Repórter de Economia / [email protected]
Publicado em 13 de março de 2021 às 16:32
- Atualizado há 5 anos
Era outubro de 2008 quando Lula (PT), então presidente, afirmou, sobre a forte crise econômica que havia provocado a falência do emblemático banco Lehman Brothers: “Lá (nos EUA), ela é um tsunami; aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha”. O desfecho, no mundo real, foi bem diferente, com recessão, aumento do desemprego e quebradeira de empresas. >
Avançando para março de 2020, Jair Bolsonaro (sem partido), atual presidente, minimizou a pandemia de coronavírus afirmando que se tratava apenas de “uma gripezinha” que não o afetaria graças a seu “histórico de atleta”. Um ano depois, mais de 270 mil pessoas já morreram só no Brasil. Houve novamente retração da economia e demissões. Além disso, o país tem visto aceleração da inflação e queda na renda, principalmente dos mais pobres. >
Segundo especialistas ouvidos por A Gazeta, ambas crises guardam similaridades, mas também muitas diferenças. A principal delas está na origem do problema. Enquanto em 2008, a crise foi causada por um colapso no mercado financeiro que se expandiu para a economia real, dessa vez ela tem origem externa, sendo um efeito colateral de uma questão que é, antes de mais nada, sanitária. >
“A crise de 2008 foi gerada dentro do próprio sistema. Ela teve como fonte um problema financeiro. A consequência, como vimos, foi uma retração espetacular do crédito bancário que levou a uma retração econômica muito grande no mundo todo, em um efeito em cascata”, explica o professor dos MBAs da FGV, Mauro Rochlin.>
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No caso do coronavírus, ele aponta, a origem da crise está fora da economia. Ela é uma consequência das medidas de controle da pandemia global de Covid-19. >
“Foi a pandemia que obrigou governos a fechar ou suspender as atividades econômicas. Essa parada brusca, súbita e muita intensa levou a desorganização do sistema econômico que teve como consequência queda da produção, desemprego e incerteza”, diz. >
Nos dois casos, um ponto em comum foi a forte retração econômica que levou o país a registrar resultados negativos para o Produto Interno Bruto (PIB). >
Antes da crise americana, o PIB do Brasil vinha crescendo 4,7%, em média, entre 2004 e 2007. Embora a crise tenha começado nos EUA em setembro de 2008, os efeitos no Brasil não foram imediatos. Naquele ano, o país ainda expandiu 5,2%.>
Já em 2009,quando os efeitos apareceram, o PIB brasileiro teve variação de -0,3%. O Espírito Santo, contudo, foi atingido em cheio e amargou uma queda de 4% no PIB em 2009. >
Essa diferença entre o resultado nacional e estadual é explicada pela forte abertura que a economia capixaba tem frente ao mercado internacional. >
“A gente teve um impacto maior porque a economia capixaba tem um grau de abertura dos maiores do Brasil. Além disso, um dos principais parceiros econômicos do Espírito Santo eram justamente os Estados Unidos e a base da nossa economia, os principais produtos, tem essa característica da commodity, com uma ligação muito forte com o comércio exterior”, esclarece o diretor de Integração e Projetos Especiais do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira. >
Ele aponta que foi justamente essa abertura que fez com que o Estado sentisse primeiro os efeitos da crise do coronavírus, ainda nos últimos meses de 2019, bem antes de o país ou o Espírito Santo registrarem os primeiros casos de infecção.>
“Nessa crise de agora, tivemos a economia chinesa sendo fortemente abalada, já que ela foi o primeiro epicentro da pandemia. Houve fechamento de portos, aeroportos e indústria na China ainda em 2019 e nós temos essa dependência. Se a China vai bem, o Estado acaba recebendo essa tendência. Mas a China foi fortemente impactada e, logo na sequência, a Europa, que é outro parceiro econômico do Espírito Santo”, afirma.>
Em 2020, PIB brasileiro caiu 4,1%, a menor taxa da série histórica, iniciada em 1996. Ainda não há dados estaduais consolidados para o ano. Até o terceiro trimestre a queda era de 5%.>
Crises como a de 2008 e a atual também foram marcadas pelo aumento do desemprego e de pessoas em situação de vulnerabilidade social.>
Em 2009, quando foram sentidos os efeitos da crise americana no Brasil, a taxa de desemprego (ou desocupação) foi de 8,3%. Em comparação, ela era de 7,1% no ano anterior, que era considerada a mínima histórica desde 2001, quando teve início a Pesquisa Nacional de Domicílios do IBGE. >
Já em 2020, ano da pandemia, a taxa média de desemprego no país atingiu 13,5% em 2020, enquanto em 2019 foi de 11,9%. >
Em ambos os casos, houve queda na produção industrial que levou ao fechamento de postos de trabalho. Um exemplo foi a antiga Aracruz Celulose [hoje Suzano] que entre 2008 e 2009 demitiu centenas de funcionários diretos e indiretos. >
A empresa também havia perdido dinheiro com derivativos. Com a alta repentina do dólar entre agosto e outubro de 2008 – quando a moeda passou de aproximadamente R$1,60 para cerca de R$ 2,40 - diversas companhias contabilizaram enormes prejuízos, pois estavam altamente expostas a operações que ganhavam com a perda da moeda norte-americana.>
Já na crise atual, além da indústria, os setores do comércio e principalmente dos serviços foram fortemente impactados com as medidas de restrição de circulação da população. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o setor de serviços em 2020 fechou 3.350 postos de trabalho no Espírito Santo. O comércio conseguiu se recuperar durante o ano e terminou com saldo positivo de 1.722 vagas. >
Nas duas crises, uma das estratégias do país para tentar controlar a inflação e promover o investimento foi a redução da taxa de juros. Entre o fim de 2008 e o fim de 2009, a Selic foi de 13,6% para 8,6%.>
“Quando vem a crise, o risco-Brasil sobe. O que foi feito na época é que o Banco Central não reduziu juros imediatamente. Em agosto houve pânico no mercado financeiro, quando o temor passou, o risco-Brasil recuou e, então, teve a redução de juros”, explica o economista-chefe da Apex Partners, Arilton Teixeira. >
Na crise do coronavírus, a redução foi feita de forma mais imediata, segundo o economista, e em um contexto de câmbio elevado. Desde fevereiro de 2020, a taxa de juros caiu de 4,25% para 2%, a mínima histórica, e assim permanece desde então. >
“Quando se reduz juros em um país instável, o capital estrangeiro sai. A taxa de câmbio, que já estava em torno de R$ 4 e foi para perto de R$ 6 à medida que a economia global foi recuperando. Já a nossa inflação está disparando. Não tivemos esses problemas antes”, conta. >
O efeito da inflação foi distinto nas duas crises. Em 2009, puxada pela redução do consumo das famílias, uma das consequências do caos financeiro, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou em 4,31%. Embora pareça próxima da atual, ela ficou abaixo do centro da meta estipulada pelo Banco Central para o ano, de 4,5%. Foi o segundo menor índice acumulado desde 2000, acima apenas do resultado de 2006 (3,14%). >
Já em 2020, alavancada pelo auxílio emergencial e pela alta do dólar, a inflação fechou o ano com alta de 4,52%, acima do centro da meta (4%). Na Grande Vitória, a alta foi de 5,15% .>
O resultado foi puxado pelas altas nos preços dos alimentos, que dispararam 18,35% no Estado ao longo do ano, influenciado pelo encarecimento de produtos básicos como tomate, óleo de soja e arroz.>
“A redução (da Selic) foi uma tomada de risco que o Banco Central fez e agora estamos colhendo as consequências. O país está em recessão e talvez o BC terá que subir os juros porque a inflação está subindo muito rápido”, avalia Arilton. >
A pandemia de coronavírus e a paralisação da atividade econômica ao redor do mundo fez despencar o preço do barril de petróleo nos primeiros meses de 2020. Na ocasião, a receita de 11 dos 13 municípios produtores no Espírito Santo foi afetada e eles deixaram de receber R$34,6 milhões em royalties e participações especiais no primeiro quadrimestre na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). >
Porém, nos meses seguintes, o preço do brent no mercado internacional voltou a subir, impulsionado pela retomada econômica em alguns países e, mais recentemente, pela vacinação da população. Com isso, o país e o Estado enfrentam atualmente outra crise, a dos combustíveis. Com o barril de petróleo valendo mais de US$ 60 no mercado internacional e o dólar beirando os R$ 5,60, o preço da gasolina, do diesel e do gás de cozinha disparou. >
Essa alta, embora se traduza em aumento de arrecadação com royalties para o Espírito Santo, acaba pesando no bolso do consumidor, pois pressiona a inflação.
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Os especialistas afirmam que a saída do país da crise de 2008/2009 foi relativamente rápida e isso se deu porque as empresas estavam em condições relativamente saudáveis antes do baque econômico, o que permitiu que tivessem condições de aguentar o período turbulento. >
Contudo, a chegada do novo coronavírus veio em um momento em que o país e o Espírito Santo ainda se recuperavam da crise político-fiscal de 20015.>
“Não tínhamos saído daquela crise, não tínhamos nos recuperado daquela recessão e, de fato, fomos surpreendidos no meio desse processo lento de recuperação. Fomos barrados por essa pandemia. O fato de a gente não ter ainda uma situação de normalidade em termos de saúde pública, não saber se a situação vai avançar, se vai continuar lenta como está, se pode haver mais ondas de contaminação por conta da falta de vacinação aponta que a incerteza está se estendendo para além do que aconteceu em 2008/2009. Essa pode se tornar uma crise mais extensa, de maior duração”, avalia o professor dos MBAs da FGV, Mauro Rochlin.>
O economista-chefe da Apex também compartilha a dúvida da capacidade de o país sair de forma célere da crise atual.>
“Teoricamente, se os governos fizessem o dever de casa correto, como foi feito nos EUA, a economia sai rápido da recessão como está saindo por lá. Não é o caso brasileiro. Aqui as empresas receberam muito pouca ajuda e, além de tudo, nós não estamos vacinando ninguém”, aponta.>
A alta do câmbio, embora pressione a inflação, é benéfica para o Estado, já que as principais commodities produzidas aqui são cotadas em dólar, como a celulose e o minério de ferro. Além disso, tem havido um aumento de demanda por essas matérias-primas, principalmente por conta da retomada econômica dos países asiáticos.
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