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Novas atitudes

Como será a nossa vida depois da pandemia do coronavírus?

Seria possível prevermos os tipos de efeitos que serão ocasionados a partir do coronavírus e da quarentena? Haverá mudança no comportamento? E a economia e as relações de trabalho e consumo? Nossa relação com o espaço público vai mudar?

Públicado em 

02 abr 2020 às 05:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Coronavírus - Covid19
Coronavírus - Covid19 Crédito: Gerd Altmann/Pixabay
Muito tem se falado sobre as consequências econômicas negativas, com empresas quebrando, pessoas desempregadas, aumento da pobreza, algo que tende a ser agravado num país como o Brasil, que não consegue sair de uma crise financeira que persiste há alguns anos. É claro que ainda pode haver situações mais radicais e até imediatas, afinal o risco de um colapso social com saques ao comércio é bem possível. Quem vai segurar o povo quando o dinheiro acabar e eles não tiverem como comprar comida?
Por outro lado, como uma espécie de compensação, já temos visto notícias sobre a melhora da qualidade do ar, por conta da diminuição da poluição na China, já que há menor circulação de veículos e as fábricas diminuíram suas produções. E em Veneza, sem turistas e com as gôndolas, barcos e lanchas parados, a água ficou mais clara e limpa.
Mas e quanto às questões comportamentais, seria possível prevermos os tipos de efeitos que serão ocasionados a partir do coronavírus e da quarentena? Exemplo: haverá perda da afetividade típica dos latino-americanos após perdermos o hábito de apertar a mão, abraçar e beijar no rosto?
Num país com milhões de católicos, ainda haverá quem faça o sinal da cruz e beije o crucifixo que leva pendurado no pescoço?
Até algo mesmo insignificante veio à mente. É o caso àqueles assobios altos, feito com os dedos da mão na boca. Meu filho a pouco me pediu para ensiná-lo. Pelo jeito ele nem chegará a praticar. E acontece que tal tipo de assobio pode ser bastante útil em situações de emergência, para chamar a atenção de algo quando alguém está distraído e um pouco distante.
À medida que as pessoas se acostumarem com o trabalho remoto, pagamentos on-line e os serviços de entrega, vendo nisto vantagens econômicas, comodidade, ganho de tempo, esta deve ser uma tendência sem volta. E quais serão as consequências para a vida pública na cidade, com ruas cada vez mais vazias? Deixaremos de caminhar pelas calçadas?
Ou ainda, quando a reclusão acabar, será que as pessoas vaidosas, que sempre saíram de casa arrumadas, bem vestidas, elegantes, seja para o trabalho ou para algum evento social, voltarão a ter isso como padrão de comportamento? Afinal, provavelmente ficaremos semanas (ou serão meses?) em casa, sem necessidade de pôr uma roupa alinhada, e aos poucos uma parte da sociedade irá se desprender de tal conduta sociocultural e aí, quem sabe, tais valores já não façam tão sentido. Ficaremos imunes daqueles desejos psicológicos de “ver e ser visto” pelos nossos pares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos? O contato social se arrefecerá? Será a pá de cal nos encontros festivos?
E caso isto aconteça, as consequências para setores como a indústria da moda e de cosméticos ou salões de beleza e cabeleileiros seriam significativas.
Mas também se poderia pensar o contrário, que haverá aqueles que sairão de casa ansiosos por voltar a usar as roupas de festa, agoniados em participar de eventos sociais, como uma espécie abstinência da vida pública protocolar.
Não resta dúvida, contudo, que a noção de tempo e espaço de todos nós irá se alterar durante o período da quarentena.
Limitados diariamente ao ambiente residencial de nossas casas ou apartamentos, a ideia de espaço será diminuída de modo radical. Ainda que estejamos inseridos numa cidade extensa e populosa, num país imenso e continental, num enorme planeta e num universo infinito, nada disso fará mais sentido, afinal, só nos restou os poucos metros entre a porta de entrada da casa e a cama onde dormimos.
Neste ponto, cabe refletir sobre o fato que a própria quarentena se deu por causa da “necessária” movimentação presencial de pessoas viajando pelo mundo, inicialmente indo e voltando da China, mas, num segundo momento, os deslocamentos já foram em todas as direções, ou seja, a despeito do filtro das telas proporcionados pela internet, que nos deixa trabalhar remotamente, fazer pagamentos on-line, pedir comidas por delivery, ainda somos seres presenciais, que queremos estar fisicamente presentes nos lugares para falar, ouvir, ver e sentir pelos nossos próprios sentidos tudo aquilo que não é suficiente ser falado, ouvido, visto e sentido a distância.
E quanto ao tempo? Afinal, teremos tanto tempo disponível para fazer “pequenas” coisas ao longo do dia, todos os dias, que sobrará mais tempo pra usarmos como quisermos, criativamente, evitando a monotonia que poderia ser catastrófica para a sanidade mental de uma sociedade acostumada e encher o dia de coisas, que agora, neste momento, podem até parecer insignificantes.
De fato, estamos no começo de uma nova era...

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

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