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Capixaba que descobriu ser 'presidente' aguarda auxílio há 4 meses

"Minha filha de 8 anos me perguntou porque a mulher do prefeito consegue receber e eu não", disse Adeyula. Desempregada, ela teve o auxílio emergencial negado por ocupar, pelo menos no papel, o cargo mais importante do país

Publicado em 04/08/2020 às 11h59
Atualizado em 04/08/2020 às 11h59
Adeyula Dias Barbosa Rodrigues, 31 anos, teve o pedido do auxílio emergencial negado por ter dois empregos em aberto, um deles de presidente da República, mas ela está desempregada.
Adeyula Dias Barbosa Rodrigues, 31 anos, teve o pedido do auxílio emergencial negado por ter dois empregos em aberto, um deles de presidente da República, mas ela está desempregada. Crédito: Acervo pessoal

"Indignação, ansiedade e frustração com o governo, isso é o que venho sentindo nesse tempo todo de espera." Assim é como a capixaba Adeyula Dias Barbosa Rodrigues, 31 anos, descreve os últimos meses. Parece até brincadeira, mas, na verdade, o caso dela é motivo para muita revolta e desânimo. A estudante de Gestão de Recursos Humanos descobriu que era "presidente da República" enquanto pedia pelo auxílio emergencial de R$ 600. Desde o dia 7 de abril, quando fez a solicitação, até esta terça-feira (4), já se passaram quase quatro meses.

O drama da moradora da Região da Grande Terra Vermelha, em Vila Velha,  acabou repercutindo em todo o país e mostrando que muitas pessoas que têm direito ao auxílio estão ficando sem assistência durante esse período de pandemia do novo coronavírus devido aos erros nas bases de dados usadas pelo governo federal.

Na primeira reportagem, publicada por A Gazeta no dia 7 de maio, Adeyula contou que na sua Carteira de Trabalho Digital havia dois vínculos empregatícios em aberto, sendo que um era o de presidente da República. Os dados foram corrigidos, mas o benefício continua a ser negado pelo governo federal.

Adeyula Dias Barbosa Rodrigues 

estudante de Gestão em Recursos Humanos

"Na carteira de trabalho foi dado baixa tanto o cargo de presidente quanto no de auxiliar. Eu acabei entrando na brincadeira de presidente, muita gente me mandou mensagem e falava comigo sobre o que aconteceu. Apesar da brincadeira, ainda continuo sem receber o auxílio e com algumas contas atrasadas por causa disso. De emergencial, [o auxílio] só tem o nome"

Ela, os dois filhos – um menino de 11 anos e uma menina de 8 anos – e o marido tiveram que restringir as despesas ao máximo possível para conseguir manter a casa. Além dela estar desempregada e não conseguir o auxílio, o marido teve a jornada de trabalho e o salário reduzidos em 50% e o tíquete-alimentação cortado, o que agravou ainda mais a situação.

"Nos últimos meses, conseguimos receber duas cestas básicas, uma em maio e outra em junho, o que gerou um pouco de economia com a alimentação das crianças. Acaba que o dinheiro você direciona para o básico,  e tenho dois filhos pequenos, que entendem pelo que nossa família está passando mas, mesmo assim, são crianças", relata.

Adeyula conta ainda que recebe muitas ligações de cobrança. "Minha faculdade está atrasada e deixei de pagar empréstimo, cartão de crédito. Tivemos que fazer sorteio de boletos para decidir qual pagar primeiro. Até a internet de casa está em atrasa. Tive que focar o dinheiro que tinha na água, na luz, na comida e no carro, que compramos ele no ano passado, porque os juros dele são muito altos e a parcela compromete mais de 50% da renda atual", revela.

Adeyula Dias Barbosa Rodrigues

estudante de gestão em recursos humanos

"Continuei mandando currículo para ver se conseguia emprego, porque o auxílio ficava cada vez mais difícil. Fico muito triste vendo no jornal notícias de que presidiário, pessoas que já morreram e que são ricos conseguiram receber, mas eu não. Indignação porque eles [o governo] falam que o sistema é 100% certo, mas é 100% falho. Minha filha de 8 anos mesmo me perguntou porque a mulher do prefeito consegue receber e eu não"

QUATRO MESES SE PASSARAM E NADA AINDA

7 DE ABRIL

DIA EM QUE ADEYULA PEDIU O AUXÍLIO EMERGENCIAL

No dia 7 de abril, Adeyula pediu o auxílio emergencial pelo aplicativo da Caixa. Quase um mês depois teve o benefício negado porque, de acordo com a Dataprev – instituição do governo federam responsável pelo processamento e por verificar se o cidadão cumpre todas as exigências previstas em lei – afirmava que ela estava com vínculo empregatício na Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Segundo os dados, ela estava trabalhando, sendo que seu último contrato de trabalho foi interrompido em agosto de 2019. Atualmente, todos os dados estão atualizados.

No dia 13 de maio, ela entrou com um processo pelo site da Justiça Federal no Espírito Santo (TJ-ES) para ter direito de receber o benefício. No final de junho, o juiz que estava com o caso pediu à União para que desse uma resposta sobre a negativa do benefício. 

Segundo as respostas do governo federal, enviadas em julho, ela não recebeu porque um dos filhos não estava incluso no pedido, já que é preciso colocar o CPF de todas as pessoas da família no cadastro. Além disso, a União alegou que o marido de Adeyula ganhava acima do teto permitido para receber o auxílio.

A última atualização do seu processo foi feita no dia 24 de julho. Ele traz a seguinte mensagem: "Registro retificada a autuação de assunto", que é uma correção que precisa ser feita pela Justiça, mas que não afeta o processo. Porém, não tem mais nenhuma data para resposta.

Adeyula Dias Barbosa Rodrigues

estudante de gestão em recursos humanos

"Consegui um estágio em uma empresa de call center. A bolsa que vou receber vai ajudar nas contas da casa. Minha luta hoje é para receber as parcelas a que tenho direito e até agora nada. Mas, não sei quanto tempo vou ter que esperar para que isso aconteça"

RELEMBRE O DEPOIMENTO DA ADEYULA EM VÍDEO

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