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Visita de Bolsonaro ao ES foi marcada após pressão política de aliados

Desgastado com a CPI da Covid e longe do Estado há quase três anos, desde a disputa pelo Planalto, presidente foi cobrado por apoiadores para incluir viagem na agenda

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 21/05/2021 às 18h33
Jair Bolsonaro em visita a Vitória, durante a campanha para as eleições de 2018
Jair Bolsonaro em um trio, em Vitória, durante a campanha para as eleições de 2018. Crédito: Marcelo Prest

A provável visita do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao Espírito Santo no próximo dia 11 de junho, a primeira desde que ganhou a eleição em 2018, terá um palanque disputado. Para aliados bolsonaristas no Estado, o encontro vai "quitar" uma dívida do chefe do Executivo nacional com os capixabas, onde ele teve boa votação, alcançando 63% dos votos válidos no segundo turno.

Em meio ao desgaste sofrido pelo governo federal com a CPI da Covid, a viagem ao Estado está sendo considerada um movimento estratégico. O objetivo é tanto consolidar o eleitorado que o apoiou nas últimas eleições quanto unir os grupos políticos conservadores que giram no entorno de Bolsonaro.

Após reportagem de A Gazeta do último dia 12 de maio registrar que o Espírito Santo é o único Estado que Bolsonaro ainda não visitou durante o mandato, parlamentares alinhados ao presidente, como Evair de Melo (PP), Soraya Manato (PSL) e Neucimar Fraga (PSD) "cobraram" publicamente uma viagem a terras capixabas. Menos de uma semana após a publicação da matéria, o chefe do Executivo comentou a ausência durante um almoço com Soraya Manato, na terça-feira (18).

"Tô devendo uma visita aí. Fui intimado. Vindo dela, né, que é esposa do meu ‘irmão’ Manato, eu não tenho como recusar. Em breve estaremos aí para dar um abraço em todos vocês. Muito obrigado pelo apoio e consideração", disse, em vídeo publicado pela deputada.

Aliado de Bolsonaro e principal adversário do governador Renato Casagrande (PSB) em 2018, Carlos Manato (sem partido) afirma que a visita do presidente terá um tom de "união do conservadorismo". A presença de Bolsonaro colocará no mesmo palanque ele e o deputado federal Evair de Melo, que é um dos vice-líderes do presidente na Câmara e apontado como um possível candidato a governador em 2022.

"A visita é uma forma de Bolsonaro reconhecer tudo que o capixaba fez por ele. Só não veio antes por conta da oposição que ele enfrenta aqui com o governador Casagrande. Eu não vou na casa de uma pessoa que não vai me tratar bem. Esse encontro será uma oportunidade para unir os conservadores, que é o que eu tenho pregado. A gente pode ter nossas convergências, mas na hora da eleição, precisamos estar do mesmo lado", disse Manato.

A agenda do presidente no Espírito Santo, ainda em elaboração, deve contemplar visitas a obras federais de infraestrutura, como o Aeroporto de Linhares e a entrega de casas populares em São Mateus. Um sobrevoo pela Grande Vitória ou até uma ida a Venda Nova do Imigrante, onde Bolsonaro obteve o maior percentual de votos no segundo turno, com 81% dos eleitores, também são cogitados. Há ainda na lista de possibilidades uma reunião com empresários.

O deputado federal Neucimar Fraga esteve com o presidente no último dia 12 de maio, no Palácio do Planalto, no mesmo dia em que a reportagem de A Gazeta indicou que o Espírito Santo era o único Estado que não recebeu Bolsonaro durante o mandato. Em vídeo, publicado pelo parlamentar em suas redes sociais, ele convida o presidente para a inauguração do campus de Barra de São Francisco do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).

"Está faltando o Espírito Santo. Eu reconheço", disse Bolsonaro, na gravação. "Vamos, sim. Vamos comparecer. Estou devendo, estou atrasado. É um Estado que me deu uma grande apoio nas eleições e esteremos juntos, brevemente, se Deus quiser", complementou o presidente.

O encontro com os capixabas ainda não é confirmado pela Presidência da República, que aguarda uma proximidade maior da data para marcar a visita ao Estado na agenda de Bolsonaro. No entanto, segundo a deputada federal Soraya Manato, haverá uma reunião na próxima terça-feira (25) com assessores do Planalto, em que o tema já deve ser tratado.

ES É ROTA SEGURA

Caso se confirme, a primeira viagem de Bolsonaro ao Espírito Santo como presidente acontecerá em um momento de intenso desgaste para o mandatário, principalmente por conta da CPI da Covid. A comissão no Senado, que investiga uma suposta omissão por parte do governo federal na gestão da pandemia, contou com depoimentos explosivos desde que foi instalada, em 27 de abril. 

Declarações dos ex-ministros Luiz Henrique MandettaNelson TeichErnesto Araújo e Eduardo Pazuello, além dos testemunhos do ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajngarten e do gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, levantaram uma série de questionamentos em torno da condução da crise. Os temas mais espinhosos até o momento são as recusas a ofertas de vacina em 2020 e a inação durante o colapso do sistema de saúde em Manaus (AM).

Além disso, o presidente sofreu mais um duro golpe nos últimos dias, após a deflagração de uma operação da Polícia Federal contra o ministro de Meio Ambiente, Ricardo Salles, que apura a suposta facilitação ao contrabando de madeira brasileira.

Para o cientista político João Gualberto Vasconcellos, a viagem de Bolsonaro ao Espírito Santo neste contexto é um movimento estratégico, para consolidar seu eleitorado e conter riscos para a eleição de 2022. Vasconcellos argumenta que uma visita presidencial é sempre um evento político.

"Bolsonaro está em campanha desde o dia que vestiu a faixa presidencial, sempre tensionando a relação com quem pode ser um adversário em 2022. Como o Espírito Santo já é um eleitorado pequeno, mas cativo, o presidente talvez estivesse ‘descansado’ em relação ao Estado, por isso não veio antes", avaliou o cientista político.

"No entanto, já estamos em clima de eleição, com possíveis candidatos sendo colocados no jogo, e Bolsonaro não quer colocar sua reeleição em risco. Temos um eleitorado de classe média e classe média alta que votou nele em 2018, por ser antipetista, mas que hoje se considera antipetista e antibolsonarista. A rejeição dele cresceu muito da eleição para cá", complementou.

Carlos Manato, presidente do PSL no Espírito Santo
Carlos Manato é um dos que disputam o apoio de Bolsonaro para se candidatar ao governo do Estado em 2018. Crédito: Marcelo Prest - 17/03/2019

Já para Soraya Manato, a visita não tem caráter de antecipação de campanha, mas, sim, para inaugurar obras importantes para o Estado. Segundo ela, uma das possíveis agendas que chamou a atenção do Planalto foi a inauguração de mais de 400 casas populares do antigo Minha Casa Minha Vida, programa rebatizado de Casa Verde Amarela pelo governo. As obras do empreendimento se arrastam há mais de 10 anos, como já noticiou A Gazeta.

"Eu acredito que ele demorou a vir por não ter um evento robusto aqui para ele se deslocar de Brasília. A agenda é apertadíssima. A bancada federal deve estar em peso, provavelmente muitos prefeitos também vão comparecer e alguns deputados estaduais", afirmou.

Outro parlamentar que avaliza a vinda de Bolsonaro, Evair de Melo disse que este não deve ser o único encontro de Bolsonaro com o Espírito Santo. Ele afirmou, à colunista Beatriz Seixas, que uma nova visita está sendo planejada para o segundo semestre deste ano. Já há até a previsão de uma data, que ele prefere não divulgar ainda.

"Também já estamos desenhando outra visita do presidente para o segundo semestre, mas vamos deixar para falar dela mais para frente", disse à colunista.

DOIS MINISTROS ESTIVERAM NO ES NESTA SEMANA

Nesta semana, dois ministros de Bolsonaro também tiveram agendas no Espírito Santo. Bento Albuquerque, do Ministério de Minas e Energia, participou na quarta-feira (19) de compromissos com o setor de rochas ornamentais, em Cachoeiro de Itapemirim, e visitou a Samarco, em Anchieta.

Um dia antes, na terça-feira (18), a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alvestambém compareceu a um evento no Viaduto Araceli, em Vitória, para a divulgação da Campanha Maio Laranja.

Oo ministro da Educação, Milton Ribeiro, aceitou um convite para estar em Cachoeiro de Itapemirim no próximo dia 7 de junho para acompanhar a inauguração de um novo bloco no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). 

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