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Bolsonaro precisará se "reinventar" para enfrentar crise e fazer reformas

No evento Vitória Summit, o doutor em ciências políticas Carlos Melo avaliou que o governo criou problemas para si e deixou passar seu bom momento para fazer grandes mudanças necessárias para a retomada da economia

Publicado em 02/12/2020 às 20h25
Atualizado em 02/12/2020 às 20h25
Carlos Melo e Natuza Nery em painel no Vitória Summit
Carlos Melo e Natuza Nery participaram de painel sobre desafios políticos do país no Vitória Summit. Crédito: Caroline Mauri

Para conseguir fazer passar pelo Congresso Nacional as reformas apontadas como cruciais para o controle das contas públicas e a retomada produtiva do país, o presidente Jair Bolsonaro precisa reinventar seu modo de governar.  A avaliação é do sociólogo, doutor em ciências políticas e professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Carlos Melo, que participou nesta quarta-feira (2) do evento Vitória Summit, promovido pela Rede Gazeta.

Segundo o especialista, Bolsonaro deixou passar seu "bom momento", de alta na popularidade por conta do auxílio emergencial, e de uma relação amistosa com os partidos do chamado "centrão", e não fez andar os projetos necessários que poderiam mitigar os efeitos da crise econômica e fiscal em que país se encontra, que foram agravados pela pandemia do coronavírus.

Carlos Melo

Doutor em Ciências Políticas

"Ele poderia ter aproveitado o bom momento, mas não percebeu. Deixou se enganar, se envaideceu com alguns números e não tomou providências. Precisaria, para tomar essas providências, se reinventar e reinventar o governo. Se livrar de alguns problemas, por exemplo a questão ambiental, a política externa. São questões que pressionam o Brasil desnecessariamente. Melhorar isso dependeria do presidente da República, da consciência de que da forma que esta caminhando não está bom. Mas isso não ocorreu"

Há ainda uma dificuldade de articulação política para fazer os projetos avançarem, admitida pelo próprio vice-presidente Hamilton Mourão mais cedo, também no Vitória Summit. Para Melo, esse é um dos principais pontos em que o governo precisará se reinventar para conseguir enfrentar a crise do pós-pandemia.

A jornalista especializada em política Natuza Nery, que também participou do painel virtual, apontou que mesmo durante a pandemia o governo perdeu a oportunidade de fazer avançar pelos menos um dos 19 projetos do ministro Paulo Guedes. Entre eles estão as reformas (tributária e administrativa) e as PECs emergencial e dos fundos, que permitiriam que o governo tivesse pelo menos uma perspectiva de redução dos gastos públicos e do déficit fiscal no futuro.

Ela avalia que Bolsonaro está ficando sem tempo e sem capital político para "arrumar a casa" e resolver os problemas políticos e econômicos do país.

"É muito problema que não foi desfeito enquanto o presidente tem capital político pra isso. Se ele não correr, se a ficha não cair rápido, se o governo não tomar juízo em diferentes áreas, pode acumular tudo. Não sei se ele tem tanto tempo assim pra tentar arrumar a casa. Tem condição ainda, mas cada vez menos", avalia Natuza.

O cientista político acredita que essa tomada de consciência, contudo, não deve acontecer em 2021. Ele apontou como motivo principal a dificuldade do presidente de se afastar de sua base de apoiadores em assuntos com forte carga ideológica como a política externa, o meio ambiente e até a relação com a pandemia.

"O presidente pode negligenciar relação com o centrão, com o Congresso Nacional, mas a base ele não vai abandonar e não consegue se reinventar. Nem na política externa, nem na área ambiental, nem na sua comunicação, na sua relação com a sociedade. Não consegue se reinventar em relação com a pandemia. São problemas sérios. Sabemos qual a agenda econômica para o Brasil. O grande problema é que recuperar significa ter posturas políticas adequadas a essa agenda e isso significaria a reinvenção do governo e eu não consigo ver o governo se reinventando em 2021", declara.

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