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É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio. Escreve às terças

O luto patológico, a euforia e o carnaval do coronavírus

O que está acontecendo agora no circo dos horrores? Pavor e negação, principalmente

Publicado em 01/12/2020 às 05h00
Atualizado em 01/12/2020 às 05h01
Coronavírus
Coronavírus: vacina e a vacinação são apontadas como solução final, mas não é tão simples assim. Crédito: kjpargeter/Freepik

Diante de um fenômeno que assola o mundo – estou falando da Covid-19, seja lá o que for ou venha a ser isso -, rapidamente caem de joelhos todas as estruturas de defesa e imunidade que vinham sendo consideradas. Para quem não sabe, o vírus é uma estrutura composta de RNA (ácido ribonucleico), totalmente sem caráter. Aproveita-se das estruturas das células normais para reproduzir-se e explodir a “doadora” e multiplicar-se violentamente nas células defensoras do corpo, uma formação complexa que contém, entre outros elementos, o DNA, e toma conta do corpo.

Ainda bem que a leitura dos sintomas, febre, dispneia, diarreia, e o que mais ocorrer ao sistema, orientam, ainda que não suficientemente, os procedimentos, todos de emergência. A vacina e a vacinação são apontadas como solução final. Mas não é tão simples assim.

Até hoje, embora a ação dos arsenais farmacológicos desempenhem importante e eficiente papel para aplacar a sintomatologia provocada pelo HIV, os coquetéis, por exemplo, não há uma vacina. Com a abrangência dessa agressão atual pouco se pode fazer. E o pouco que se pode – como higiene e uso de máscaras faciais – não é suficiente, ainda mais que o povo brasileiro não tem o hábito de confiar nos seus dirigentes.

Esses dão show de incredulidade diariamente com suas participações nas delinquências ou apresentando um modelo confuso e permissivo para a explicação do que pensam no seu papel de autoridades. Há as exceções, é claro. Estamos agora nesse ponto, não se sabe em quem confiar.

Fico a pensar no que ocorre na estrutura psicossomática de todos nós, humanos. Relendo o psicanalista Julio de Mello Filho, referência mundial do qual tive a honra de ser aluno, as coisas do mundo mostraram-se muito mais claras e coerentes para mim. Em um texto de fundo de estante, “Perda, Luto e Melancolia”, Julio fala da concepção de que corpo e mente é uma estrutura única, o óbvio. As perdas ocorridas pelo novo coronavírus em menos de um ano, de uma maneira fantasmática, sem chance de defesa, nos obriga a repensar a teoria das relações self-objetais, nós e o novo mundo.

Considerando que a vida humana dentro da cultura depende do outro, da auteridade, desde a concepção até a morte, me pergunto: “O que está acontecendo agora no circo dos horrores?" Pavor e negação, principalmente.

Em Buenos Aires, a multidão que foi enterrar o ídolo Maradona estava certamente desejando inconscientemente “viajar com ele”. Os hermanos cometeram um suicídio apaixonado à maneira do craque. Ali todos eram maradonas. A negação, como vocês sabem, é um mecanismo inconsciente de defesa do Eu que apaga do pensamento o que não pode ser resolvido.

O que foi perdido por cada um de nós nesse pandemônio, assassino e inatingível? O corpo psicossomático não conseguiu elaborar sequer um sistema de luto. A perplexidade criou o que Freud chamava de luto patológico, que contém a impotência patológica.

Sobre isso, diz Mello: “O luto patológico decorrente de uma morte real – como é o caso das vítimas da Covid-19 – pode se manifestar por um quadro depressivo. A relação com a vontade está destruída nas outras manifestações de apatia. O contrário do amor é a indiferença. A árvore de sustentação do viver e fazer o outro pode desaparecer e o luto determinaria o recomeço. A velocidade das ocorrências funestas não dá espaço para isso.

Outra defesa patológica instaurada na população é a mania. Pular, gritar, não usar máscara até a morte dourada com essa falsa alegria sem máscaras. O viver, sobreviver e morrer está na trilha das loterias.

Comerciantes, especialmente de farmácia, como acontece nos horrores das guerras mundiais, por exemplo, aumentam desavergonhadamente os preços. Ninguém controla nada. Os atores da organização do país também estão com medo. Assassinatos diários, filicídios e organizações histéricas graves e violentas fazem barulho nas ruas. Os sintomas são contagiosos e como sempre não distinguem, porque é assim que acontece, doenças do corpo de doenças da mente.

Quando a mobilidade dos sintomas está acontecendo, o que sempre aconteceu, a transformação de um sintoma em outro deixa a pesquisa perplexa. Dores musculares podem cessar de súbito com o aparecimento de uma cefaleia. Esse é o esquema da doença visto pela psicossomática.

Mesmo atrasado, cabe ao governo organizar um atendimento psicossomático para todos os estágios da doença, mesmo para os que nunca apresentaram os sintomas conhecidos pelos gênios de plantão.

Dorian Gray, meu cão vira-lata, tem esperança.

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