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Chacina na Ilha: crime completa um mês e ainda intriga a polícia

Três pessoas já foram presas por envolvimento com  o crime, mas não há um posicionamento claro sobre a participação de cada uma

Publicado em 28/10/2020 às 06h01
Quatro homens foram assassinados na Ilha do Américo, em Santo Antônio
Chacina na Ilha do Américo. Crédito: Fernando Madeira

Há um mês, quatro famílias sofrem pela perda de jovens que foram retirados de seu convívio pela violência. Os amigos Wesley, Yuri, Pablo e Vitor foram executados a tiros, por volta das 16 horas do dia 28 de setembro, no crime que ficou conhecido como a Chacina da Ilha. Outros dois amigos deles foram feridos.

Mas o que a polícia sabe até o momento sobre o que aconteceu naquele dia? E quem são os presos até agora? O que leva a pessoas atirarem em seis pessoas, de uma só vez, numa tarde de segunda-feira?

O CRIME

No dia do crime, parentes contaram à reportagem que a Ilha Doutor Américo de Oliveira é usada tanto por moradores de Santo Antônio, em Vitória, quanto de Porto de Santana, em Cariacica, como local de passeio. "São criados em Santo Antônio esses meninos, iam para a ilha nadando ou com um barquinho; era perto para eles", lembrou a tia de Yuri, na ocasião.

De acordo com a polícia, eram cinco bandidos e eles atiraram com pelo menos duas armas. Três jovens - Yuri Carlos de Souza, 23 anos, Wesley Rodrigues de Souza, 29, e Vitor da Silva Alves, 19 - morreram na ilha, e  tiveram os corpos recolhidos pelo Corpo de Bombeiros, já no cair da noite de 28 de setembro. Já Pablo Ricardo Lima, 21 anos, chegou a ser socorrido pelo tio para o Pronto Atendimento (PA) de São Pedro, mas chegou sem vida. 

Outros dois foram feridos e sobreviveram ao ataque. Um deles precisou fingir que estava morto, após ser baleado, para não ser executado. 

Perícia da Polícia Civil volta à Ilha do Américo, em Santo Antônio, em Vitória, local onde ocorreu a chacina que resultou na morte de quatro homens
Perícia da Polícia Civil volta à Ilha do Américo. Crédito: Fernando Madeira

INVESTIGAÇÃO

Em um lugar sem câmeras e sem testemunhas, a ilha passou por perícia tanto no momento em que  os corpos foram encontrados quanto no dia seguinte. Nas mãos, a polícia tinha, já espalhadas por celulares, as imagens que foram feitas pelos assassinos antes da execução. 

No afã para dar um retorno à população, o secretário de segurança, coronel Alexandre Ramalho, atribuiu ao tráfico de drogas a chacina, às 7 horas do dia seguinte. "O crime mostra a crueldade e a covardia do tráfico. O tráfico é insano e beira à psicopatia", descreveu. 

Mas, dois dias depois, o delegado à frente do caso, Marcelo Cavalcanti, titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Vitória, apontava a inocência das vítimas, e afirmava que havia cinco suspeitos identificados e a provável motivação do crime. 

"As investigações apontam que os autores eram do tráfico do Morro do Quiabo, em Cariacica, e que possuem ligação com uma organização criminosa que atua na Grande Vitória. A princípio, consideramos que os assassinos acreditavam que esse grupo de amigos estivesse ligado ao PCV, mas mataram um monte de gente inocente", declarou Cavalcanti, na época. 

A sigla PCV, citada pelo delegado, é referente ao Primeiro Comando de Vitória, facção que tem sua base no Bairro da Penha, em Vitória, e ramificações em diversas cidades do Espírito Santo. A facção conta com força armada conhecida como Trem-Bala, criando ou tomando pontos de venda de drogas, além de manter relações comerciais de drogas com os traficantes aliados dessas localidades.

Já a organização criminosa em que o tráfico do Morro do Quiabo tem aliança, à qual o delegado se refere, seria a chamada Associação Família Capixaba (AFC). De acordo com fontes policiais ouvidas pela reportagem de A Gazeta, a Família Capixaba é, atualmente, uma facção criminosa que tenta fazer frente ao PCV e possui como um ponto forte o bairro Mucuri, em Cariacica.

Ato em solidariedade às famílias das vítimas de chacina
Ato em solidariedade às famílias das vítimas de chacina. Crédito: Fernando Madeira

PRESOS

Na primeira semana, o crime parecia estar resolvido. E não demorou para as prisões aparecerem. No dia 2 de outubro, com mandados de prisão solicitados pela DHPP Vitória, uma equipe da Força Tática do 7º Batalhão localizou em Porto de Cariacica, Cariacica, um dos acusados, identificado como sendo Adriano Emanoel de Oliveira Tavares, vulgo "Da Bala" ou "Balinha", de 22 anos.

No dia 3, a mãe de outro acusado, de 18 anos, entrou em contato com o delegado do caso e entregou o filho. 

A mais recente prisão foi de Felipe Domingos Lopes, o "Boizão", pela Polícia Militar no domingo (25), no bairro Porto Novo, em Cariacica. 

Nessa conta, ainda faltam dois suspeitos serem presos, um deles menor de idade.

E AGORA?

Apesar de as três prisões terem sido divulgadas, não foi descrita a participação de cada deles, por exemplo, se atiraram, se deram apoio ou se avisaram que o grupo estava na ilha. Também não foi divulgado se a briga entre facções realmente foi o que motivou o crime e se os presos possuem envolvimento com qualquer uma das facções. 

No dia 20, o pedido da Polícia Civil foi acatado para deixar o processo em segredo de Justiça.  O secretário, que no dia seguinte ao crime deu entrevista sobre o caso, agora, diz que é necessário esperar. "Calma, quando fechar o inquérito, o delegado vai passar. Mas eles têm participação", apontou o coronel Ramalho nesta terça-feira (27) .

O delegado-chefe da Polícia Civil,  José Darci Arruda,  indicou o que ainda está sendo apurado.

"A gente trabalha nesses casos com quem pratica a ação e com o coautor. Uns são praticantes, outros coautores  funcionais. O delegado está individualizando as ações, quem apoiou e quais as armas utilizadas. Todo o trabalho está sendo realizado, será pedida prorrogação das  prisões. É um trabalho de investigação mesmo, agora. Para nós, o mais importante é saber quem são e nós já os identificamos", completou.  

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