Acabei o artigo da semana passada com a seguinte questão: “como ficará nossa humanidade depois de tudo isso?”, em referência ao confinamento por causa da pandemia.
Muito tem se falado sobre as consequências econômicas negativas, com empresas quebrando, pessoas desempregadas, aumento da pobreza, algo que tende a ser agravado num país como o Brasil, que não consegue sair de uma crise financeira que persiste há alguns anos. É claro que ainda pode haver situações mais radicais e até imediatas, afinal o risco de um colapso social com saques ao comércio é bem possível. Quem vai segurar o povo quando o dinheiro acabar e eles não tiverem como comprar comida?
Por outro lado, como uma espécie de compensação, já temos visto notícias sobre a melhora da qualidade do ar, por conta da diminuição da poluição na China, já que há menor circulação de veículos e as fábricas diminuíram suas produções. E em Veneza, sem turistas e com as gôndolas, barcos e lanchas parados, a água ficou mais clara e limpa.
Mas e quanto às questões comportamentais, seria possível prevermos os tipos de efeitos que serão ocasionados a partir do coronavírus e da quarentena? Exemplo: haverá perda da afetividade típica dos latino-americanos após perdermos o hábito de apertar a mão, abraçar e beijar no rosto?
Num país com milhões de católicos, ainda haverá quem faça o sinal da cruz e beije o crucifixo que leva pendurado no pescoço?
Até algo mesmo insignificante veio à mente. É o caso àqueles assobios altos, feito com os dedos da mão na boca. Meu filho a pouco me pediu para ensiná-lo. Pelo jeito ele nem chegará a praticar. E acontece que tal tipo de assobio pode ser bastante útil em situações de emergência, para chamar a atenção de algo quando alguém está distraído e um pouco distante.
À medida que as pessoas se acostumarem com o trabalho remoto, pagamentos on-line e os serviços de entrega, vendo nisto vantagens econômicas, comodidade, ganho de tempo, esta deve ser uma tendência sem volta. E quais serão as consequências para a vida pública na cidade, com ruas cada vez mais vazias? Deixaremos de caminhar pelas calçadas?
Ou ainda, quando a reclusão acabar, será que as pessoas vaidosas, que sempre saíram de casa arrumadas, bem vestidas, elegantes, seja para o trabalho ou para algum evento social, voltarão a ter isso como padrão de comportamento? Afinal, provavelmente ficaremos semanas (ou serão meses?) em casa, sem necessidade de pôr uma roupa alinhada, e aos poucos uma parte da sociedade irá se desprender de tal conduta sociocultural e aí, quem sabe, tais valores já não façam tão sentido. Ficaremos imunes daqueles desejos psicológicos de “ver e ser visto” pelos nossos pares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos? O contato social se arrefecerá? Será a pá de cal nos encontros festivos?
E caso isto aconteça, as consequências para setores como a indústria da moda e de cosméticos ou salões de beleza e cabeleileiros seriam significativas.
Mas também se poderia pensar o contrário, que haverá aqueles que sairão de casa ansiosos por voltar a usar as roupas de festa, agoniados em participar de eventos sociais, como uma espécie abstinência da vida pública protocolar.
Não resta dúvida, contudo, que a noção de tempo e espaço de todos nós irá se alterar durante o período da quarentena.
Limitados diariamente ao ambiente residencial de nossas casas ou apartamentos, a ideia de espaço será diminuída de modo radical. Ainda que estejamos inseridos numa cidade extensa e populosa, num país imenso e continental, num enorme planeta e num universo infinito, nada disso fará mais sentido, afinal, só nos restou os poucos metros entre a porta de entrada da casa e a cama onde dormimos.
Neste ponto, cabe refletir sobre o fato que a própria quarentena se deu por causa da “necessária” movimentação presencial de pessoas viajando pelo mundo, inicialmente indo e voltando da China, mas, num segundo momento, os deslocamentos já foram em todas as direções, ou seja, a despeito do filtro das telas proporcionados pela internet, que nos deixa trabalhar remotamente, fazer pagamentos on-line, pedir comidas por delivery, ainda somos seres presenciais, que queremos estar fisicamente presentes nos lugares para falar, ouvir, ver e sentir pelos nossos próprios sentidos tudo aquilo que não é suficiente ser falado, ouvido, visto e sentido a distância.
E quanto ao tempo? Afinal, teremos tanto tempo disponível para fazer “pequenas” coisas ao longo do dia, todos os dias, que sobrará mais tempo pra usarmos como quisermos, criativamente, evitando a monotonia que poderia ser catastrófica para a sanidade mental de uma sociedade acostumada e encher o dia de coisas, que agora, neste momento, podem até parecer insignificantes.
De fato, estamos no começo de uma nova era...