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Pandemia

Sem distanciamento, ES pode enfrentar segunda onda da Covid-19

Estado apresenta uma tendência de estabilização na curva de transmissão da doença, mas descumprir isolamento aumenta o risco de nova aceleração de casos e mortes

Publicado em 21 de Junho de 2020 às 17:03

Redação de A Gazeta

Publicado em 

21 jun 2020 às 17:03
Isolamento social durante a pandemia de coronavirus
Isolamento social ainda é fundamental para conseguir diminuir a taxa de transmissão do coronavírus Crédito: Freepik/Divulgação
A terceira fase do inquérito sorológico realizado no Espírito Santo indicou uma tendência de estabilização da curva de transmissão da Covid-19. Apesar da desaceleração na taxa de contágio na Grande Vitória, que tem um peso significativo nos dados do Estado, o momento não é de queda e, mais do que isso, ainda há risco de uma nova onda da doença, sobretudo se o distanciamento social não for incorporado à rotina da população. 
O secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes, afirma que o cenário atual ainda é de uma onda única no Espírito Santo, mas há movimentações distintas pelo fato de estar dividido em territórios. Na região metropolitana, o resultado mais recente do inquérito sorológico aponta redução na taxa de transmissão, agora em 1,5. O interior, entretanto, segue o movimento inverso e o indicador chegou a 2,1. 
"Há uma tendência de estabilização em alguns municípios, e, em outros, aceleração e crescimento. Podemos fazer a mesma análise em nível nacional, uma vez que os Estados estão em diferentes fases da pandemia. Minas Gerais e Mato Grosso, por exemplo, devem viver em julho, agosto e setembro o que passamos em abril, maio e junho", observa. 
Ainda que haja indicadores de desaceleração, Nésio Fernandes ressalta que não é hora de negligenciar as ações de segurança para conter o avanço do coronavírus, e o distanciamento social permanece como a principal medida. Sem ele, frisa o secretário, pode ser rompida a tendência de estabilização e a curva de transmissão voltar a acelerar, resultando em mais casos e mortes. 
Nésio faz uma analogia com o trânsito. "Em uma pista em que a velocidade máxima é 60 quilômetros por hora, estávamos trafegando a 150. Agora, passamos para 90, mas ainda está acima do permitido e, portanto, o risco é alto. Continuamos andando rápido numa pista de velocidade menor."

PACIENTES SUSCETÍVEIS

Fabiano Petronetto do Carmo, professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e integrante do Núcleo Interinstitucional de Estudos Epidemiológicos (NIEE), explica que a possibilidade de uma segunda onda é avaliada sob o seguinte aspecto: número de pacientes ativos, ou seja, pessoas que foram infectadas e ainda podem transmitir a doença, em maior contato com aquelas mais suscetíveis ao contágio. Os indicadores desse perfil da população ainda são altos, podendo provocar uma nova aceleração da Covid-19 no Estado. 
"Estamos longe de vencer a epidemia porque tem muita gente suscetível na sociedade e, ainda, o sistema de saúde está fortemente pressionado", frisa.
A segunda possibilidade, aponta Fabiano, é essa chegada às cidades do interior, com um novo ciclo de contaminação, elevando o número de pessoas procurando atendimento, e aumentando mais a pressão sobre os serviços de saúde.
Mas, para se caracterizar uma segunda onda, é preciso antes que o Espírito Santo registre o chamado platô, ou seja, atinja o pico de transmissão e a taxa fique contínua. Se depois desse quadro, o Estado voltar a ter crescimento no indicador de contágio, então significará uma nova onda. 
Na avaliação de Pablo Lira, presidente em exercício do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) e também membro do núcleo interinstitucional, a segunda onda em território capixaba ainda é incerta. "Precisamos de um pouco mais de tempo para confirmar ou não. No Estado, hoje, podemos destacar que estamos reduzindo a velocidade de crescimento da curva. É um dado positivo, mas que ainda não dá para comemorar. Só teremos certeza de estabilização olhando para trás daqui a uns sete ou 14 dias. "
Isso porque os dados de casos e mortes por coronavírus são colocados no Painel Covid - ferramenta do governo com acompanhamento diário da evolução da doença - no dia da coleta da amostra ou encerramento do caso, e não na data da divulgação do resultado. Assim, somente com o passar de uma ou duas semanas, será possível definir se o Espírito Santo alcançou o platô e observar as tendências a partir dessa condição. 
"Precisamos redobrar a atenção com o isolamento e o uso de máscara nas ruas. Cada um fazendo a sua parte, para reduzir o número de casos e mortes, controlar a doença", destaca Lira.
As medidas individuais são fundamentais para conter o avanço do coronavírus, como reforça constantemente, mas o secretário Nésio Fernandes tem uma preocupação que vai além da conscientização da população sobre os cuidados que todos devem ter: a falta de uma orientação nacional de enfrentamento à pandemia. O Brasil está há mais de um mês com o general Eduardo Pazuello interinamente à frente do Ministério da Saúde
"Essa heterogeneidade nas ações, a polarização e politização entorno da pandemia, impediu que houvesse decisões de conjunto capazes de fazer o enfrentamento uniforme no país. Sem comando nacional, é possível que o Brasil tenha essa crise prolongada, com diversas ondas, nas diversas regiões", conclui Nésio Fernandes.

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