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Idosos no ES apresentam 11 vezes mais risco de morrer de Covid

Esse é um dos indicadores do relatório apresentado pelo CRM-ES, que também indicou maior letalidade de pessoas que têm comorbidade

Publicado em 26/10/2020 às 20h31
Estudo foi apresentado no auditório do CRM-ES nesta segunda-feira (26)
Estudo foi apresentado no auditório do CRM-ES nesta segunda-feira (26). Crédito: José Carlos Schaeffer

Um estudo contratado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM-ES) para mapear a ação do coronavírus no Espírito Santo mostrou que idosos e pacientes com comorbidades são as pessoas que mais morrem da Covid-19 no Estado. O relatório foi produzido pela empresa Vigilância Epidemiológica e Epidemiologia (Vigiepi), com um recorte entre março e 15 de setembro de 2020.

Embora esse perfil das vítimas já estivesse sendo observado desde o início da pandemia, chama a atenção a potencial ameaça de morte para esse grupo. De acordo com o estudo, pessoas a partir dos 60 anos tiveram 11,6 vezes mais riscos de evoluir a óbito que pessoas de faixa etária menor. 

O mesmo alerta para quem apresenta comorbidade. Segundo a pesquisa, pacientes com pelo menos uma doença prévia tiveram 90% mais risco de morrer.  A incidência é maior também entre os homens. O estudo destaca que o público feminino tem 40% chances de morrer de Covid-19 no Estado, se comparado ao masculino. 

“Essas são questões individuais, características já conhecidas em outros lugares do mundo e também outros estados”, afirma a epidemiologista Maria Cristina Willemann, autora do estudo.

Já questões de vulnerabilidade social e acesso aos serviços de saúde são as justificativas apontadas para outros indicadores observados pelo estudo. Um deles é o fato de que pessoas que não moram na região metropolitana também estavam bastante suscetíveis aos quadros graves da doença que evoluem para morte. “Residir no interior no Estado aumenta em 50% a chance de óbito em se tendo caso grave de Covid”, aponta a pesquisadora.

Tabela mostra fatores associados ao óbito, apontando maior chance de morte por comorbidade, idade e sexo
Tabela mostra fatores associados ao óbito, apontando maior risco de morte por comorbidade, idade e sexo. Crédito: Reprodução

Os casos de óbitos por raça também entram no rol de mortes justificadas por vulnerabilidade e acesso aos serviços de saúde. De acordo com o estudo, ser branco ou pardo reduz em cerca de 30% a possibilidade de morte por Covid-19, se comparados aos pretos, indígenas e amarelos.

CASOS

Até a data de realização do estudo, 32% do total de casos notificados haviam sido confirmados. Uma taxa alta se considerada a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de até 12%. “Entendemos que há uma baixa sensibilidade na captação de casos suspeitos, investigação de contatos, em especial, casos leves no Estado”, avalia Maria Cristina. 

O estudo também calculou o tempo médio das notificações. Da data da suspeita até a notificação, o Espírito Santo leva em média 6,2 dias; da data da suspeita até a coleta do teste RT-PCR, são 4,5 dias; até a realização do teste rápido são 7,3 dias; e a confirmação de óbitos pela doença no Estado leva, em média, 18,9 dias. De acordo com os estudos, os números estão dentro do tempo esperado para o Brasil. Apenas o tempo de encerramento da notificação - 22,7 dias - está acima do recomendado, que é de 21 dias.

TENDÊNCIA DE SEGUNDA ONDA

Sobre os casos confirmados no Estado, o estudo observou o achatamento no dia da coleta, em 15 de setembro, entre as semanas epidemiológicas 36 e 37. No entanto, com a atualização do dia 27 de outubro, a epidemiologista afirmou que é possível  identificar uma nova tendência de aumento e que uma segunda não pode ser descartada.

“ É  possível que uma segunda onda esteja se aproximando. Ainda não podemos dizer que é, mas precisamos ficar de olhos bem abertos para os próximos passos, para as próximas semanas, e as ações que vão ser tomadas daqui em diante”, destaca Maria Cristina.

As cidades que registraram mais casos foram Vila Velha, Serra, Vitória, Cariacica e Linhares. Em relação à população, os municípios com maior prevalência - a quantidade de casos dividida pelo número de moradores - são Presidente Kennedy, Colatina, São Gabriel da Palha, Marechal Floriano, Ibiraçu e Marataízes. “Com menor população, a Covid acometeu mais estes municípios no que diz respeito à necessidade do serviço de saúde e adoecimento da população”, explica a pesquisadora.

ÓBITOS

Apesar de os casos apresentaram uma tendência de alta, não descartando uma segunda onda do novo coronavírus, os óbitos mantém uma tendência de queda, de acordo com o observado no estudo.

“Tal como tem ocorrido no resto do Brasil, em países da Europa, apesar de talvez poder se ver a tendência de uma possível segunda onda de casos, não temos visto isso no número de óbitos. A ocorrência de casos, apesar de ter aumentado nas últimas semanas, não refletiu o número de óbitos. Isso é muito bom. Podemos não ter clareza para o futuro, mas o perfil que se dá é semelhante ao que está acontecendo no resto do mundo”, argumenta.

Quando é feito um recorte do número de mortes pela escolaridade, dois pontos chamaram a atenção no estudo. O primeiro do alto número de óbitos de pessoas com ensino médio (18%) e ensino superior completo (44,2%). Segundo a epidemiologista, a morte de idosos e profissionais da saúde podem ter contribuído para este índice.

“Isso pode ter sido influenciado pela idade, por pessoas que já vivenciaram a vida produtiva. Então, muitos tinham superior completo; e pelo profissional de saúde, que apesar de não ter um grande número de óbitos, tem uma influência”, analisa.

Já os indicadores dos níveis fundamental incompleto (12,7%) e ensino médio incompleto (12,4%) mostram a vulnerabilidade social como uma das causas. “Nesses índices, nós estamos começando a ver as questões sociais de acesso ao serviço de saúde aparecerem como influenciadoras da ocorrência de óbito”, aponta Maria Cristina.

O estudo revela que os municípios que registraram a maior letalidade - percentual de mortes em relação ao número de casos confirmados - foram Ponto Belo, Alto Rio Novo, Guaçuí, Santa Leopoldina e Alegre. Já os municípios com maior mortalidade - número de mortes em relação à população - foram Presidente Kennedy, Marataízes, Itapemirim, Alto Rio Novo e Marechal Floriano.

ATUAÇÃO

Ao fim do estudo, a epidemiologista destacou o trabalho de combate do Espírito Santo no enfrentamento da Covid-19. Segundo Maria Cristina, o Estado é um exemplo no Brasil.

“A partir da análise dos dados, fica bem claro que o Espírito Santo é um Estado exemplo na condução da Covid no Brasil. Aquilo que nós pensávamos no começo da pandemia, em não deixar ninguém morrer sem assistência, isso foi cumprido com êxito. Nós não identificamos, na distribuição de casos e ocorrência, em como a história é contada a partir dos números de que não houve o colapso do sistema de saúde. Então, esse trabalho de achatar a curva e evitar o colapso foi muito bem feito no Espírito Santo”, frisa.

Apesar de reconhecer a atuação do Espírito Santo, o estudo destaca pontos que podem ser melhorados no enfrentamento à doença. Entre eles está o fortalecimento da atenção primária - para reduzir o risco relacionado à presença de comorbidades; e aumentar o acesso ao serviço de saúde da população, principalmente as pessoas do interior e as com menor escolaridade. Além de também ampliar a testagem, em especial RT-PCR.

“Essa é uma missão que nós, do serviço público, estaremos sempre buscando e sempre melhorando. Nós nunca chegamos no final (da missão), mas não podemos esquecer durante a pandemia”, conclui Maria Cristina.

O QUE DIZ A SESA

Também presente no evento de apresentação do estudo, o subsecretário estadual da Saúde, Tadeu Marino, agradeceu pela apresentação da pesquisa e destacou as ações realizadas pelo governo para o combate à Covid-19, como a ampliação da testagem no Laboratório Central do Espírito Santo (Lacen) que,  de 150 a 200 testes por dia, passou para mais de 4 mil exames diários; e da ampliação de leitos de UTI, em vez de montar hospitais de campanha.

“Já fizemos mais de 450 mil exames no Lacen, isso dá mais que 10% da população do Espírito Santo. Nós chegamos a ter 700 leitos de UTI, e hoje estamos usando somente 350. Começamos a voltar os leitos e reintegrá-los na rede para atender outras patologias. Hoje, estamos chegando a 70% de ocupação. Mas, se colocarmos todos os leitos, teríamos 35% de ocupação. Isso dá muita tranquilidade no enfrentamento da pandemia”, sustenta.

Já o presidente do CRM-ES, Celso Murad, ressalta que o objetivo do estudo é construir uma referência para a doença há tempo pouco tempo desconhecida. E que novas pesquisas serão realizadas durante os ciclos da Covid-19.

"A principal finalidade deste estudo é construir a memória de uma enfermidade que não se conhecia, e que ainda transita entre nós de maneira expressiva. Nós precisamos reunir saberes no sentido de controlar e acompanhar a evolução dela. Esse é um piloto, vamos continuar estudando e entendendo o enfrentamento à doença."

O recorte do estudo foi feito entre março e 15 de setembro de 2020 e se baseou em dados coletados do site coronavirus.es.gov.br, o portal do governo do Estado com informações sobre a Covid-19 em território capixaba.

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