Perder a vida no trânsito, em qualquer época, é morrer por muito pouco, quase nada. No período das festividades de fim de ano, em que famílias e amigos se locomovem pelas estradas para os aguardados encontros dessa época, a brutalidade e a banalidade ficam ainda mais explícitos. Mais um capítulo dessa tragédia brasileira, que insiste em separar tantas famílias, começou pouco antes do Natal e se prolongou nos primeiros dias de 2026.
Um conhecido comerciante de abacaxi em Jardim da Penha morreu, com o filho e a nora, após o caminhão em que estavam ser atingido por uma pedra de granito. Uma família inteira — pai, mãe e duas filhas — desapareceu em um acidente envolvendo quatro veículos. A poucos quilômetros após a divisa do Espírito Santo com a Bahia, 11 pessoas perderam a vida de uma vez, entre elas três moradores de Linhares, da mesma família. E um casal não sobreviveu à colisão da moto em que estava com um caminhão.
Esses não foram todos os casos registrados no período: em comum, todos os acidentes citados ocorreram na BR 101. Um outro foi registrado na noite deste domingo (4), na BR 262, provocando a morte de pai e filho. Como naturalizar que tantas famílias tenham sido despedaçadas em tão pouco tempo? Em termos de políticas públicas consistentes e de consicientização de motoristas, ainda estamos engatinhando, sem conseguir mudar essa rotina de violência.
A Polícia Rodoviária Federal, responsável pelas estatísticas e pelas fiscalizações das vias federais, realizou a Operação Rodovida Natal 2025 entre os dias 23 e 28 de dezembro e a Operação Rodovida Ano Novo 2025/2026 entre 30 de dezembro e 4 de janeiro. Até a última atualização, foram 9 óbitos nas rodovias federais que cortam o Espírito Santo nas duas operações. O acidente que matou 11 não entra na contabilização por ter ocorrido já na Bahia.
Embora as tragédias rodoviárias acabem chamando mais atenção nas rodovias federais, onde o fluxo de veículos pesados é maior, a violência no trânsito está nas vias estaduais, nas estradas vicinais, nas avenidas e nas ruas. A modernização da infraestrutura viária é um ponto incontestável, mas ainda insuficiente se os condutores não adotarem uma postura mais prudente no trânsito. E cabe ao poder público sistematizar medidas que conectem esses dois eixos, com manutenção, fiscalização e punição. O mau comportamento não pode predominar e continuar impune.
Acabamos de testemunar mais um feito histórico na segurança pública, com o Espírito Santo fechando 2025 com o menor número de homicídios em 30 anos, resultado de trabalho duro e estratégia persistente. A violência no trânsito causa uma indignação passageira, que ainda não foi sufiiciente para mobilizar a população, mas há comportamentos que podem ser considerados criminosos atrás do volante, que precisam ser podados com a lei. A selvageria nas rodovias precisa de um fim, com o mesmo empenho que tem sido destinado aos homicídios. É uma dívida de civilidade que ainda temos como sociedade.
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