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O dinheiro do futuro: coronavírus acelera uso do pagamento digital

A pandemia revolucionou rapidamente as transações financeiras. Moeda em papel e até o cartão de crédito caíram em desuso e dão ligar às operações sem contato físico e até vestíveis, como relógios e pulseiras

Publicado em 20/06/2020 às 06h00
Atualizado em 20/06/2020 às 12h27
Meios de pagamento estão ficando mais digitais e acessíveis a todos os consumidores
Meios de pagamento estão ficando mais digitais e acessíveis a todos os consumidores. Crédito: Shutterstock

Esqueça aquela frase que diz: "Dinheiro agora é plástico". Andar com moedas, notas e até cartão no bolso também vai ser cada vez mais coisa do passado. Agora, o dinheiro está se tornando cada vez mais invisível.

Isso porque a tendência de digitalização dos meios de pagamentos, que já acontecia a passos mais lentos nos últimos anos, foi acelerada pela pandemia do novo coronavírus, mudando a forma de as pessoas pagarem e receberem, provocando uma verdadeira revolução no setor financeiro.

Cartão contactless permite compra por aproximação e até sem senha dependendo do valor
Cartão contactless permite compra por aproximação e até sem senha dependendo do valor. Crédito: Divulgação/Carrefour

Se o cartão de crédito até pouco tempo era uma das formas mais modernas de se pagar uma compra, o mecanismo físico tem sido deixado de lado para evitar o contato com as maquininhas e deve se tornar cada vez mais virtual, sendo apenas um número para ser usado em aplicativos de pagamento como contas digitais e carteiras virtuais.

Os pagamentos por QR code, que já vinham ganhando milhares adeptos, ou mesmo pelas maquininhas mais modernas em que não é preciso nem mesmo digitar a senha dependendo do valor da compra (tecnologia chamada contactless), tiveram a importância reforçada pelo vírus para evitar o contato físico e a possível contaminação.

Só PicPay, por exemplo, viu sua carteira ganhar 7 milhões de clientes com a pandemia e já bateu a meta de novos usuários para o ano em maio. Já o Nubank saltou de 20 milhões para cerca de 25 milhões de clientes.

No Itaú Unibanco, as transações com cartões virtuais cresceram 150% em maio em relação ao mesmo período do ano anterior. Já as carteiras digitais ganharam força nas compras em mercados. “O receio de entregar seu cartão à pessoa do caixa ou tocar na maquininha, fez com que 50% do total transacionado com Apple Pay, Google Pay ou Samsung Pay fosse concentrado nos mercados, mais do que o triplo do que costumávamos ver antes da pandemia”, disse Rubens Fogli, diretor do grupo.

As transformações não param por aí. Ganharam força também os meios de pagamentos "vestíveis". No Santander, em apenas 45 dias foram vendidos 20 mil modelos assim, os chamados wearables. São pulseiras, tags de relógio e até simples adesivos que permitem o pagamento por aproximação e sem contato físico.

Pulseira do Santander pode substituir cartões para pagamentos por aproximação
Pulseira do Santander pode substituir cartões para pagamentos por aproximação. Crédito: Divulgação/Santander

No banco, cresceram 200% as transações com dispositivos com tecnologias de pagamentos por aproximação (NFC, na sigla em inglês) entre abril do ano passado e abril deste ano. Segundo o Santander, mais de 500 mil dispositivos NFC, incluindo cartões contactless e os meios vestíveis, já são utilizados entre seus clientes.

Para quem não tem aplicativos que permitam essas transações, outra solução nasceu na quarentena: o pagamento por link. Uma das empresas que já adotou essa solução foi o InoveBanco.

"O cliente faz as compras e recebe por WhatsApp ou SMS um link para o check-out de pagamento. Ele digita seus dados pessoais, do cartão, e já recebem na hora. Além disso, com a pandemia também tivemos que acelerar nossas soluções de pagamento instantâneo, sobretudo pro QR code", explicou o CEO do InoveBanco, Patrick Burnett.

PAGAMENTOS POR WHATSAPP 

O maior símbolo dessa mudança cultural até aqui veio nessa semana. O aplicativo de mensagens WhatsApp lançou o envio de dinheiro pelo app no Brasil, como transferências e pagamentos. Com isso, essa facilidade deve alcançar pessoas sem acesso a outras ferramentas já existentes, já que o WhatsApp opera também em aparelhos mais simples.

As transações pelo app terão limite de R$ 1 mil cada, e de R$ 5 mil por mês neste primeiro momento. Será preciso ter cartões de débito ou crédito dos bancos parceiros e conectá-los ao sistema do Facebook Pay, do mesmo grupo.

O Brasil será o primeiro país a receber a novidade justamente pelo fato do WhatsApp ser bem difundido tanto por empresas quanto por pessoas, inclusive de baixa renda.

Para Alexandre de Souza Pinto, que é diretor de Inovação e Novos Negócios da Matera, empresa que atua como provedora de tecnologia para o mercado financeiro, tudo isso começou ainda em 2013, quando o Banco Central permitiu a abertura do mercado de contas digitais no país e, assim, a concorrência no setor aumentou. Hoje, segundo ele, são cerca de 140 instituições de pagamentos no Brasil. Até pagar multas e impostos já é possível pelas carteiras e contas digitais.

WhatsApp vai permitir pagamento e transferência de recursos pelo app
WhatsApp vai permitir pagamento e transferência de recursos pelo app. Crédito: Facebook/Divulgação

Alexandre de Souza Pinto

Diretor de Inovação e Novos Negócios da Matera

"A pandemia obviamente acelerou essa digitalização. Mas esse é um tipo de coisa que quando as pessoas se acostumam e começam a usar é difícil voltar atrás. A entrada do WhatsApp é uma ponta do iceberg ainda nessa mudança de cultura, porque o brasileiro ele vira a chave rápido. Haverá uma chacoalhada no mercado"

BANCARIZAÇÃO É UM DESAFIO

Outro grande investimento que já está permitindo essa revolução chegar nas classes mais baixas na pandemia foi feito pela Caixa Econômica Federal. Para receberem o auxílio emergencial de R$ 600 do governo durante a pandemia, milhões de brasileiros ganharam uma conta poupança digital gratuita. A conta é movimentada pelo aplicativo Caixa Tem, que funciona como uma carteira virtual que permite pagamentos, transferências e compras.

Muitos, mesmo os mais humildes, passaram a usar o Caixa Tem para pagar seus compromissos ou migraram o dinheiro para aplicativos como PicPay e Mercado Pago. Precisaram fazer isso porque não tinham conta em banco e porque o papel-moeda não existe na quantidade necessária para atender aos beneficiários do auxílio. Com isso, já foram realizadas cerca de 1,5 milhão de operações pelo app desde abril, de acordo com dados do banco.

O auxílio obrigou a milhões a se bancarizar. Ainda assim, cerca de 45 milhões de brasileiros ainda não possuem conta em banco. De acordo com a diretora-executiva da Associação Brasileira de Fintechs (Abfintechs), Ingrid Barth Linker, isso é um empecilho para o avanço dessas novas soluções de pagamentos.

"Apesar de o sistema de pagamento brasileiro ser uma referência mundial, a gente ainda tem um número gigante de pessoas desbancarizadas, sem nenhum acesso a serviços financeiros e usando banco. Isso é um problema que a gente não consegue resolver de um dia pro outro, mas iniciamos esse processo", comentou.

Aplicativo Caixa Tem onde o beneficiário recebe o auxílio emergencial
Aplicativo Caixa Tem onde o beneficiário recebe o auxílio emergencial. Crédito: Siumara Gonçalves

Há um problema ainda no caso de quem foi inserido forçadamente no sistema bancário agora: eles não tiveram a opção de escolher um produto ou serviço mais adequado à sua realidade, segundo Ingrid. "Há muitos sub-bancarizados, que são pessoas com produtos e serviços financeiros ou que são muito ruins, ou não foram desenhados para ela, ou são caros, ou ela não tem total controle sobre aquele dinheiro e liberdade para usá-lo. Tudo isso gera uma série de impactos".

Ela ainda ressaltou: "Com a pandemia, muitos desses problemas foram expostos. Muita gente não sabia disso. E as pessoas tiveram que aprender a toque de caixa a usar esses apps. É um volume de pessoas muito grande e um único fornecedor. Isso então não era o ideal".

Além da bancarização, a diretora da Abfintechs fala em mais três desafios para ampliar o acesso aos meios de pagamento digitais e as fintechs de maneira geral: dar mais acesso ao crédito e de forma mais barata; oferecer cada vez mais usabilidade e praticidade, e fazer isso de forma a humanizar as relações das pessoas com o sistema financeiro. "A relação do consumidor com o banco sempre foi muito caótica, complicada. Até por isso muitos não são bancarizados. É uma realidade que precisamos mudar", avaliou.

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