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Bandidos usam falhas em contas digitais para roubar auxílio de trabalhador

Falhas em aplicativos expõem vulnerabilidade em sistemas criados pelos bancos públicos para pagar o auxílio emergencial de R$ 600 e o benefício por redução de jornada e suspensão de contrato

Publicado em 02/07/2020 às 20h05
Aplicativo Caixa Tem apresenta instabilidade. Crédito: Vitor Jubini
Aplicativo Caixa Tem apresenta instabilidade. Crédito: Vitor Jubini

Falhas em aplicativos expõem a vulnerabilidade em sistemas de pagamentos criados pelos bancos públicos. Com isso, bandidos conseguem ter acesso ao auxílio emergencial de R$ 600 e ao  benefício emergencial de preservação do emprego e da renda (BEm) de trabalhadores em contas digitais. Eles hackeiam as carteiras on-line e furtam o dinheiro, deixando essas pessoas sem o valor que é pago pelo governo para ajudar quem ficou sem renda ou teve o salário reduzido, por conta da crise do coronavírus.

Em meio a essa situação e com as contas chegando, trabalhadores estão preocupados e relatam que não sabem o que fazer, nem a quem recorrer. Além disso, quem não passou pelo problema conta que está com medo de ser a próxima vítima.

Muitos beneficiários estão encontrando problemas para utilizar o aplicativo Caixa Tem, onde são depositados o auxílio, as parcelas do BEm e também o saque emergencial do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Já a Carteira bB é uma conta virtual criada pelo Banco do Brasil para o pagamento do BEm. Alguns usuários relataram que o dinheiro está sumindo de suas contas. Outros ainda explicam que quando vão tentar recuperar a senha aparece um número de celular ou e-mail diferente do seu. E que, com isso, não conseguem acessar a conta. 

O BEm é um benefício criado pelo governo federal que se destina aos trabalhadores que, em função da crise, tiveram redução de jornada e salário ou contrato suspenso. Nele, o governo paga um percentual do salário do funcionário, com base no seguro-desemprego. Para isso, os bancos abriram uma conta poupança digital, mesmo para aqueles que indicaram que queriam receber em uma conta corrente já existente.

SEM ACESSO AO AUXÍLIO EMERGENCIAL PELO CAIXA TEM

Um beneficiário do auxílio emergencial relatou para A Gazeta que receberia o benefício no dia 13 de junho na agência de Campo Grande, no município de Cariacica. Segundo ele, quando chegou lá o dinheiro havia sido usado para o pagamento de uma conta no valor de R$ 599,98.  

"Fui no dia 15 de junho na agência de Itacibá, em Cariacica, e me disseram que o meu pedido seria analisado em 10 dias. Depois desse prazo, fui novamente lá e disseram que não houve fraude eletrônica", conta.

Outra leitora aponta que, no dia 3 de junho, descobriu que alguém criou uma conta no Caixa Tem e já recebeu uma parcela do auxílio e vai receber outra.

X.

leitora de A Gazeta

"Baixei o Caixa Tem. Eles pedem CPF e uma senha que não tenho, cliquei em 'esqueci a senha', na esperança de conseguir, mais foi para um e-mail que desconheço. Eu fiz um boletim de ocorrência, tenho como provar que não fiz o pedido. Mas acho um absurdo uma pessoa receber algo que é não é de direito"

DINHEIRO SOME DA CARTEIRA BB DO BANCO DO BRASIL

O Banco do Brasil criou uma poupança com variação 73, que é exclusiva para o pagamento do benefício emergencial. A instituição é responsável pelo processamento dos pagamentos dos beneficiários cujos empregadores indicaram para crédito contas no próprio Banco do Brasil ou em outras instituições financeiras, exceto a Caixa.

Para conseguir ter acesso ao valor, o trabalhador precisa baixar o aplicativo da Carteira bB. Depois, realizar o cadastro informando dados pessoais, como CPF e número de celular. Caso esqueça a senha, é possível recuperá-la a partir do número de celular cadastrado.

O passo a passo é simples, mas vem dando muita dor de cabeça a Wanderleia Teixeira Bernardo Salles, 45 anos, que trabalha há nove anos como cobradora da Viação Praia Sol. Devido à pandemia, o sistema GV Bus, para o qual  a empresa presta serviço, passou a rodar com os ônibus sem cobradores. Com isso, Wanderleia foi afastada do serviço.

70% DO SALÁRIO

FOI PAGO PELO GOVERNO FEDERAL, MAS SACADO SEM AUTORIZAÇÃO

No acordo assinado com a empresa, por um período de dois meses, ela receberia 70% do salário pago pelo governo federal por meio do BEm e o restante pela empresa. O benefício foi depositado no dia 17 de junho, segundo a carteira de trabalho digital da cobradora, porém, quando foi sacar o valor ele tinha desaparecido de sua conta.

Wanderleia Teixeira Bernardo Salles

cobradora de ônibus

"Para receber o dinheiro eu tinha que abrir uma carteira digital no Banco do Brasil. Quando fui fazer isso vi que já tinha uma aberta com o meu CPF. Conversei com uma atendente de uma agência que fica na avenida Carlos Lindenberg, em Vila Velha, e ela estranhou o que tinha acontecido. Me orientou a clicar em 'esqueceu a senha' para ver o que tinha ocorrido. Apareceu um número de telefone estranho, que não era meu"

Wanderleia conta que a atendente olhou no sistema do banco para ver a movimentação da conta e descobriu que o valor foi transferido para um homem chamado “Júlio”. "Uma pessoa já tinha pegado o meu dinheiro, transferido e sacado. Ele transferiu no dia 21 de junho e eu fui ao banco no dia seguinte (22/6). Sem dinheiro é complicado, eu estou zerada. É complicado porque é um dinheiro que é meu e tenho que ficar aguardando para receber", conta.

Termo de contestação de débito do Banco do Brasil
Termo de contestação de débito do Banco do Brasil. Crédito: Arquivo pessoal

Wanderleia contou ainda que no banco fez uma carta de próprio punho sobre o ocorrido e assinou um termo de contestação de débitos, informando que o dinheiro foi transferido de sua conta sem sua autorização. Segundo o documento que a reportagem teve acesso, o banco dá um prazo de até 15 dias para analisar o pedido. 

Wanderleia Teixeira Bernardo Salles

cobradora de ônibus

"Eu fiz o Boletim Unificado (BU) porque estou com medo de que, quando for depositada a segunda parcela, eu não consiga receber de novo. Porque é ele, o tal de 'Júlio', que tem a senha e acesso à conta da poupança digital. Não sei mais o que fazer"

Um cobrador de 29 anos, que pediu para não ser identificado na reportagem, trabalha há um ano e oito meses na mesma empresa que Wanderleia e está com o mesmo problema que a colega. Ele alega que a carteira de trabalho digital mostrava as duas parcelas do BEm a que tem direito, uma paga em 16 de junho e outra que será depositada em 16 de julho.

"O governo tentou depositar o dinheiro na minha conta de outro banco, mas não conseguiu. Então depositaram na poupança do Banco do Brasil. No dia 23 de junho, quando fui na agência, o sistema saiu do ar e tive que ir no outro dia. Tinha mais dois cobradores comigo e o rapaz disse que era a mesma coisa havia acontecido com ele", explica.

Assim como no caso de Wanderleia, uma pessoa chamada "Júlio" criou uma Carteira bB com o CPF dele e transferiu o dinheiro para outra conta. "Desde o dia 16 de junho até hoje estou sem receber os 70% do valor do meu salário. Uma funcionária da agência em que fui, na pracinha de Vila Velha, me deu uns papéis para assinar e disse que o dinheiro estava na conta desse tal de 'Júlio'", comenta.

O documento que teve que assinar é o termo de contestação de débitos. Ele disse que ainda não fez o BU porque está esperando os 15 dias pedidos pelo banco. "No dia 9 de julho, quando o prazo termina, tenho que ir lá no banco novamente. Se não resolverem até lá vou fazer um BU e entrar na Justiça", aponta.

Aplicativo do Banco do Brasil mostra que um CPF já foi cadastrado e quando tenta recuperar senha aparece um número que não é o do usuário
Aplicativo do Banco do Brasil mostra que um CPF já foi cadastrado e quando tenta recuperar senha aparece um número que não é o do usuário. Crédito: Arquivo pessoal

Um terceiro caso de fraude a que a reportagem teve acesso é o de outra cobradora. Carminda Rocha, 38 anos, trabalha na empresa há sete anos. Ela tem três filhos pequenos e um maior de idade. Assim como os outros colegas, teve redução do salário por dois meses e recebeu do governo federal, por meio do BEm, o referente a 70% do seu salário. 

O problema é que o valor foi transferido de sua conta antes mesmo que ela tivesse acesso. "Eu olhei na carteira de trabalho digital e dizia que o dinheiro estava no banco. Então, fui lá fui e o banco me informou que alguém tinha usado o meu número do CPF para ter acesso ao meu salário. Eles me deram o prazo de 15 dias para eu conseguir a devolução do dinheiro. Eu fiz um BU e estou aguardando", explica.

Carminda Rocha

cobradora de ônibus

"É muito ruim ver isso acontecendo. Temos contas para pagar e quando vamos a uma agência para pegar o salário não podemos receber"

Outra funcionária da empresa, que não quis se identificada, relatou à reportagem que está com medo de ser vítima da fraude no próximo mês. "Quem garante que eles não vão conseguir fazer o mesmo comigo?", questiona.

O OUTRO LADO

A reportagem de A Gazeta entrou em contato com os envolvidos no caso para ter um posicionamento e saber como essas pessoas podem reaver o dinheiro furtado. Até o fechamento desta matéria, às 19 horas desta quinta-feira (2), a Viação Praia Sol e o Ministério da Economia, que é o responsável pelo BEm, não responderam.

Já o Banco do Brasil apenas informou, por nota, que o usuário que não conseguir acessar sua conta na Carteira bB deve entrar em contato pelo próprio App. "Na tela inicial, basta clicar no ponto de interrogação (?), escolher ‘Chat’, inserir o número do CPF e relatar o problema. O cliente ainda tem disponível o link https://www.carteirabb.com.br/ para demais dúvidas relacionadas ao uso da Carteira bB," disse.

Por nota, a Caixa informou que atua de forma conjunta com os órgãos de segurança pública para mitigar riscos de fraudes e garantir um nível adequado de segurança no pagamento do auxílio emergencial. Disse ainda que sempre que detectada suspeita de crime, a Polícia Federal é acionada e recebe todas as informações para as investigações e intervenções necessárias.

"Contestações de saques podem ser formalizadas em qualquer agência da Caixa. Após análise, nos casos em que for comprovado eventual saque fraudulento, o beneficiário será ressarcido diretamente na agência onde foi registrada a contestação", informou a Caixa, em nota.

A Polícia Civil orienta que, diante da suspeita de fraude com relação ao uso das contas digitais, as vítimas devem registrar a ocorrência, o que pode ser feito pela internet na delegacia on-line (delegaciaonline.sesp.es.gov.br). 

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