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Furto de fios de cobre é novelo que deve ser desenredado por completo

Sem estratégia, apreensões vão se limitar a pequenas quantidades, enquanto quadrilhas, ferros-velhos clandestinos e empresários que dão ar de legalidade ao material continuarão a tocar esquema milionário

Publicado em 06/03/2021 às 02h00
Área de descarte de resíduos do furto de fios de cobre, embaixo da Ponte da Passagem, em Vitória
Área de descarte de resíduos do furto de fios de cobre, embaixo da Ponte da Passagem, em Vitória. Crédito: Fernando Madeira

“Vitória enfrenta uma onda de roubo de fios elétricos em locais públicos.” A informação soa recente, mas foi registrada em matéria deste jornal, em dezembro de 2018, após um escalonamento no número de ocorrências do tipo, não somente na Capital. Naquele ano, apenas o município da Serra registrou um prejuízo de R$ 1,6 milhão aos cofres públicos. De lá para cá, o furto de cobre, foco dos ladrões com a retirada dos cabos, explodiu em todo o país, em um negócio ilícito que desconhece crise. O esquema lucrativo, inclusive, tem sido catapultado pela pandemia e pela alta do dólar.

Nos primeiros 45 dias deste ano, período em que foram apreendidos mais de 600 quilos de cabos furtados, Vitória já acumulou perdas de quase meio milhão de reais. Além do rombo financeiro às cidades, os furtos geraram uma série de transtornos à população, como interrupção de serviços de telefonia e internet, falta de energia, apagão de câmeras de vigilância e caos no trânsito, em decorrência de falhas nos sistemas semafóricos. Atualmente, a Capital tem 10 pontos sem iluminação pública devido à ação criminosa. Em um deles, Camburi, trecho da praia ficará às escuras até abril por conta de entraves burocráticos na contratação de empresa para repôr a estrutura.

Essa realidade espraia-se sem qualquer sutileza. Na Serra, 12 postes foram derrubados a marretadas. Em Cariacica, um único homem foi detido com 80 rolos de fios roubados. Na Capital, há casos que beiram o surreal, como o flagrante de um casal que, sozinho, carregava meia tonelada do material retirado da Ponte da Passagem. O local, aliás, é um dos pontos viciados de furtos na Região Metropolitana, a exemplo dos bairros da Praia do Canto e Enseada do Suá e das rodovias do Contorno e BR 101.

Apesar de algumas apreensões vultosas e de notificações de comércios clandestinos, o negócio floresce. A falta do material no mercado durante a pandemia, devido à paralisação da produção em países como o Chile, e a alta do dólar provocaram um boom no preço da commodity, e o quilo do cobre mais do que duplicou de valor nos últimos meses. Detenções de pequenas porções de fios são a ponta do iceberg de um poderoso arranjo, que movimenta milhões de reais em todo o país.

A corrente é azeitada. Começa com pequenos furtos cometidos, em sua maioria, por usuários de drogas e moradores de ruas cooptados pelas quadrilhas, passa por receptadores e ferros-velhos clandestinos até chegar às mãos de empresários, que derretem os fios e usam notas frias para retornar o material ao mercado lícito, em barras. A partir do momento em que o metal é derretido, o rastreio do material é quase impossível. Desse ponto em diante, o cobre é vendido em apps de comércio eletrônico e em lojas físicas. A “lavagem” do metal pode fazer com que ele seja adquirido até mesmo por empresas de engenharia e tecnologia que, lá na ponta da cadeia, tiveram esse material roubado de suas próprias infraestruturas.

É um esquema muito bem articulado, ao contrário das investigações. Recentemente, em resposta a este jornal sobre a frequência de ocorrências do tipo no Estado, a Polícia Civil informou que “não é possível compilar o número de prisões relacionadas ao furto e receptação, uma vez que os registros ocorrem em cada unidade policial e o sistema não permite a compilação por produto”. Se não existe dado tão básico, pairam dúvidas sobre como pretendem combater o desconhecido.

Nos últimos anos, houve projetos de lei, operações policiais e melhoramentos técnicos, como aplicação de concreto sobre os fios subterrâneos, para tentar atacar o problema. Até uma força-tarefa foi montada em Vitória no ano passado. Mas, na contramão das expectativas, os prejuízos saltaram de R$ 70 mil por mês para mais de R$ 300 mil na Capital.

Sem estratégia, PM e guardas municipais vão se limitar a apreensões depois que os fios de cobre foram subtraídos e os prejuízos foram feitos. Dado o caráter episódico do crime e o fato de que a força policial não é onipresente, também vão continuar reféns de flagras por câmeras de videomonitoramento ou denúncias anônimas. Sem um forte trabalho de investigação, que mapeie pontos de coleta, quadrilhas, receptadores, ferros-velhos clandestinos e empresários que dão ar de legalidade ao material, as detenções vão se limitar às formigas operárias, enquanto carretas com toneladas de cobre roubado vão continuar a circular pelas rodovias do país. O fios furtados, que parecem um problema tão local, são na verdade parte de um grande novelo. É preciso desenredá-lo por completo.

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