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"Se rede particular colapsar, SUS está pronto para atender", diz secretário

Uma das hipóteses para o aumento é de que população que possui plano de saúde conseguiu praticar o isolamento no início da pandemia. Porém, agora, está se expondo mais

Publicado em 23/10/2020 às 15h26
Atualizado em 23/10/2020 às 21h29
Hospital Jayme dos Santos Neves é destaque nacional contra Covid-19
Atendimento no hospital estadual Jayme dos Santos Neves: a taxa da ocupação de leitos na rede pública está em 63,89%. Crédito: Governo do Estado/Divulgação

A ocupação de leitos de UTI na rede privada voltou a subir nas últimas semanas, na análise de médicos que atuam na linha de frente do combate à Covid-19. A alta, porém, não é motivo para alarde, segundo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). O órgão garante que, se os hospitais particulares colapsarem, o Sistema Único de Saúde (SUS) está pronto para atender os pacientes.

De acordo com o secretário estadual de Saúde, Nésio Fernandes, apesar do cálculo de leitos ocupados e disponíveis para Covid-19 da rede particular ser feito de forma diferente da rede pública, foi possível notar nas últimas semanas um aumento de internações de pacientes com o novo coronavírus que têm plano de saúde.  

"A gente sabe que teve um grande aumento nas últimas semanas de internações na rede privada. Para esse acréscimo, temos algumas teses: acreditamos que na classe trabalhadora, as pessoas de classe média baixa, que não possuem plano de saúde, tiveram menos condições de fazer isolamento social no auge da pandemia. Com isso, foram prejudicadas no pior momento da doença. Já a classe média, que tem plano, conseguiu praticar um isolamento mais qualificado. À medida que essa população se expõe mais, é possível que tenha uma taxa de infecção maior. Estamos tentando consolidar essa tese em números e dados para poder confirmar ou não a hipótese", afirmou. 

O secretário completou que, apesar de a Sesa criar relatórios de acompanhamento, é difícil saber a real taxa de ocupação de leitos da rede privada porque não há a dimensão da disponibilidade dos leitos por plano de saúde. 

"Sabemos que hospitais tiveram uma ocupação muito alta nas semanas anteriores, especialmente na semana passada. Mas a rede suplementar não consegue calcular a ocupação de leitos como o Estado faz. Porque há hospitais que possuem uma quantidade de leitos disponíveis para vários planos de saúde, então como o plano de saúde vai contabilizar o leito potencial? Ao mesmo tempo, sabemos que, se essa ocupação continuar subindo, a rede privada tem condições de comprar novos leitos. Além disso, se rede particular ficar pressionada, o SUS está pronto para receber os pacientes", disse.

Indagado se acredita que a rede privada possa colapsar, o secretário afirmou que isso é possível, caso essa parte da população que possui plano de saúde continue em um grau maior de exposição ao vírus. "Não sou a pessoa ideal para avaliar a rede suplementar no enfrentamento da pandemia. O que eu posso te dizer é que, se a rede particular colapsar, o SUS está pronto pra atender os pacientes. O governo tem uma transparência nesses números de leitos. Nós nos preparamos para a doença, criamos leitos", completou.

Atualmente a taxa de ocupação de leitos da rede pública estadual para pacientes com coronavírus está em 63,89%. Se analisados somente os leitos de UTI, a taxa é de 70, 28%. Já em relação as camas de enfermaria, a ocupação é de 57,03%. 

"A CLASSE MÉDIA CANSOU DO CONFINAMENTO", DIZ MÉDICO

Para exemplificar o aumento na ocupação de leitos na rede particular, o médico infectologista Lauro Pinto citou o Complexo Integrado de Atenção à Saúde (CIAS). No local, segundo ele, aumentou não apenas o número de internações, como também de atendimentos emergenciais. 

"Em um momento de pico, em julho, o Cias chegou a ter duas terapias intensivas lotadas, encaminhando para uma terceira, com   mais de 30 pacientes na UTI. Em agosto, esse número chegou a 12, e o hospital desativou uma ala só para Covid-19, voltando a atender outras demandas. Mas com a movimentação do feriado de setembro, houve um aumento e chegou a 27 internados nas últimas semanas. Ainda não passou do pico, mas o número foi mais que o dobro do que vimos no início de agosto. Quarta-feira (21) eram 13 pacientes na UTI. Então, nem de longe, acredito em risco de colapso agora. Mas é claro que, por ser uma doença nova, com poucas informações, esse número precisa ser monitorado sempre", conta.

O médico completou que é notório que uma parte da classe média, que possui plano de saúde, cansou do distanciamento social. Porém, o infectologista fez um alerta para o risco de aumentos de mortes no futuro.

"Se for preciso, os hospitais privados, como o Cias, podem remanejar áreas. Não vejo risco de sobrecarga. Mas é nítido que a classe média está se expondo mais, cansou do confinamento. Algumas pessoas ainda seguem com o distanciamento e, se elas também ficarem expostas, se todo mundo decidir voltar a normalidade ao mesmo tempo, poderemos ter mais mortes. Se observarmos, os pacientes da rede privada têm sido de um grupo mais jovem, com menos complicações, que fica menos tempo internado. Por isso ainda não impactou nas mortes. Mas essas pessoas podem infectar os mais idosos, por exemplo. Não dá pra fazer de conta pandemia já acabou", alertou.

A reportagem procurou a Unimed Vitória, que não se posicionou sobre a informação de aumento nos leitos de UTI para Covid-19 no Cias e respondeu por nota: "A Unimed Vitória informa que todos os dados relacionados a casos suspeitos e confirmados, previsão de leitos e taxa de ocupação do seu hospital são enviados regularmente para a Secretaria Estadual de Saúde, órgão responsável por repassar as informações oficiais sobre a pandemia", disse.

"NÃO É PRECISO ALARDE", DIZ CRM

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), Celso Murad, afirmou que, apesar do aumento de ocupação de leitos na rede particular, não há motivo para alarde. Ele também acredita que o acréscimo nos casos deve-se a maior exposição das pessoas nas ruas. 

"A taxa de ocupação vem crescendo um pouco, mas não é preciso alarde. Esse aumento já era esperado devido à maior exposição das pessoas. O Cias, por exemplo, é uma instituição que atende uma demanda muito grande por ser referência. Ainda assim, não é algo com a mesma intensidade do início da pandemia. Vários serviços da rede privada diminuíram a quantidade de leitos porque houve uma redução significativa de casos e uma UTI parada custa um valor muito alto.  Mas acredito que, havendo necessidade, esses leitos serão reativados", afirmou. 

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