Saramago escreveu, em "O Conto da Ilha Desconhecida", que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não sairmos de nós.
A astronauta Christina Koch foi ver o outro lado da ilha, seu barco era uma cápsula espacial chamada Orion, parte da espaçonave Integridade. Orion, na mitologia grega, era um gigante caçador, que foi colocado nos céus por Zeus, após ter sido picado por um escorpião.
Virou a constelação mais brilhante. No seu cinturão de caçador, estão três estrelas que a Terra toda consegue ver: as Três Marias.
Foi nessa caça às estrelas que quatro corpos humanos flutuando dentro da Orion, a quatrocentos mil quilômetros de casa, que a astronauta, a primeira mulher rumo à Lua, viu que nosso planeta é um ponto azul suspenso no preto absoluto. Nesse momento, a Terra inteira cabia em uma pequena janela.
Não havia horizonte. Não havia chão. Havia somente aquele ponto de luz viva, cercado pelo silêncio escuro. Segundo Christina, “a Terra era apenas um bote salva-vidas pendurado, imperturbavelmente, no universo". São muitas as metáforas, vou pedir a você, leitor, que respire profundamente e entregue-se a sensação de estar em um bote salva-vidas.
Desde a década de 60, astronautas, esses seres teoricamente de exatas, produzem poesia e inspiram a humanidade contando o que viram e o que sentiram no mistério do espaço sideral. Yuri Gagarin voltou do primeiro voo espacial da história e disse apenas: “A Terra é azul.” Essa frase continua pairando no nosso imaginário. Todas as artes já se inspiraram nesse assombro do astronauta.
A curiosidade me levou a uma rápida pesquisa dos depoimentos dos astronautas após missões espaciais. Edgar Mitchell, por exemplo, desceu da Lua na Apollo 14, certo da unidade da humanidade: “Vi que estamos todos conectados”, disse. Intelectualmente, ele sabia que as moléculas do nosso corpo são forjadas em estrelas extintas. Mas foi preciso sair da órbita para sentir isso na pele. Fomos à Lua como técnicos e voltamos como humanistas, resumiu.
A origem interdependente de todas as coisas prova que nenhum fenômeno existe por si só. A Terra vista do espaço não é uma metáfora desse conceito. É uma prova visual. Alguma mudança cognitiva ocorre quando um ser humano vê o planeta inteiro de uma vez, sem fronteiras, sem divisões, sem a ilusão de que somos separados. Do espaço, ou quanto mais elevados estamos, menos sentido fazem as fronteiras e as divisões políticas e raciais.
A missão Artemis II foi longe o suficiente para que a Terra parasse de ser paisagem e virasse conceito. Christina Koch disse uma última coisa sobre a jornada que vale muito registrar: “Uma tripulação é um grupo que está nisso o tempo todo, não importa o quê, que rema junto a cada minuto com o mesmo propósito, que está disposto a se sacrificar silenciosamente pelos outros, que concede graça, que responsabiliza. Uma tripulação é inescapavelmente, lindamente, devotamente ligada. Planeta Terra: você é uma tripulação.”
Saramago tinha razão. É preciso sair da ilha para ver a ilha. Christina Koch saiu. Quatrocentos mil quilômetros é tomar bastante distância. Ela voltou sabendo, como todos os que foram longe o suficiente para ver, que a Terra não é onde vivemos. É quem somos.