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Ritmo da vacinação vai ditar crescimento da economia e criação de empregos

Retomada do auxílio é importante para recuperação, mas analistas apontam que só com a imunização em massa será possível que setores ainda fragilizados se recuperem, como o de serviços, que é o maior empregador

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 04/03/2021 às 02h00
Atualizado em 04/03/2021 às 02h03
Vacinação drive-thru contra a covid-19 no Parque da Cidade, em Brasília
Vacinação contra a Covid-19 ainda ocorre a passos lentos no país. Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Embora menor do que esperada, a queda de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2020 - a maior desde o início da série histórica, em 1996 - é um sinal de alerta para a economia, que patina em meio ao agravamento da pandemia da Covid-19 em território brasileiro.

Enquanto o primeiro trimestre já é considerado quase perdido, com expectativa de estagnação ou mesmo retração da atividade econômica, é no enfrentamento ao coronavírus que estão todas as apostas para a retomada. Segundo analistas, será o ritmo da vacinação que vai dizer se a economia brasileira vai crescer e conseguir gerar empregos.

Um dos fatores que reduziram o ritmo de crescimento mais recentemente foi justamente o fim do auxílio emergencial, em dezembro passado. Uma nova rodada do benefício deve ser aprovada nos próximos dias pelo Congresso. Em declaração feita na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), afirmou que estão previstas outras quatro parcelas, a partir de março.

Mas enquanto o auxílio movimenta o comércio e a indústria, por exemplo, o setor de serviços, que responde por cerca de 60% das atividades do país, e, também, do Espírito Santo, depende da interação humana, ainda limitada em função do coronavírus.

“Grande parte dos problemas atuais tem a ver com o recrudescimento da pandemia. Ficamos um pouco para trás no ritmo da imunização, e não é porque o Brasil não tem estrutura; uma vez que a vacina está aqui. Conseguimos alcançar muita gente muito rápido, mas, por escolhas políticas, a chegada da vacina tem sido demorada. E a atividade econômica reflete isso”, observou a analista de macroeconomia da XP Investimentos, Rachel de Sá.

Aliada à demora na imunização dos grupos prioritários, a especialista destaca ainda a incerteza política, que aumentou recentemente, diante de intervenções do governo federal na Petrobras e ameaças de mudanças em outras estatais.

As ações acabaram por abalar a confiança de investidores, levando a uma nova elevação da taxa de câmbio, o que contribui para aumento da inflação, visto que muitos produtos consumidos no país são atrelados ao dólar. Já existe a expectativa, inclusive, de que o Banco Central volte a elevar as taxas de juros nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária, a fim de conter a alta dos preços.

Rachel de Sá

Analista de macroeconomia da XP Investimentos

"O mercado de trabalho depende muito dessas questões: a vacinação, porque a pandemia precisa estar controlada e as coisas precisam estar abertas para as pessoas trabalharem, sendo que o setor de serviços é o que mais emprega; e a segunda é a melhora do nível de confiança"

Ela continua: “Hoje, o investidor não sabe se abre um negócio, se expande, se compra, se contrata. Pode até ter dinheiro, mas adia qualquer plano porque não sabe como vai ser o cenário da economia ali na frente.”

A opinião também é compartilhada pelo economista Felipe Storch Damasceno, professor da Fucape, que observa que parte dessa incerteza está ligada à agenda de reformas, que precisam ser retomadas para minimizar o risco fiscal e elevar a percepção de confiança, que, efetivamente, contribui para a geração de empregos no país.

“A vacina é a principal questão no momento. Mas o governo já deveria ter andado há muito tempo com as reformas, que também são importantes. Fala-se em votar a reforma tributária até o fim do ano, mas é parcelada, não foi enviada por completo. Em relação à administrativa, parece que há ainda menos pressa.”

O economista observa que também é preciso pressionar por outras reformas menores, que também são extremamente benéficas à economia, como, por exemplo, a lei cambial e os novos marcos regulatórios da cabotagem (BR do Mar) e do gás natural (Lei do Gás).

Damasceno frisa, entretanto, que para que as reformas tenham uma chance de acontecer, precisam ser votadas ainda em 2021, uma vez que 2022 é um ano eleitoral e grandes mudanças são difíceis de ser implementadas.

Felipe Storch Damasceno

Economista

"Todas essas reformas, sejam grandes ou pequenas, têm um impacto positivo na economia, mas precisam ser votadas logo. Se deixarem para o próximo ano, pode ser muito mais difícil aprovar aquelas que têm um peso maior"

Enquanto ajustes fiscais e a vacinação saem por pouco do papel, o diretor de Integração do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira, observa que também é preciso garantir a sobrevivência da população vulnerável, que lida com a baixa oferta de vagas de emprego, e a dúvida sobre como colocar comida na mesa no dia-a-dia.

“O governo federal acertou quando implementou o auxílio emergencial no ano passado, e pode acertar de novo. Mas o benefício não pode ser um fim em si mesmo. Não se pode cometer o mesmo erro que houve no final do ano passado, quando acabou o auxílio e a população, de repente, ficou sem nada. É preciso estruturar uma política de transição, implementar ações que promovam a criação de emprego e renda.”

Do contrário, Lira explica, a ajuda é incompleta - não somente para os beneficiários, mas para a própria economia, uma vez que o mesmo benefício que ajuda a movimentar o comércio e outras atividades, contribuindo para o aumento da arrecadação do governo, também deixa um rombo nas contas públicas.

Vale destacar, por exemplo, que o relatório da PEC Emergencial, que deveria ser uma proposta de contenção de gastos públicos em épocas de crise, prevê a renovação do auxílio sem que nem mesmo haja uma fonte de receitas para bancá-lo. A princípio, os recursos viriam de crédito extraordinário, fora do teto de gastos.

Pablo Lira

Diretor de Integração do Instituto Jones dos Santos Neves

"O governo, principalmente o presidente, precisa parar de criar conflitos, como têm feito com tantas questões, que vão desde a vacinação até o preço dos combustíveis. São muitas discussões que não levam a lugar nenhum, sempre jogando a responsabilidade para o colo dos outros. Não é o momento de desavenças, é o momento de união nacional em prol do crescimento do país"

"SE ESFORÇO POR VACINA É COLETIVO, POPULAÇÃO DEVE FAZER SUA PARTE"

“A vacina é a única solução que temos para a pandemia. Vai demorar até atingirmos um percentual elevado da população, mas devemos fazer um esforço coletivo para que as doses sejam liberadas o quanto antes, e possamos retomar as atividades. Mas não basta o governo agir, a população também tem que fazer sua parte.”

A afirmação é do empresário e presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES), José Lino Sepulcri, que observa que, em diversos Estados, a pandemia atinge níveis críticos, como falta de leitos, insumos para tratamento de pacientes, o que tem provocado a adoção de lockdown, que é a restrição de toda atividade não essencial.

Sepulcri observa que, comparado a outros lugares, o Espírito Santo vive hoje uma situação confortável, com somente um município em risco alto de contaminação pela Covid-19. Mas destaca que nada impede que a situação observada em outros Estados se repita em território capixaba se não houver colaboração.

Ele frisa que a negligência da população, de não ter os cuidados exigidos pelas autoridades, como uso de máscara, distanciamento e reforço da higiene, tem um peso enorme no avanço ou controle da contaminação.

“Precisamos dessa colaboração e precisamos da vacina o quanto antes. Inclusive, nós louvamos a atitude do governador de querer agilizar as vacinas, em meio a esses problemas políticos do governo federal, apoiamos os esforços que estão sendo feitos e estamos juntos no movimento Unidos Pela Vacina, em conjunto com outros empresários.”

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