Discurso de Mourão é muito bom, mas falta combinar com Bolsonaro
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Discurso de Mourão é muito bom, mas falta combinar com Bolsonaro
No Vitória Summit, vice-presidente traçou um diagnóstico lúcido e correto dos maiores problemas do país na economia, no meio ambiente e na pandemia. Mas discurso dele não reflete o do próprio presidente
O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) se encontra com o governador Renato Casagrande no Palácio Anchieta.Crédito: Vitor Jubini
O discurso do vice-presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB), na abertura do Vitória Summit, na tarde desta quarta-feira (2), foi, no geral, muito bom. Mostrou lucidez, equilíbrio e moderação. Diante de um público formado principalmente por empresários, o general reformado do Exército fez um diagnóstico corretíssimo dos maiores problemas do país e de como resolvê-los na área econômica, na área ambiental e na do enfrentamento à pandemia. Mas há um visível descolamento entre o "governo de Mourão", apresentado pelo vice-presidente nesta tarde, e o nosso governo real, que vem a ser o governo Bolsonaro.
Quem mais precisava ter ouvido essa palestra não compareceu ao Summit, realizado pela Rede Gazeta. Falta combinar com o andar de cima, isto é, com Bolsonaro. O general e o capitão estão em frequências totalmente diferentes.
Ouvindo Mourão falar, com uma capacidade de articular ideias e uma oratória que faltam ao seu superior hierárquico, pensamos: claro, sensato, racional, mas... opa! Ele é o vice-presidente! Esse não é o governo de Hamilton Mourão. É o governo de Jair Messias Bolsonaro.
O governo que Mourão descreveu para o público do evento é o governo ideal segundo a visão do general (muito correta, por sinal), ou seja, o governo da cabeça do Mourão. Mas, do governo apresentado por ele para o governo de verdade que estamos todos experimentando, conduzido, atrapalhado e sabotado pelo próprio presidente da República, vai uma enorme diferença.
Um exemplo crasso: a maneira como o vice-presidente diz que o “ente federal” encarou a pandemia do novo coronavírus, em parceria com os “entes estaduais”, não tem absolutamente nada a ver com o modo como o próprio Bolsonaro encarou (e segue a encarar) a pandemia. Na fala de Mourão, existe respeito à ciência, à medicina, à saúde pública. Na de Bolsonaro, até hoje, negacionismo.
A PANDEMIA
Ao adentrar o tema da pandemia, Mourão, sempre de modo racional, destacou “o papel da nossa medicina” e afirmou que, desde o início da pandemia no Brasil (em março), o objetivo traçado pelo governo foi o de fazer com que “três curvas não fossem demasiadamente inclinadas”: a do PIB, a social e a da saúde. “Tínhamos que fazer essa doença caber dentro do sistema. E esse foi o grande trabalho feito pelo ente federal e pelos entes estaduais.”
Muto bom, muito bacana, muito correto… Mas esse jamais foi, de modo algum, o discurso mantido por quem realmente manda no governo e toma as decisões mais estratégicas.
No lugar dessa preocupação com a trajetória da curva de contágio, o que se ouviu de Bolsonaro, já em março, foram expressões como “alarmismo”, “histeria da mídia”, “gripezinha” e “histórico de atleta”, sempre minimizando a gravidade do problema ou até negando sua existência. Isso enquanto caía nos braços do povo, em manifestações antidemocráticas ou em seus passeios pelas ruas de Brasília.
Nos meses subsequentes, conforme a dita curva crescia e a primeira onda chegava ao pico, Bolsonaro produziu outras frases memoráveis, como “E daí? Quer que eu faça o quê?” Mesmo agora, enquanto o próprio Mourão reconhece a iminente chegada de uma segunda onda, Bolsonaro chegou ao cúmulo de reclamar que “agora tudo é pandemia” e afirmar que “o Brasil não pode ser um país de maricas”.
Na área ambiental (de novo: com equilíbrio e racionalidade), Mourão ressaltou problemas que seu “chefe”, a bem da verdade, nem sequer dispõe-se a reconhecer. “Sustentabilidade é o tema do século 21. Não há como fugir disso aí", asseverou o vice-presidente, que dirige o Conselho Federal da Amazônia Legal. De novo: e Bolsonaro?!?
Na contramão do diagnóstico de Mourão, correto até do ponto de vista estratégico e econômico para o país, o presidente já expeliu pérolas verbais como “o meio ambiente só importa aos veganos” e, a um repórter, sugeriu “fazer cocô dia sim, dia não” para combater a poluição.
“Temos que resolver questões seculares da Amazônia”, declarou Mourão em Vitória, destacando a necessidade de regulamentação fundiária das terras da região (um passivo histórico e epicentro de disputas violentas), bem como a introdução dos Zoneamentos Econômicos Ecológicos: aliar ecologia à economia, numa visão moderna e sustentável em que as duas esferas coexistem em benefício de ambas. Em outras palavras, entender que proteger o meio ambiente dá retorno financeiro.
Enquanto isso, Bolsonaro se recusa a admitir o problema do aumento dos focos de queimadas tanto na Amazônia como no Pantanal. Chegou a desautorizar os dados oficiais de satélite do Inpe, instituto do próprio governo. Na ONU, foi ao extremo de culpar caboclos e indígenas pela prática, enquanto ele mesmo a encoraja, com declarações que expressam zero preocupação com a pauta ambiental, como aquelas lembradas acima.
“[É preciso] Recuperar a capacidade funcional dos nossos órgãos de fiscalização”, frisou Mourão em sua palestra no Summit. Perfeito! Mas, com carta branca dada pelo próprio Bolsonaro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem liderado um verdadeiro desmonte do Ibama, do ICMBio e da capacidade de fiscalização desses órgãos (um problema na visão do presidente, já multado por pesca irregular em área de proteção ambiental, em Angra dos Reis).
A ECONOMIA
Já na área econômica, encampando um discurso liberal que daria orgulho ao ministro Paulo Guedes, Mourão destacou o equilíbrio das contas públicas e o aumento da produtividade do país como pilares para a retomada do crescimento da nossa economia: “Essas duas tarefas são ponto de honra para o nosso governo. São a nossa responsabilidade. Nós temos que fazer isso avançar”.
O vice-presidente recordou que, desde 2014 (fim do primeiro governo Dilma), o Brasil apresenta déficit primário em suas contas públicas, ou seja, a União gasta mais do que arrecada (sem contar os juros da dívida pública).
Para conseguir sanar as contas públicas e zerar esse déficit nos próximos anos, Mourão declarou que não há outro caminho senão as reformas que fazem parte da agenda liberal do ministro da Economia: a da Previdência (aprovada em 2019), a administrativa e a tributária (estas duas, patinando no Congresso).
No caso da primeira, porém, ele frisou: “Vamos precisar de outra reforma da Previdência para alinhar essa questão [dos gastos públicos]”.
No caso da tributária, salientou o compromisso do governo em diminuir o gasto e não em aumentar a carga: “Não há como criar imposto hoje”. Também destacou a simplificação tributária, com a criação do IVA (imposto que unificará vários): “Não podemos mais nos omitir nessa questão”.
No caso da administrativa, Mourão afirmou que “temos que redefinir as questões da carreira de Estado” e enfatizou o pilar da meritocracia: “Tem que haver uma escala de mérito”. Ressaltou, ainda, as privatizações (também paradas): “[Temos que] vender aquelas empresas que só estão sugando recursos do Tesouro”.
No pilar da produtividade, Mourão citou as PECs que tramitam no Congresso, a urgência da revisão do Pacto Federativo, e destacou o problema de sempre: o Custo Brasil. Citou que, em evasão e sonegação fiscal, o Brasil perde mais de R$ 400 bilhões por ano, o equivalente aos juros da dívida pública da União.
De novo: tudo legal, tudo sensato, tudo correto, mas… E quanto a Jair Bolsonaro? Onde está o próprio presidente da República nessa discussão capital para o “grande destino da nação” que ele tanto gosta de citar, mas terceirizada por ele desde a campanha eleitoral? No caso da reforma da Previdência, por exemplo, a alienação voluntária de Bolsonaro foi um fato gritante.
A única vez em que o presidente entrou de verdade no debate, pessoalmente, foi para atrapalhar, fazendo questão de que os próprios militares não entrassem no esforço coletivo e assim jogando por terra o argumento principal de sua própria equipe econômica: o de isonomia no tratamento (e no tamanho do sacrifício) para todas as categorias.
CONCLUSÃO
Mesmo agora, enquanto Mourão vem a Vitória e abraça essa agenda liberal e o compromisso com o equilíbrio fiscal, Bolsonaro, um estatista histórico e “liberal muito duvidoso”, não consegue se desgarrar do seu passado de representante no Congresso dos interesses de categorias da segurança pública.
Para o ano que vem, acaba de prometer concurso público para preenchimento de duas mil vagas na Polícia Federal. Concurso público neste momento?!? Quem fazia isso era Lula, era Dilma…
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.