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Pandemia

Nossas escolhas dizem um pouco sobre nós durante os dias da quarentena

Espero que aqueles que dizem que sairemos melhores desta história tenham razão. E, tanto quanto possível, que todos fiquem em casa

Públicado em 

29 mar 2020 às 05:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Mulher olhando pela janela: nova rotina com coronavírus e isolamento
Mulher olhando pela janela: nova rotina com coronavírus e isolamento Crédito: Alexandre Chambon/Unsplash
Terminei meu texto da semana passada dizendo que pandemias podem aflorar o pior e o melhor de cada um e que cabe a nós escolhermos o lado em que desejamos estar. Os primeiros dias da quarentena forçada pelo coronavírus evidenciaram as cercanias que se colocam.
Fomos nos ajeitando, de um jeito ou de outro, dependendo de quem somos, de como vivemos, para onde vamos e do que desejamos para nós e para o mundo.
Como numa guerra, nos dividimos entre despreocupados e zelosos, céticos e amedrontados, individualistas e generosos. Escolhemos o que postar e quanto comprar de papel higiênico. Escolhemos quais cuidados são possíveis dedicar a nós mesmos e aos que nos são queridos, mesmo que a distância. Escolhemos sobre defender a gravidade do momento ou minimizá-lo.
Cada escolha diz um pouco a nosso respeito e ao modo como tentamos nos virar diante do caos.
Falo de opções, é bom deixar claro, não de obrigações e necessidades - não dos que não podem se dar ao luxo de trabalhar em casa, dos guerreiros que atuam nos hospitais, no recolhimento de lixo e outros serviços essenciais, nas farmácias, supermercados, restaurantes e entregas. Falo de opções, não de obrigações e necessidades.
Falo de quem pode escolher entre ficar em casa e sair, entre valorizar um pequeno negócio ou uma grande rede, entre abarrotar a dispensa ou abastecer a casa com o que é de fato necessário.
Falo de quem pode escolher entre compartilhar notícias de fontes não comprovadas ou passar pra frente apenas as que tivemos tempo de conferir. Falo de quem, mesmo fora dos grupos de risco, age em prol dos mais suscetíveis.
Um vírus que nasceu do outro lado do mundo e em tão pouco tempo alcançou quase todas as nações tem dado recados importantes. Que a tecnologia que tanto nos polariza nasceu para encurtar distâncias, não o contrário. Que solidariedade e empatia são valores bonitos de falar, mas difíceis de pôr em prática.
Que pandemias são sobre doenças, mas também sobre como lidamos com a escassez, as ausências e a solidão. Que a diversidade das pessoas é uma coisa maravilhosa, mas, não, não dá pra dizer que quem depende do SUS e quem se trata no Albert Einstein estão no mesmo barco "porque o coronavírus não escolhe suas vítimas".
[Por favor, apenas parem].
Espero que aqueles que dizem que sairemos melhores desta história tenham razão. E, tanto quanto possível, que todos fiquem em casa.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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