Afinal, o governador Renato Casagrande concorda ou discorda com as posturas de Jair Bolsonaro no tocante à pandemia do coronavírus? Essa pergunta precisa ser respondida porquanto Casagrande deixou no ar dúvidas quanto às medidas de isolamento social e de vedação às aglomerações.
Apesar de Casagrande ter feito um pronunciamento oficial muito bem recebido com críticas explícitas à forma irresponsável como Jair Bolsonaro tem se posicionado institucionalmente quanto à pandemia da Covid-19, nos últimos dias, o governo do Espírito Santo não tem se comportado de modo coerente com seu pronunciamento oficial.
É consenso entre todas as autoridades médicas a importância das medidas de isolamento social e de se evitar aglomerações para dificultar um crescimento exponencial da curva epidêmica do coronavírus. Caso não haja um achatamento dessa curva, dada a alta taxa de transmissibilidade do coronavírus, pode haver um colapso dos serviços públicos e privados de saúde, já que o número de prováveis infectados que venham a depender de leitos e equipamentos de maior complexidade poderá ser muito maior que a capacidade instalada.
Noutras palavras, caso o coronavírus de alastre de forma muito violenta e rápida, como na Itália e na Espanha, não haverá leitos nem respiradores para atender a todos os doentes graves, levando a uma explosão no número de óbitos. Num colapso de saúde, pouco importa se um cidadão tiver plano de saúde, puder pagar um hospital particular ou for usuário do SUS: não haverá condições de atendimento adequado. Daí a importância de proibir aglomerações e a circulação em massa pelas ruas, já que, assim, diminui-se a possibilidade de novos casos de coronavírus. Sem contar a parcela de casos subnotificados.
Uma das primeiras medidas de Casagrande que contrariaram as orientações dos organismos internacionais de saúde foi a drástica redução na frota do transporte público na Grande Vitória. Como muitas pessoas, inclusive aqueles que trabalham na linha de frente do combate à pandemia (profissionais da saúde, de segurança, funcionários de supermercados e farmácias, dentre outros), dependem do transporte público, a diminuição expressiva da frota dos ônibus trouxe como resultado uma grande lotação nos veículos, pontos e terminais, um perigo à saúde pública. A medida, felizmente foi revertida.
Muitos serviços não podem parar, os serviços essenciais. Entretanto, o governo estadual liberou o funcionamento de atividades que, a bem da verdade, não são essenciais neste momento. O governador Casagrande liberou o funcionamento de lojas de chocolates e até mesmo, pasmem, de salões de beleza, onde o contato é bastante próximo. Como divulgado por A Gazeta, igrejas realizaram cultos com presença massiva de fieis em aglomerações no Espírito Santo. O Ministério Público Federal chegou a recomendar ao governo estadual a adoção de medidas para evitar e coibir tais aglomerações, porém, o governo sequer respondeu à recomendação do MPF, o que motivou o ajuizamento de ação civil pública contra o governo do Espírito Santo.
Por isso, Casagrande precisa responder: ele cedeu aos apelos de Bolsonaro ou discorda do presidente quando ele diz que as medidas de isolamento social devem ser relaxadas? Nessa encruzilhada, a opção pela preservação de vidas deve ser prioridade, ainda que a economia sofra prejuízos e cultos sejam realizados pela internet. A economia pode ser recuperada, mas as pessoas precisam sobreviver à epidemia. E diz a Bíblia que onde houver dois ou três reunidos, Deus estará no meio deles, mesmo que estejam em casa, como deve ser nesse momento!