O encarecimento do crédito imobiliário no Brasil tem levado consumidores a reavaliar a forma de adquirir imóveis em 2026. Em um cenário de juros elevados e maior rigor na concessão de financiamentos, o consórcio imobiliário vem ganhando espaço como alternativa de planejamento financeiro para os que desejam formar patrimônio.
O avanço da modalidade acompanha um movimento mais amplo de crescimento do sistema de consórcios no país. Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC) mostram que o setor atingiu 12,78 milhões de consorciados ativos no início de 2026, crescimento de 12,4% em relação ao ano anterior, que, até então, era o maior patamar já registrado.
As vendas de cotas somaram 476,8 mil apenas no período analisado, enquanto os créditos comercializados alcançaram R$ 43,15 bilhões, alta de 23,7% na comparação anual. A própria ABAC projeta crescimento de aproximadamente 11% para o sistema de consórcios em 2026, impulsionado pela busca por alternativas menos expostas ao custo do crédito tradicional.
Dentro desse cenário, o consórcio imobiliário aparece entre os segmentos de maior expansão. A expectativa do mercado é de crescimento superior a 25% neste ano, sustentado, principalmente, pela busca de consumidores interessados em formar patrimônio no médio e longo prazo.
Para Carlos Fuzinelli, sócio-fundador e CEO da FVL Consórcios, o crescimento da modalidade revela uma mudança de comportamento do consumidor brasileiro. “O consórcio deixa de ser apenas uma alternativa ao financiamento e passa a ser uma ferramenta de planejamento. O consumidor não está só pensando em comprar, mas em como comprar melhor e com menor impacto financeiro ao longo do tempo”, afirma.
Segundo ele, o cenário de juros elevados ampliou a percepção sobre o peso do custo financeiro nas operações tradicionais de crédito. “O consórcio permite que o brasileiro conquiste bens sem a incidência de juros, o que reduz significativamente o custo final da aquisição. Em um cenário de crédito caro, essa diferença pode ser decisiva”, pontua.
Cautela
Apesar do avanço, especialistas destacam que o consórcio não substitui necessariamente o financiamento imobiliário. As modalidades atendem necessidades diferentes e exigem avaliações distintas por parte do comprador.
De acordo com o diretor da Gava Crédito Imobiliário, Ricardo Gava, o principal erro é enxergar o consórcio como solução universal para aquisição de imóveis. “O consórcio é uma alternativa válida quando inserido dentro de uma estratégia, desde que o cliente compreenda as regras e os riscos envolvidos”, explica.
Segundo ele, a modalidade tende a funcionar melhor para consumidores que possuem horizonte de longo prazo e não dependem do imóvel de forma imediata. Nesse perfil, o consórcio também atua como mecanismo de disciplina financeira.
Isso se justifica com o fato de que o funcionamento do sistema é baseado em uma espécie de autofinanciamento coletivo, em que os participantes contribuem mensalmente para um fundo comum e são contemplados ao longo do prazo por sorteio ou lance, recebendo uma carta de crédito para aquisição do imóvel.
Na prática, o principal atrativo está na ausência de juros tradicionais, diferentemente do financiamento imobiliário. Mas, ainda assim, existem custos envolvidos, como taxa de administração e correções monetárias aplicadas ao longo do contrato.
No consórcio imobiliário, tanto a carta de crédito quanto as parcelas passam por atualizações monetárias, geralmente vinculadas ao Índice Nacional de Custo da Construção (INCC).
“Essa atualização busca manter o poder de compra, mas também impacta o valor das parcelas e do saldo devedor. Além disso, a valorização dos imóveis pode ocorrer em ritmo diferente do índice aplicado, o que pode fazer com que o imóvel desejado se torne mais distante ao longo do tempo”, explica Gava.
Outro ponto de atenção é que a contemplação não garante automaticamente o uso do crédito. O participante ainda precisa passar por análise financeira para aprovação da operação no momento da utilização da carta. Isso significa que o consumidor pode contribuir durante anos e, mesmo contemplado, depender de validação de crédito para efetivamente adquirir o imóvel.
Panorama geral
Mesmo com o crescimento da modalidade, o financiamento imobiliário segue predominante no país, principalmente porque atende consumidores que precisam acessar o imóvel imediatamente.
Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) mostram que o crédito imobiliário movimentou mais de R$ 150 bilhões em 2025, reforçando o peso da urgência na decisão de compra.
É justamente nesse ponto que especialistas apontam, afinal, qual é a principal diferença entre as modalidades. “O financiamento resolve a urgência, enquanto o consórcio resolve o custo. A escolha depende do momento de vida e da estratégia financeira de cada pessoa”, explica Carlos Fuzinelli.
Em muitos casos, o consórcio também vem sendo utilizado como alternativa para quem ainda não possui o valor de entrada exigido no financiamento tradicional, normalmente em torno de 20% do valor do imóvel.
“O consórcio permite acessar ativos que, muitas vezes, não seriam viáveis à vista. Quando bem planejado, ele pode ser uma ferramenta importante de crescimento patrimonial”, afirma Fuzinelli.
O pagamento à vista continua sendo a modalidade financeiramente mais vantajosa, especialmente pela possibilidade de negociação de descontos. Levantamentos do Sebrae indicam que compras à vista podem gerar abatimentos entre 10% e 15%, dependendo do setor. No entanto, a exigência de capital imediato ainda limita essa opção a uma parcela menor da população.
Nesse cenário, o consórcio se consolida como uma alternativa intermediária entre acesso ao imóvel e redução de custo financeiro, embora especialistas reforcem que a modalidade exige planejamento, visão de longo prazo e entendimento claro sobre os riscos envolvidos.
“Na prática, o consórcio pode ser uma boa ferramenta para quem pensa no longo prazo e não depende do imóvel no curto prazo. Mas, quando há necessidade imediata ou expectativa de valorização do mercado, o custo do tempo passa a ser um fator relevante na decisão”, conclui Ricardo Gava.