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Candidatura à presidência: anúncio pode fragmentar base de Casagrande

Se aceitar o convite, governador deixa sua base sem um substituto preparado para defender seu grupo na eleição no Estado; se adiar decisão, pode dividir aliados

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 04/03/2021 às 19h21
Renato Casagrande foi convidado pelo PSB a ser pré-candidato à presidência
Renato Casagrande foi convidado pelo PSB a ser pré-candidato à presidência. Crédito: Helio Filho/Secom

O convite do PSB para que o governador Renato Casagrande (PSB) seja candidato à Presidência da República em 2022 pode enfraquecer a base do socialista no Espírito Santo. Mesmo que a candidatura não se viabilize, o movimento do partido já é considerado, até entre aliados, como algo que impacta nos planos de vários grupos políticos do Estado para a próxima eleição. A avaliação é que o aceno a essa possibilidade por parte de Casagrande "abre a porteira" para que os partidos aliados ao governador comecem a traçar novas estratégias.

Entre os aliados, a preocupação é de que uma suposta ausência dele na eleição de 2022 possa desarticular a base e fragmentar o grupo. A tendência, segundo especialistas, é que, em cenários assim, o consenso criado em torno de Casagrande se desintegraria e as lideranças locais que hoje estão sob o guarda-chuva do governador passariam a disputar a lacuna deixada por ele.

Já entre os possíveis adversários de Casagrande, a pré-candidatura precoce pode dificultar a articulação do governo estadual com o governo federal, comandado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Caso o presidente o veja como um futuro concorrente, há o risco de isso atrapalhar o envio de repasses. A tese também é defendida pelo cientista político Fernando Pignaton. Para ele, Casagrande corre, agora, o risco de enfrentar o "efeito Doria".

"Quando o governador de São Paulo, João Doria, passou a ser visto como um candidato à presidência, ele não só perdeu o apoio de outros governadores, que não queriam comprar briga com Bolsonaro, como o presidente passou a confrontar a administração estadual. Doria o acusou de atrasar repasses, em represália. Casagrande, se for visto como adversário pelo presidente, pode enfrentar os mesmos problemas", analisa Pignaton.

Casagrande não tem a mesma projeção ou musculatura do governador de São Paulo, no entanto, que vem se movimentando como "presidenciável" há tempos e provoca confrontos diretos com Bolsonaro num tom acima do que faz Casagrande.

DESCONSTRUÇÃO DA BASE

A reportagem conversou com lideranças estaduais de vários partidos da base casagrandista. A avaliação é que a chance de o governador ser mesmo candidato a presidente da República é pequena, mas real.

Em uma hipótese em que ele queira ser candidato a outro cargo que não o governo estadual, por exemplo, ele teria que se afastar do Palácio Anchieta em abril, pela regra da desincompatibilização. E, caso entre em campanha nacional, provavelmente teria que percorrer o país, ou seja, dificilmente poderia subir no palanque de algum substituto no Estado. Assim, a construção de um nome de dentro do grupo de partidos aliados, a pouco mais de um ano e meio das eleições, é vista como uma tarefa complexa.

"Acho arriscado a ausência dele na eleição para governador. Como não temos nomes consolidados, os grupos poderiam se dividir e poderia surgir algum aventureiro com chances reais de ganhar o pleito. Tem que ser um movimento feito com cautela”, observa um ex-deputado aliado ao governador.

O cientista político João Gualberto Vasconcellos corrobora a análise. Para ele, a base fica desprotegida sem uma liderança que possa substituir Casagrande, não só na condução do governo, mas na articulação política.

"A tendência é uma autofagia no grupo, caminhando para uma crise interna. Não vejo nomes sendo construídos para o substituir dentro da base. O (secretário de governo) Gilson Daniel (Podemos) poderia ser um nome, mas chegou há pouco tempo no governo, talvez o (secretário de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia) Tyago Hoffmann também possa ocupar este espaço. São nomes que têm alguma força, mas não surgem naturalmente como a alternativa", avalia.

Sem Casagrande e sem o ex-governador Paulo Hartung (sem partido) – cuja candidatura em âmbito estadual é vista como improvável – lideranças locais acreditam que o cenário ficaria muito aberto, o que poderia gerar um volume grande de candidatos e uma eleição pulverizada, com muitos candidatos recebendo poucos votos.

Parlamentar capixaba no Congresso Nacional

Sob anonimato

"Sem esses dois nomes, todo mundo vai querer ser candidato a governador. Só de se discutir essa possibilidade, vai ter gente se incentivando com isso a deixar a base e construir o seu próprio nome, tentar se construir como alternativa. Não tem favorito. Ninguém, neste momento, está tendo um movimento claro para ser candidato a governador"

Da base casagrandista, um outro nome que tem sido lembrado como o “plano B”, caso a candidatura do governador à presidência surpreenda e saia do papel, é de um dos caciques do Republicanos no Estado, o deputado federal Amaro Neto (Republicanos). O parlamentar já foi cotado para a vaga em pleitos anteriores, mas, nos últimos anos, não tem feito movimentações mais agressivas em direção ao Palácio Anchieta.

"(O Republicanos) é um partido que está crescendo e hoje tem uma relação sólida com o governo estadual. Muita gente vê o Amaro como um futuro candidato a governo. Eu não acredito que agora seja o momento dele, mas em uma mudança de cenário pode se tornar uma das principais alternativas", acredita um palaciano.

Renato Casagrande em coletiva de imprensa no Palácio Anchieta
Renato Casagrande em coletiva de imprensa no Palácio Anchieta. Crédito: Helio Filho/Secom

POSSÍVEIS ADVERSÁRIOS VEEM CANDIDATURA COMO IMPROVÁVEL

A movimentação em torno de possíveis candidaturas ao governo fora do núcleo de Casagrande ainda é pequena. O único a se colocar como pré-candidato é o ex-deputado federal Carlos Manato (sem partido) que, em 2018, ficou em 2º lugar na disputa pelo governo do Estado, com 27% dos votos. Casagrande foi eleito com 55%.

Bolsonarista e conservador, Manato aguarda a definição do presidente para se filiar a um partido para a disputa de 2022. Ele afirma que respeita a decisão partidária do PSB, mas acha difícil que Casagrande se viabilize até lá.

"Estrategicamente, prefiro disputar a eleição contra Casagrande do que alguém indicado por ele. Meu projeto de governo é um contraponto ao atual governo. Minha proposta é o que defendem os conservadores. Mas, se ele for disputar, não cabe a mim ficar julgando quem tá de um lado ou de outro”,  argumenta.

O MDB, cujo responsável pelo partido no Estado é o ex-deputado federal Lelo Coimbra (MDB), deve lançar candidato a governo em 2022. Uma das principais apostas é o prefeito de Linhares, Guerino Zanon (MDB), que está em seu quinto mandato na cidade. Lelo admite que o anúncio de Casagrande mexe com o tabuleiro, mas que não muda os planos do partido.

“Abrimos as portas para o Guerino se candidatar, mas isso ainda não é um fato consumado. É claro que uma eleição com o governador é uma e sem ele é outra totalmente diferente, mas não acredito que isso traga grandes mudanças no que o MDB decidir”, aponta.

"CANDIDATURA É SOMA DE RESULTADO NEGATIVO", DIZ ESPECIALISTA

A pouco mais de um ano e meio das eleições, é comum que os partidos passem a colocar pré-candidatos na disputa à presidência para dar início às articulações com outros partidos. No entanto, o anúncio do PSB parece ter pouco efeito no cenário nacional.

O que repercute mesmo é a tentativa de atração da empresária Luiza Trajano, dona do Magazine Luiza, para a sigla. O anúncio de Casagrande como pré-candidato tem passado quase despercebido.

A possibilidade de o governador capixaba ser o nome do PSB na disputa à presidência tem ganhado mais destaque no Estado do que no país. Importante lembrar que quem apontou a candidatura para o governador foi o presidente nacional do partido, Carlos Siqueira, mas dificilmente Casagrande foi pego de surpresa com o anúncio. Ex-presidente da Fundação João Mangabeira, mantida pelo PSB, e atual secretário-geral do partido, Casagrande passa pelo centro de tomada de decisões da sigla.

A candidatura vai de encontro ao que o próprio governador vinha defendendo, de montar uma frente ampla com partidos "que tenham compromisso democrático". Em entrevista ao colunista Vitor Vogas, Casagrande confirmou o convite, mas disse que não pensaria em questão eleitoral neste ano, ou seja, é algo que ele só deve definir em 2022.

Para João Gualberto, levar essa decisão em banho-maria só prejudica a articulação dos próprios aliados de Casagrande, que, se o governador não for candidato à reeleição, já têm pouco tempo para começar a construir um substituto.

"O governador disse que não é hora de pensar nesse convite, o que é compreensível, mas é preciso se posicionar. Se for candidato, ele terá que sair em abril. Vai esperar até abril para se posicionar? Isso desarruma o tabuleiro político. Me parece uma ideia fora de lugar. Não consigo enxergar em como ele pode se beneficiar com este convite, nem o PSB, nem ele. Há outras candidaturas a presidente colocadas há mais tempo. Esse movimento é uma soma cujo resultado é negativo para todos", opina.

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