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Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 08:24
A novela do tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos importados de diferentes países, inclusive o Brasil, ganhou novos capítulos nos últimos dias. Depois de a Suprema Corte derrubar as tarifas que chegavam a 50% a itens brasileiros, o presidente norte-americano, Donald Trump, reagiu e anunciou a imposição de uma tarifa global de 10%, que no último sábado (21) foi elevada para 15%.>
No entanto, ele não emitiu oficialmente uma diretriz para aumentar a alíquota até esta terça-feira (24), às 0h01 no horário de Washington, quando a taxa de 10% passou a valer. >
A decisão afeta os principais produtos do Espírito Santo exportados para os Estados Unidos, principal parceiro comercial capixaba no exterior. O país norte-americano recebeu 16,8% das exportações do Estado em 2025, sendo que os principais itens foram rochas ornamentais, aço, petróleo, celulose, café e minério de ferro. Mercadorias que agora devem ter uma nova taxação para entrar nos EUA.>
Na prática, a decisão da Suprema Corte, na última sexta-feira (20), anulou todas as tarifas aplicadas por Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). O que inclui as chamadas tarifas recíprocas de 10%, anunciadas em abril do ano passado. E ainda a sobretaxa de 40% sobre diversos itens de origem brasileira, anunciada por Trump em julho de 2025.>
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Em novembro, Trump havia retirado a taxa de 40% sobre uma série de produtos do agro, incluindo café verde e torrado, mas mantido a tarifação do café solúvel. Em geral, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, ainda estavam sob tarifas 22% dos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos.>
Com a queda das sobretaxas que somavam 50%, o resultado final é uma tarifa de 15% sobre produtos brasileiros, o que inclui o Espírito Santo, com exceção de itens como aço e alumínio, que continuam também sujeitos à alíquota de 50%, a ser somada à nova tarifa global.>
Mas a nova ordem executiva de Trump também apresenta algumas exceções, que ficam com taxa zerada. Nesta lista estão, novamente, o café cru e em grãos, gengibre, a macadâmia e outros produtos.>
O despachante aduaneiro e diretor comercial da Speed Soluções em Comex, Bruno Marques, explica que para a maioria das mercadorias agora vigora a tarifa padrão (já cobrada antes do tarifaço) mais os 15% da taxa global. Ele lembra que essa taxa varia de produto a produto.>
Já o advogado especialista em Direito Comercial Internacional Bruno Barcellos Pereira explica que a tarifa geral imposta pelos Estados Unidos de 15% é o nível máximo autorizado pela Seção 122 sem necessidade de votação no Congresso. Essa é uma lei comercial que permite ao presidente norte-americano estabelecer tarifas globais temporárias por até 150 dias sem aprovação prévia.>
Pereira lembra que o setor de rochas ornamentais, como mármore e granito, também entra na tarifa adicional de 15%, que antes estava em 50%. “O setor, fortemente dependente do mercado americano, tende a sentir impacto relevante em contratos e margens”, aponta.>
Entram também na casa dos 15% a celulose, o minério de ferro e o ferro fundido. Para o advogado, no caso da celulose, por ser commodity global com alta demanda, o impacto pode ser parcialmente absorvido pelo mercado. Para o minério, o efeito depende da ampliação da procura pelo produto e da capacidade de repasse ao comprador norte-americano.>
No caso dos impactos para o café, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) disse que segue em contato constante com os parceiros dos Estados Unidos e monitora a publicação oficial das medidas anunciadas pelo presidente Donald Trump para ter a certeza do cenário que se apresentará ao comércio entre o maior produtor mundial, o Brasil, e o principal importador global do produto – também o maior comprador dos cafés do Brasil –, os EUA. >
Por ora, o entendimento da entidade é que os cafés verdes e os cafés torrado e moído estão isentos da taxação, conforme acordo firmado em novembro de 2025, e que o café solúvel deixaria de ser tarifado em 50% e passaria a ter taxas de 15%, em condições de isonomia com outros países concorrentes. >
Para o Cecafé, se confirmado, esse cenário é positivo, uma vez que o Brasil permanece não taxado na matéria-prima e no produto torrado, além de se beneficiar da redução das tarifas ao solúvel para as mesmas condições comerciais adotadas pelos EUA a outras origens fabricantes.>
“Saímos de uma situação em que tínhamos 50% de tarifa, o que resultou numa queda de agosto até janeiro deste ano de praticamente 50% e a situação a cada mês ficando pior para aquele que era nosso maior mercado. Os Estados Unidos são os maiores clientes de solúvel do Brasil há mais de 60 anos. Praticamente 20% daquilo que exportamos vai para lá. É um mercado de mais de US$ 250 milhões e seria uma perda terrível para o setor. A taxa de 15% coloca todo mundo em circunstâncias iguais. Assim, o mercado fica muito mais justo”, avalia Aguinaldo Lima, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria do Café Solúvel (Abics).>
Para o presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Pablo Lira, o Espírito Santo e o Brasil podem ficar entre os maiores beneficiados pela nova tarifa global de 15% imposta pelos Estados Unidos, apesar do ambiente de forte instabilidade e incerteza nos mercados.>
Lira lembra ainda que as rochas ornamentais devem ser um dos principais produtos beneficiados pela decisão da Suprema Corte e pela nova taxa. Isso porque o produto não estava na lista de exceções inicial e agora passa a pagar a tarifa de 15%, em vez da sobretaxa anterior. Outros itens apontados por ele como beneficiados são pescados, uva e mel.>
O presidente do IJSN cita que um estudo do Global Trade Alert, órgão independente que monitora em tempo real políticas governamentais que afetam o comércio internacional, apontou que a economia brasileira deve ser a mais beneficiada pela derrubada do tarifaço, com redução de 13,6 pontos percentuais na tarifa média de importação de produtos pelos EUA.>
Na sequência, aparecem como mais beneficiadas as economias da China, com queda de 7,1 pontos percentuais, e da Índia, com redução de 5,6 pontos percentuais.>
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