresponsáveis proferidas pelo delegado Romualdo Gianordolli Neto, que, em publicação nas redes sociais, tenta atribuir sua destituição do cargo de Subsecretário de Inteligência à Operação Baest, lançando acusações graves e infundadas contra integrantes da Polícia Civil e do Governo do Estado.

 A Sesp e a PCES esclarecem, de maneira inequívoca, que a destituição do delegado não teve qualquer motivação política, tampouco guarda relação com empresários investigados ou com a Operação Baest. A exoneração ocorreu em razão do desgaste da relação interpessoal do então subsecretário com integrantes da estrutura da segurança pública, circunstância incompatível com a condução de uma função estratégica e sensível.

 A Sesp informa, ainda, que, em razão da gravidade das declarações divulgadas, as manifestações foram formalmente tratadas como notícia-crime, o que resultou na instauração dos procedimentos cabíveis para apuração integral dos fatos. As providências incluem o acionamento dos órgãos competentes, tanto no âmbito da Corregedoria da Polícia Civil quanto da Justiça comum, nos termos da legislação vigente.

 No curso da apuração, o autor das declarações será regularmente intimado para apresentar, de forma pormenorizada, os elementos de prova que sustentem suas alegações. Ressalte-se que a ausência de comprovação poderá ensejar responsabilização nas esferas penal e administrativa, inclusive pelos crimes de denunciação caluniosa e desvio funcional, caso reste caracterizado o uso indevido de informações protegidas por sigilo judicial.

 Quanto ao acesso aos autos, eventual publicidade observará estritamente os limites legais, em especial aqueles relacionados ao sigilo das investigações, à proteção institucional e às garantias do devido processo legal.

 Atualmente, o delegado está em gozo de férias e será alocado em uma nova unidade, assim que retornar às atividades. Por fim, a Secretaria da Segurança Pública e a Polícia Civil reafirmam seu compromisso inegociável com a legalidade, a verdade, a ética e o caráter técnico de suas atuações, ressaltando que os avanços consistentes no combate ao crime e na redução da violência no Espírito Santo são resultado do trabalho profissional, responsável e comprometido de seus policiais, sempre em defesa do interesse público e da sociedade capixaba.”

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