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Coronavírus

A reabertura prematura da economia e as suas consequências

Os efeitos da pandemia sobre a vida das pessoas é dramático em diversas dimensões. Não conseguimos evitar o colapso econômico e ainda nos destacamos negativamente pelo número de mortes

Publicado em 13 de Julho de 2020 às 05:00

Públicado em 

13 jul 2020 às 05:00
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

Vitória - ES - Abertura do comércio na avenida Jerônimo Monteiro no Centro de Vitória.
Abertura do comércio no Centro de Vitória: lojas têm horários e dias certos para abrir Crédito: Vitor Jubini
Não restam grandes dúvidas de que a abertura prematura da economia na pandemia foi um fracasso no Brasil e em outros países. Segundo ponderou o jornalista Jamil Chade, em sua coluna no UOL, “a América do Sul, epicentro da pandemia da Covid-19, está sendo também a região mais afetada pela perda de horas de trabalho no mundo e o Brasil, ao optar por salvar a economia e não priorizar o combate ao vírus, aprofundou a crise social” (30 de junho). Não conseguimos evitar o colapso econômico e ainda nos destacamos negativamente pelo número de mortes.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT), por sua vez, divulgou recentemente que a região sul-americana teve a maior perda de horas de trabalho no mundo no segundo trimestre, queda de 20,6%, o equivalente a 32 milhões de postos de trabalho em tempo integral. Para o Brasil, esse número corresponde a 20%, ou seja, 11 milhões de postos de trabalho em tempo integral.
A OIT estima que houve queda de 14% no horário de trabalho global, uma perda de 400 milhões de empregos em tempo integral. Portanto, os efeitos da pandemia sobre a vida das pessoas é dramático em diversas dimensões.
De acordo com o jornalista citado, “quem escolheu economia, perdeu tudo”. Afinal, a queda de horas trabalhadas na América do Sul havia sido de apenas 4,5% no primeiro trimestre, com uma perda equivalente a 7 milhões de postos de trabalho. A mão de obra no Brasil representava 55% da população antes da pandemia e, atualmente, ela estaria abaixo de 50%.
Houve no Brasil um abandono do mercado de trabalho, não apenas a elevação do desemprego. Houve também uma forte deterioração do seu mercado laboral, que já vinha sendo precarizado desde a reforma trabalhista, revelavam os dados do IBGE.
Para o segundo semestre, segundo o jornalista Jamil Chade, “a OIT alerta, porém, que a crise não terminou e que uma recuperação será lenta e dolorosa”. Não se deve descartar uma segunda onda da pandemia e o retorno de restrições que afetariam a recuperação das economias. Tampouco se devem desconsiderar as estruturais desigualdades de gênero, em desfavor das mulheres no mercado laboral. Enfim, a abertura prematura terá consequências ruins.
Está se consolidando como um consenso acadêmico e científico a visão de que a rápida saída da crise não se dará pela suposta eficiência do capital privado e que as medidas prematuras de flexibilização das políticas de isolamento social nas unidades federativas não contribuem para a sustentabilidade da recuperação. Afinal, estão sendo construídas condições de vida insuportáveis para a sociedade brasileira? O mundo ainda não venceu a pandemia e os seus efeitos socioeconômicos duradouros, vem alertando a Organização Mundial da Saúde (OMS).
No período de uma década, o Brasil “passou do sonho à distopia”, afirma Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opalc) da universidade Sciences Po de Paris (BBC News Brasil, 20 de junho). O tripé democracia-crescimento-previsibilidade entrou em colapso no Brasil, algo que foi reforçado pela ideologia da austeridade permanente.
Portanto, podemos dizer que o normal já era distópico no Brasil antes da pandemia. Estrada, por sua vez, citou o livro “Como as democracias morrem”, dos professores de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, e defendeu que o processo de degradação institucional realizado por líderes democraticamente eleitos, descrito na obra, se aplica ao Brasil.
Segundo a economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gita Gopinath, “esta crise terá consequências devastadoras para as populações pobres do mundo” (blog do FMI, 17 de junho). Para que uma necropolítica tropical não se aprofunde como a banalização do mal entre nós, será preciso alterar o curso distópico e fiscalista das contrarreformas neoliberais.
A crise econômica agravada pela pandemia demanda a efetiva revisão do paradigma da austeridade fiscal no Brasil. Há resistências no âmbito do solilóquio fiscalista porque há grandes interesses econômicos vinculados ao mesmo. A mistura entre política, poder, ideologia e negócios nos revela que o bom senso pode muito bem perder a batalha pelo futuro. O Chile, cuja redemocratização foi tutelada por 30 anos pelo poder econômico beneficiado na ditadura, nos serve de exemplo de que, cedo ou tarde, os velhos problemas sociais estouram.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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