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Sextas Crônicas

A sede que o reel não mata

O livro virou o novo símbolo de status. Até a linda da Dua Lipa tem um clube do livro para chamar de seu, estruturadíssimo, por sinal

Publicado em 15 de Maio de 2026 às 04:00

Públicado em 

15 mai 2026 às 04:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Não é só comigo, tenho certeza. Ler um livro até o final ficou difícil. Na era da informação rápida, sustentar a atenção na leitura exige disciplina. Eu, que vivo de palavras, acordei outro dia percebendo que não terminei um livro inteiro nos últimos dois meses. 


De alguns li fragmentos, de outros salvei citações.  Sempre leio dois ou três livros ao mesmo tempo e chegar ao final de cada um é uma sensação deliciosa. A página seguinte é o que sustenta minha curiosidade para continuar.

 

Sou consumidora de livros, gosto da companhia deles. Amo a presença física do livro. Cheiro, capas, cores, tudo atende e sofistica meu sentir. Nas estantes da casa, tenho vários que não abri ainda, mas sei que eles estão ali, me esperando. Nunca havia deixado a fila ficar tão longa.

Paixão por livros
Paixão por livros Pixabay

Incomodada que estava, separei um tempinho para ler logo pela manhã. Achei que criar o hábito da leitura matinal poderia ser um bom começo para resgatar minha imersão nos livros. 


Dividi o assunto com alguns amigos e chegamos a conclusões parecidas. Basicamente admitimos que estamos todos sendo sugados pelo modo de velocidade dobrada das coisas, que as redes sociais e a inteligência artificial estão retirando de nós o tempo humano de fazer e de sentir.  


Qual não foi minha surpresa ao descobrir uma tendência que vai na contramão desse “desletramento” acelerado. Justamente a inteligência artificial, sigo apaixonada pelo Claude, apesar dos riscos, apontou uma luz no fim do túnel. O brasileiro passa em média quatro horas por dia nas redes sociais e está à procura de conteúdo denso. Nunca buscou tanto por Nietzsche, Clarice e Spinoza, por exemplo.

 

Construir repertório virou tendência. A sombra coletiva, da qual Jung falava, cresceu. Décadas de entretenimento raso foram empurrando para o subterrâneo uma fome legítima de saber. E o que se reprime com força suficiente volta com força dobrada. Tudo que uma cultura reprime não desaparece, migra. Pode até voltar  em formato de reel, mas volta.

 


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As marcas de luxo entenderam rapidamente isso e, de dois anos para cá, dezenas estão criando seus clubes de leitura, atuando como catalisadores culturais. Quando o luxo aposta em livros, não está sendo generoso. Está sendo preciso: o livro virou o novo símbolo de status. Até a linda da Dua Lipa tem um clube do livro para chamar de seu, estruturadíssimo, por sinal.

 

Não é apenas a elite que está redescobrindo os livros. Existem novos sujeitos culturais chegando pela primeira vez a uma conversa que sempre existiu sem eles. Essa turma está chegando pelo BookTok, pelas bibliotecas comunitárias, pelas Fábricas de Cultura nas periferias. Como diria Manoel de Barros, liberdade caça jeito. Que sejam bem-vindos os novos leitores.

 

A fome de profundidade existe em todas as classes. Do BookTok ao Miu Miu Literally Club, as notícias são boas. O brasileiro não virou filósofo. Mas ficou com fome de ser. E eu, por aqui, estou reconquistando o ritmo de quem lê de verdade. Uma página de cada vez.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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