É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

A treta do ano: por que um aperto de mãos entre Manuela e Cíntia incomoda tanto

Duas mulheres de grande visibilidade decidiram que a voz uma da outra importa o suficiente para ser impressa em papel, independentemente do ruído das notificações digitais

Vitória
Publicado em 20/03/2026 às 04h30

A Terra não é redonda à toa. O universo ama curvas. E a Terra gira, como uma mulher que dança. O mundo digital, cada vez menos fluido em sua geometria de ângulos retos e muros altos, não costuma perdoar a curva.

Há alguns meses, assisti à jornalista Julia Duailibi mediar o que eu pensei que seria um embate meio BBB: Manuela d’Ávila e Cintia Chagas frente a frente. Para mim, já estava escrito que seria uma treta gigantesca entre uma progressista e uma conservadora. Até hoje, me questiono por imaginar que eu veria algo diferente do que vi: um debate de alto nível entre duas pessoas com opiniões divergentes sobre muitos assuntos e convergentes sobre outros.

Durante a entrevista, percebi como o binarismo, pautado principalmente por algoritmos, pode nos capturar e nos emaranhar em uma rede de equívocos. Desliguei a TV, sentindo orgulho daquelas duas mulheres, na verdade, das mulheres em geral. Achei chiquíssimo.

 Manuela d’Ávila e Cintia Chagas em debate na GloboNews
Manuela d’Ávila e Cintia Chagas em debate na GloboNews. Crédito: GloboNews/Reprodução

Considerei meu constrangimento pelo pré-julgamento que fiz como espaço para evoluir. Afinal, se o universo está em expansão, por que minha consciência não estaria? Aquela não foi a treta do ano; pelo contrário, foi uma belíssima lição de convergência humana. Somos feitos para isso, mesmo que os algoritmos digam o contrário.

Esta semana, caiu nas redes antissociais a bombástica notícia do lançamento do livro, escrito a quatro mãos, que uniu Cíntia e Manuela, duas mulheres dispostas a combater a violência contra as mulheres. A reação foi imediata e, curiosamente, partiu com uma ferocidade singular de outras mulheres.

O ódio destilado nos comentários não pedia coerência, pedia sangue. Os adjetivos mais leves foram: "traidoras", "oportunistas". É melancólico observar como a imagem de duas mulheres sentadas à mesa, trocando ideias em vez de farpas, desperta uma fúria que o descaso político com as questões femininas raramente alcança.

Um aperto de mãos entre Manuela e Cíntia incomoda porque abre um buraco no muro do maniqueísmo. Quando duas figuras que o público decidiu que deveriam ser arqui-inimigas escolhem a coautoria, elas denunciam a fragilidade das nossas próprias bolhas. É inacreditável que mulheres estejam tão furiosas e cegas que nem sequer queiram sair deste pote de fel que é o ódio contra mulheres.

Duas mulheres de grande visibilidade decidiram que a voz uma da outra importa o suficiente para ser impressa em papel, independentemente do ruído das notificações digitais. São corajosas em um cenário de muita covardia. Que “A Dor Comum: A Urgência que nos une” seja um sucesso, Cíntia e Manuela.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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