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Caixões, velas e ritual em cemitério: fiel denuncia estelionato religioso no ES

Caixões, velas e ritual em cemitério: fiel denuncia estelionato religioso no ES

Em processo na Justiça, a vítima ainda relata cobrança de dízimos por pastor sob ameaça de que forças malignas destruiriam a vida dele e da família

Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 17:23

A Justiça do Espírito Santo aceitou uma representação contra três pessoas de uma igreja evangélica de Cachoeiro de Itapemirim  por suposto estelionato religioso contra um morador da cidade do Sul do Estado. No processo, a vítima alega ter sofrido prejuízos financeiros estimados em mais de R$ 46 mil.

As supostas ações criminosas envolviam, segundo o processo, cobrança de dízimos sob ameaça de que, caso os valores não fossem repassados a dois pastores citados nos autos, o "diabo" e forças malignas destruiriam a vida da vítima e de sua família. Até mesmo um falso ritual maligno, com caixões, fotografias de familiares e velas, teria sido forjado para amedrontar o fiel.

Em decisão divulgada no último dia 12, a juíza da 1ª Vara Cível de Cachoeiro de Itapemirim, Elaine Cristine de Carvalho, negou pedido para bloqueio de bens dos acusados, mas determinou que apresentassem defesa no prazo de 15 dias.

A reportagem não localizou a defesa dos réus na ação até a publicação deste texto. O espaço segue aberto para eventuais esclarecimentos. O advogado da vítima também foi procurado na tarde desta quinta-feira (22), mas preferiu não se manfiestar sobre o assunto.

Segundo a ação, o homem teria começado a frequentar a igreja evangélica coordenada por um dos pastores acusados de estelionato religioso durante o período de pandemia da Covid-19. No processo, ele afirma ter passado a ir ao local em função do fechamento de igrejas católicas na região, no período de isolamento social por questões sanitárias.

O morador ainda relatou que, apesar de não ser dizimista na igreja, fazia ofertas de valores em dinheiro ocasionalmente. Ele alega que, em 2025, durante duas ocasiões de culto no local, o pastor teria ido ao púlpito da igreja, que estaria lotada, insinuar que o fiel estava em "débito" com a instituição há cinco anos.

O homem ainda afirma que o pastor teria chegado a apontar para ele, descrevendo detalhadamente as roupas que vestia para que as outras pessoas que estavam no local o  identificassem, enquanto ordenava que um obreiro lhe entregasse um envelope de cobrança em pleno culto.

No processo, o morador sustenta que, apesar de ter ficado constrangido com a exposição sofrida, continuou a frequenter a igreja. Inclusive, diz ter feito depósito de quantia simbólica em envelope destinado ao recebimento do dízimo pago pelos fiéis, além de pedir orações ao pastor responsável por liderar o templo.

Passados alguns dias do depósito do valor simbólico no envelope e do pedido de oração, o homem afirma ter recebido uma ligação telefônica do pastor. Conforme a vítima, o líder religioso teria dito que a solicitação havia sido encaminhada a outro pastor, identificado no processo como “pastor de fora”.

Na sequência, o suposto pastor “de fora” teria ligado para a vítima, com número de telefone cujo código de identificação era do Piauí.

Na chamada, o suposto religioso teria revelado uma “visão espiritual” sobre um "trabalho de magia negra" feito contra o homem, no cemitério do bairro Aeroporto, em Cachoeiro de Itapemirim. O suposto pastor ainda teria alertado ao morador que o ritual traria sérias consequências espirituais e pessoais a ele e à família.

Valores pagos em Pix e rituais forjados

O morador também afirma, no processo, ter ficado assustado com o relato e marcado de encontrar o pastor da igreja sediada em Cachoeiro e o filho dele, para juntos irem o cemitério indicado durante a conversa com o suposto religioso do Piauí.

O grupo teria se encontrado em um posto de combustível da região e, depois, seguido para o cemitério indicado.

No local, segundo o processo, eles estavam em videochamada com o “pastor de fora” quando encontraram velas, bonecos e fotos da família da vítima

A ação afirma que a cena teria sido montada para abalar emocionalmente a vítima e, assim, justificar a cobrança de um “voto de confiança com Deus” de R$ 22 mil, sob a ameaça de que, sem o pagamento, a família poderia adoecer e até morrer.

É relatado ainda que, diante do terror psicológico, o morador teria feito um Pix na hora de R$ 3 mil e, no dia seguinte, depositado mais R$ 18 mil para que fosse feita uma oração de “quebra do trabalho”. Dois dias depois, porém, ele teria sido procurado novamente pelo “pastor de fora”, que disse ter visto outro ritual, desta vez dentro da propriedade rural em um distrito da cidade .

O encontro foi remarcado, em outro posto de combustível, dessa vez em Vargem Alta, e o grupo seguiu para a fazenda. Lá, de acordo com a ação, sob orientação por chamada, teriam sido encontrados novos objetos ligados ao suposto ritual, como caixões e velas recém-queimadas, o que, na versão do autor, reforçou a pressão e a manipulação para novos pedidos de dinheiro.

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