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O que o ES precisa fazer para reduzir casos e mortes por Covid?

Para conter o aumento no número de casos e mortes, população precisa respeitar as medidas de segurança e o poder público tem que fiscalizar, dizem especialistas

Vitória
Publicado em 03/12/2020 às 15h15
Atualizado em 03/12/2020 às 15h15
A Praia da Costa, em Vila Velha, estava cheia de frequentadores e jogadores de altinha na tarde deste domingo (4)
As praias da Grande Vitória têm registrado aglomeração e pessoas circulando sem máscaras. Crédito: Vitor Jubini

O crescimento no número de casos e mortes por coronavírus vem sendo registrado há mais de um mês no Espírito Santo, a ponto de aumentar a quantidade de municípios em risco moderado de transmissão da doença, e levar o governo a lançar um plano de expansão de leitos para suprir a alta demanda que ainda não tem prazo para dar trégua. Mas o que seria necessário para conter o aparecimento de novos infectados, muitos com risco de agravar e morrer, e assim os indicadores da Covid-19 voltarem a cair no Estado? 

Professor no curso de Medicina da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e infectologista, Paulo Mendes Peçanha avalia que a população, de maneira geral, tem um grande responsabilidade nesse processo de redução de casos. Cada pessoa precisa se comprometer em adotar na sua rotina os protocolos de segurança que representam o autocuidado e, ao mesmo tempo, protegem outras pessoas de seu convívio. 

"A primeira coisa que continua sendo mandatória é manter as medidas previstas no protocolo para evitar a Covid. As máscaras, por exemplo, devem ser usadas desde o momento em que a pessoa sair de casa e durante toda a atividade que fizer fora, no trabalho, lazer ou compras, até retornar. A proposta de utilizar a máscara em todas as situações do dia a dia, com rigor, foi o que possibilitou a flexibilização das atividades", aponta o médico. 

Para o infectologista, o relaxamento da população nessas medidas preventivas é muito evidente e está correlacionado ao aumento de casos. 

Paulo Peçanha

Infectologista e professor da Ufes

"Se não houver um rigor na adoção dessas medidas, em vez de festa e alegria, com certeza vamos ter um final de ano de tristeza para muita gente. É fundamental a adesão em todas as atividades"

Além de máscara, Paulo Peçanha ressalta a importância de se praticar o distanciamento social e evitar locais de aglomeração.  "Isso também é básico. À medida que as pessoas quebram essa determinação e se aproximam mais, voltam a trocar apertos de mãos, abraços e beijos de cumprimentos, pode saber que os riscos aumentam proporcionalmente."

MAIS VULNERÁVEIS

O problema do coronavírus, ressalta o médico, é que um infectado pode estar assintomático e, ao se comportar desse modo descuidado, transmite para outros sem nem mesmo perceber. E, assim, a doença se dissemina de maneira acelerada até chegar aos mais vulneráveis, que vão agravar e podem morrer. É, por essa razão, que o número de óbitos também está crescente

A higienização frequente das mãos também continua fundamental, seja com água e sabão, seja com álcool em gel, para o enfrentamento da pandemia, segundo Paulo Peçanha. 

Mas, se de um lado a população precisa contribuir, de outro o poder público também tem papel importante no controle da Covid-19. Na opinião do infectologista, Estado e municípios têm falhado na fiscalização do cumprimento das medidas restritivas como, por exemplo, em bares e restaurantes que não estabelecem o distanciamento entre as mesas e cadeiras para a utilização dos clientes. "Se não existe cobrança, o relaxamento no comportamento das pessoas vai ser maior", constata. 

TESTAGEM

Outra iniciativa que Paulo Peçanha considera imprescindível é o diagnóstico precoce, com a melhoria da atenção básica nas unidades de saúde, e a ampliação da testagem. "É preciso testar mais e isolar os infectados", defende o infectologista. 

Pós-doutora em Epidemiologia e professora da Ufes, Ethel Maciel também cobra mais fiscalização e melhoria nas estratégias de testagem. Ela observa que muitas pessoas infectadas só manifestam sintomas dois, três dias depois da contaminação, isso quando não são assintomáticas. Sem o teste capaz de detectar a doença previamente, reforça a especialista, tornam-se disseminadoras do vírus, sobretudo se não adotarem os protocolos de uso de máscara e distanciamento. 

Para Ethel Maciel, seria uma medida eficaz fazer uma busca ativa de infectados, criando áreas de testagem em locais de grande circulação de pessoas, como os terminais do Transcol. A professora também considera necessário ampliar a capacidade de testes para diminuir o prazo de resposta com o diagnóstico. A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa)Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) anunciou algumas estratégias nessa área, e, além de credenciar laboratórios particulares para dar suporte no atendimento, quando houver excedente de testes para processar, vai encaminhá-los para a Fiocruz. 

Outra sugestão, desta vez para a iniciativa privada, é que segmentos como do comércio e indústria façam um pacto pelo controle da pandemia. Ethel Maciel argumenta que muitas empresas têm capacidade de testar seus funcionários, ou, pelo menos, adquirir oxímetros - equipamento que mede a saturação do oxigênio no organismo - e que poderiam ser disponibilizados para os empregados que tiverem resultado positivo para a Covid-19. Com o aparelho, é possível fazer o monitoramento da saturação e, nos casos abaixo de 95%, buscar a emergência. É uma estratégia, na avaliação da professora, que pode controlar o agravamento de pacientes, e possibilitar uma intervenção médica mais rápida para evitar novos óbitos.

Questionada sobre a necessidade de voltar a restringir funcionamento de estabelecimentos, Ethel Maciel foi enfática: "para não fechar, é preciso que cada segmento da sociedade tenha seu plano para testar e isolar, de maneira muito rápida, pessoas que apresentarem sinais e sintomas. E a população precisa respeitar as medidas."

A infectologista Rúbia Miossi avalia que medidas restritivas como fechamento são malvistas socialmente porque guardam semelhança com ações de governos autoritários. Para ela, o controle da Covid-19 é responsabilidade de cada indivíduo.

"A medida continua sendo responsabilidade individual. Se cada um não fizer a sua parte, no sentido de reduzir o número de pessoas circulando, reduzir o contato com outras pessoas para que a taxa de transmissão também seja reduzida, não vamos jamais conseguir o controle da doença. Vai ter que se autorregular: quem tiver que adoecer, adoece; quem tiver que morrer, morre. E fica tudo por isso mesmo", frisa.

A médica diz que nesta situação não responsabiliza o poder público porque o país não está sob uma ditadura, regime em que governo decide o que a população vai fazer vida, e sim em uma gestão democrática.

Rúbia Miossi

Infectologista

"Será que a gente precisa de um governo autoritário para compreender que está na nossa mão ter atitude de proteção"

Para ela, o governo poderia ser responsabilizado no caso de haver pessoas morrendo na porta de hospital, por falta de vagas, uma vez que o direito à saúde é constitucional e precisa ser garantido pelo Estado. 

"Agora, não tenho como responsabilizar o Estado por pessoas frequentando bailes na rua, por pessoas frequentarem praias, bares, sendo que ninguém é obrigado a estar lá. Isso é responsabilidade de cada um de nós. Ou as pessoas se conscientizam, ou lamentamos mortos. Vamos continuar repetindo essa ladainha até a pandemia acabar: é preciso conscientização, evitar fazer determinadas coisas, e que vai fazer diferença na vida de todo mundo", conclui. 

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