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Para o bem de todos

No trato do coronavírus, a emoção individual cede lugar à ética coletiva

A subjetividade individual de cada ser humano influencia a forma do seu agir público, em especial na função política que estiver exercendo em determinado momento de sua história de vida

Públicado em 

25 mar 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Bolsonaro encontra Trump, nos Estados Unidos
Bolsonaro e Trump: críticas quanto ao trato do coronavírus Crédito: Reprodução Instagram
Por muito tempo vem-se falando que a política é dominada pela racionalidade posta em prática numa espécie de jogo, no qual os participantes estão sempre lutando pelo seu próprio interesse de forma egoísta. Assim, as correntes mais tradicionais das ciências sociais vão entender – apoiando-se em "O Leviatã", de Thomas Hobbes, e em "O Príncipe", de Nicola Maquiavel – que o agir do ser político é um agir movido por paixões e que aqueles que conseguem racionaliza-las saem-se vitoriosos.
Ocorre que, no mais tardar após a declaração do estado de pandemia por coronavírus no mundo pela Organização Mundial da Saúde (OMS), passamos a nos indagar sobre o acerto dessa análise realista do evoluir da política na modernidade até os nossos dias, sempre partindo dos pressupostos teóricos postos lá trás por Hobbes e Maquiavel.
O francês Christophe Prochasson, diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (École des hautes études en sciences sociales) de Paris, França, em um texto publicado no Brasil em 2005 sob o título "Emoções e política: primeiras aproximações", vai nos dizer que “os afetos fazem parte do horizonte analítico dos historiadores da política [desde sempre]”. Em outras palavras, a subjetividade individual de cada ser humano influencia a forma do seu agir público, em especial na função política que estiver exercendo em determinado momento de sua história de vida.
Ao contrário das paixões, as emoções não são somente um dado psicológico do ser, inacessível ao pesquisador ou ao historiador. Se as paixões são impulsos internos, as emoções dependem do ambiente cultural e social em que o indivíduo vive. Por isso, essas emoções podem e devem ser analisadas pelas ciências sociais, a fim de melhor entender o agir político contemporâneo.
Tivemos nas duas últimas semanas alguns exemplos que podem ser analisados sob essa perspectiva. De um lado, temos os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro negando a gravidade da doença que se espalhava a partir do coronavírus desde a China para o Ocidente; e, de outro lado, temos a chanceler alemã alertando a população em um pronunciamento na televisão sobre a gravidade do vírus, chegando até mesmo a dizer que cerca de 70% da população alemã seria contaminada pelo coronavírus.
Temos aqui, claramente, dois tipos de approach para um mesmo problema, os quais variam de acordo com a forma como as emoções são constituídas culturalmente em cada um dos ambientes políticos onde as colocações foram formuladas. Se, na nossa hipótese, no primeiro caso, temos uma sociedade mais sensível ao pânico, os políticos usando de uma retórica diferente, alinhando-se à cultura do seu eleitorado cativo, agem com medo de espalhar mais pânico negando as evidências científicas. E, ainda seguindo a nossa hipótese, no segundo caso, se o político sabe que a população destinatária do pronunciamento confia na ciência, a mensagem tem que estar amparada em dados científicos, mesmo que seja muito dura, ou seja, aqui a emoção é a confiabilidade.
Observamos, assim, que num primeiro momento do agir político, claramente, as emoções tomam lugar predominante no discurso político. Não é a racionalidade do teórico moderno que prevalece em momentos de crise; até mesmo o agir do príncipe ou do o leviatã será aquele condizente com o sentimento que ele carrega em si no momento, espelhando muito o sentimento da população que o apoia ou que ele imagina que o apoie.
O agir racional na política impõe-se posteriormente e, muitas vezes, não pelo próprio interesse do ser político, mas pelo interesse de uma outra instituição social, como o sistema econômico ou a comunidade científica. Nos três exemplos que estamos analisando aqui, percebemos que o discurso e o agir de ao menos um deles alterou-se depois de um choque de racionalidade imposto pelo sistema financeiro, que foi o discurso do presidente dos Estados Unidos.
Nesta última semana, depois de uma enorme pressão do mercado financeiro e da elite econômica do país, Donald Trump muda até mesmo a sua forma de agir, as suas mímicas faciais e a forma de falar com o público. O presidente norte-americano passa a adotar uma retórica de conciliação, apresenta-se à população prestando contas da situação da pandemia sem mais negar a gravidade do problema e autoriza-se, até mesmo, a ser consertado vez ou outra, pelo dr. Anthony Fauci, o médico responsável pela força-tarefa contra o coronavírus instituída pela Casa Branca e chefiada pelo vice-presidente Mike Pence.
Ora, se o mercado financeiro pressionou a mudança de retórica e postura do presidente, a comunidade científica por meio do dr. Fauci agora insiste na mudança na forma de expor o problema, evitando achismos, alardes e até mesmo esperanças de cura precipitadas, as quais o presidente americano gostaria de poder espalhar agora, como boa notícia.
Na Alemanha, por seu lado, não se viu mudança na retórica e na postura da Chanceler de forma drástica como visto nos EUA, mas houve sim um recrudescimento na fala de Angela Merkel quando ela passou a se dirigir diretamente à população jovem, que insistia em sair ao ar livre, compartilhar ambientes fechados, sem aderir ao pedido de solidariedade aos mais velhos feito diretamente pela chanceler.
Merkel, de certa forma, confiava (emoção) que a população seguiria o seu apelo de forma racional, mas o agir humano é pautado precipuamente nas emoções, de modo que a racionalidade imposta carece de legitimidade até mesmo de pessoas que cresceram e foram criadas na mesma cultura e sociedade.
Aqui no Brasil, então, é interessante perceber que não houve alteração no agir do presidente da República, que se mantém fiel à retórica inicial em relação à crise provocada pela chegada do coronavírus ao Brasil. A minha hipótese, para concluir, é a de que as emoções que guiam os políticos demoram a se esvair por um período mais longo no Brasil, se comparamos com o agir político em outros lugares.
Ontem mesmo percebemos a reiteração de um discurso que nega as evidências científicas sobre a gravidade da doença e foca em questões econômicas. Percebe-se uma forte pressão do setor financeiro e da elite econômica brasileira entrando em choque com emoções populares expressadas via internet. Assim, parecem que as pressões feitas por outras instituições sociais começam a chegar ao centro do poder no Brasil, mas que esse centro tem dificuldades de passar para a fase racional do agir político em momentos de crise.
Observamos, assim, que para além das emoções constituídas cultural e socialmente numa sociedade, é preciso o exercício da justificação moral da política em uma crise, independentemente do local onde nos encontremos. A justificação moral da política é justamente a mudança nos discursos que foi vista nos EUA e na Alemanha nos últimos dias, quando a emoção individual cede lugar à ética coletiva, em nome e para o bem de todos. Ou seja, quando o detentor do poder outorgado pelo povo democraticamente deixa de agir com base em suas próprias percepções emotivas e passa a agir em nome do povo que delegou a ele o poder que exerce.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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