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Soraya Manato confirma que recebeu laudos médicos de garota estuprada

A deputada federal garante, no entanto, que não divulgou as informações da menina e nem repassou os laudos para outras pessoas

Publicado em 20/08/2020 às 21h23
Atualizado em 21/08/2020 às 15h42
Deputada federal Soraya Manato
Deputada federal Soraya Manato. Crédito: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

A deputada federal Soraya Manato (PSL-ES) confirmou que recebeu  laudos e informações médicas da garota de 10 anos que engravidou após ser estuprada pelo tio, em São Mateus, Norte do Espírito Santo. A gravidez foi interrompida após procedimento realizado em Pernambuco.

Segundo a parlamentar, as informações foram enviadas para seu celular, por um aplicativo de mensagens. “Tive acesso ao laudo de um médico. Uma pessoa me enviou o laudo do médico e nele dizia que o bebe tinha 23 semanas e mais de 500 gramas”, relatou.

As informações referem-se a dados da garota no período em que ela foi atendida no Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (Hucam), em Vitória, onde o procedimento para interromper a gravidez foi negado. 

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Soraya também explica que recebeu as informações de laudo de um médico do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), em Pernambuco, onde foi realizado o aborto. “Tive informações de Recife de que o bebê, após a interrupção, tinha 24 semanas e 640 gramas”, relatou.

NÃO DIVULGOU AS INFORMAÇÕES

A parlamentar garante, no entanto, que não repassou as informações para outras pessoas, e nem divulgou os dados pessoais da menina na Câmara Federal ou em redes sociais.

“Recebi dentro da minha casa, no meu celular, não tinha ligado para ninguém. Sou uma parlamentar, sou médica, tenho ética. A pessoa se sentiu na necessidade de me enviar, para que eu fizesse alguma coisa. Tive acesso aos dados, mas não divulguei nada. Só falei do peso e da idade gestacional com o objetivo de mostrar que não se tratava de um aborto e sim de um parto prematuro”, assinalou.

Nesta quinta-feira (20), para a colunista da Folha de São Paulo, Mônica Bergamo, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSol-SP) informou que pediu ao Conselho Federal de Medicina (CFM) que investigue a parlamentar Soraya Manato (PSL-ES) por ter tido acesso ao laudo médico da menina.

Sâmia questiona se não haveria ligações de Soraya com a ativista Sara Giromini, que divulgou dados pessoais da menina. “Abro meu celular para quem quiser, para a polícia conferir que não repassei nenhuma informação”, disse Soraya.

Em relação à Sara, a parlamentar capixaba afirma não ter nenhum contato ou relação com ela. “Nem sei quem é. Aliás, esta Sara nunca foi de direita, é de esquerda infiltrada na direita para fazer este tipo de coisa. O que ela fez foi um absurdo, divulgar dados de uma criança em um caso tão grave como este”, assinalou.

 MOTIVAÇÕES PARA A INVESTIGAÇÃO

Segundo Soraya, sua busca por informações sobre o caso veio após a recusa dos médicos do Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (Hucam) em realizarem a interrupção da gravidez da menina. “O Hucam é um hospital de grande porte, com urgência, emergência, UTI neonatal e é referência. Porque não poderia realizar o procedimento? Fiquei desconfiada”, relata.

As informações por ela obtidas, relata, foram utilizadas para mostrar que não era necessário aplicar medicações que levassem à  morte do feto. “Com este tempo gestacional o bebê é viável. Poderiam ter feito o parto sem matar o bebê. Estamos defendendo a vida da criança que poderia ter sido encaminhada para a adoção”, ressaltou.

O mesmo laudo, segundo a parlamentar, informava que a jovem não tinha nenhuma complicação de emergência. “Não havia sinais de pré-eclampsia, ou eclâmpsia, ou hellp síndrome, e nem diabetes”, conta.

Soraya afirma que, embora seja contra o aborto, respeita a legislação brasileira, até mesmo as que autorizam o procedimento. “Sou cristã, evangélica, contra o aborto,mas também respeito as leis do meu país”, assinalou.

O entendimento da deputada é diferente do médico que coordenou o procedimento de interrupção da gravidez da garota de 10 anos, Olímpio Barbosa de Moraes Filho, gestor executivo do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), da Universidade de Pernambuco.

“No caso de estupro, a norma técnica é até 22 semanas, mas não é proibitivo acima de 22 semanas. E consideramos também a gravidez de uma menina de 10 anos, que não deseja a gravidez de maneira nenhuma”, afirmou em entrevista concedida na segunda-feira (17).

OUTRAS INVESTIGAÇÕES

O Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES) está investigando os fatos relacionados ao atendimento médico oferecido à garota de 10 anos que foi estuprada  e engravidou. 

O presidente do Conselho, Celso Murad, explicou que uma denúncia foi feita por uma deputada ao Conselho Federal de Medicina (CFM), que a encaminhou ao Estado. “Recebemos a denúncia na tarde desta quinta-feira (20). As investigações são realizadas onde os fatos ocorreram”, explica Murad.

O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) também instaurou um procedimento para investigar possíveis vazamentos de informações sobre a menina de 10 anos. Todas as informações relativas ao caso são sigilosas.

Eles também recorreram à Justiça contra a extremista Sara Giromini, que divulgou dados pessoais da criança. A ação pede que ela seja condenada a pagar R$ 1,3 milhão a título de dano moral — o dinheiro, em caso de condenação, será revertido ao Fundo de Direitos da Criança e do Adolescente de São Mateus.

Outra investigação partiu do Ministério Público Federal ( MPF-ES), que enviou um ofício à superintendente do Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (Hucam), Rita Checon, e ao reitor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Paulo Sérgio de Paula Vargas. 

O Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (Hucam) também abriu uma investigação interna para checar se dados sigilosos da garota foram divulgados a partir da unidade hospitalar.

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