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Saúde pública

Coronavírus vai fazer a sociedade brasileira mostrar sua verdadeira face

Será que essa ideia que temos de que o povo brasileiro é solidário irá se provar verdadeira quando a crise apertar por aqui?

Públicado em 

18 mar 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Homem em laboratório faz testes para infecção de coronavírus Crédito: Freepik
Conversando com médicos nos últimos dias fui percebendo o aumento da preocupação, à medida que os planos de ação para os Estados e para o país foram sendo definidos pelas Secretarias de Saúde e pelo Ministério da Saúde do Brasil.
Talvez estivéssemos em uma clima de anestesiamento coletivo devido ao carnaval e aos incentivos químicos que todos acabam de um jeito ou de outro usando durante os festejos, mas a verdade é que agora o coronavírus finalmente virou um tema no Brasil e as pessoas estão começando a perceber a gravidade da pandemia.
Condutas que nos eram usuais, formas de tratamento corriqueiras nos elevadores e corredores da vida vão sendo abandonadas e o distanciamento exigido vai sendo implantado – meio aos troncos e barrancos, é certo! Mas será que o simples afastamento resolveria a questão e traria para o Brasil uma crise menos dramática do que a que se vive na Itália no momento?
Não me cabe estimar a eficácia das políticas públicas da saúde que estão sendo adotadas agora em todos os níveis de governo do país, me parecem, pelo que leio, estarem amparadas em práticas bem-sucedidas e recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com exceção da testagem das pessoas que podem estar contaminadas (o que está acontecendo somente no Estado de São Paulo). Na verdade, a OMS recomenda o maior número de testagens possíveis para que o isolamento das pessoas dê certo, mas, ao que parece, não teríamos kits de testes suficientes aqui no Brasil para isso.
O que me preocupa nesses dias, porém, são os impactos sociais e familiares do vírus. Se considerarmos as duas principais características afetivas do povo brasileiro: (1) gostar de estar em grupo; e (2) gostar de demonstrar ostensivamente o afeto; de fato teremos um problema social nos próximos dias.
As principais medidas adotadas para a população em geral é a de afastamento do contato público por meio de cancelamento de reuniões, aglomerações, aulas, eventos, praias e esportes. E você deve estar-se perguntando: será que conseguiremos? Se sim, será que teremos uma população adoentada psiquicamente ao final de tudo isso? Tirando o que nos une como povo e como nação será que sobreviveremos?
O viver em sociedade nos ensinou a compartilhar espaços públicos, a dividir opiniões e organizar as divergências por meio do debate. O agir em sociedade por meio do debate – nas palavras do filósofo alemão, Jurgen Habermas, por meio do agir comunicativo – nos permitiu até aqui ser uma sociedade que apesar de todas as dificuldades mantém-se em uma estabilidade relativa baseada numa enorme solidariedade coletiva.
O nosso agir comunicativo é pautado na solidariedade, de modo que tanto o agir como a comunicação dependem da solidariedade que é o sentir-se no lugar do outro (o que vai além do colocar-se no lugar do outro). Essa medida de empatia que nos sobra no Brasil parece-me que está em risco nos países por onde o coronavírus já passou de forma mais avassaladora.
Vemos nas imagens que nos chegam, pessoas desesperadas comprando e estocando bens para o seu uso próprio na Europa e nos Estados Unidos, com um apelo das autoridades para que os consumidores sejam conscientes e pensem nos outros que precisam dos mesmos produtos.
Será que essa ideia que temos de que o povo brasileiro é solidário irá se provar verdadeira quando a crise apertar por aqui? Essa é a verdadeira reflexão que se deve fazer neste momento. Será que somos realmente solidários ou, no fundo no fundo, somos egoístas como todos os outros seres humanos do planeta e vamos simplesmente fazer o que é melhor para cada um individualmente?
Essa crise vai ser uma prova final para a sociedade brasileira mostrar a sua verdadeira face.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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