É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

Amores de carnaval: entre o silêncio e o samba

Não sei como está sua vibe carnavalesca, caro leitor, depois de um janeiro repleto de fantasias rasgadas e máscaras caídas, mas eu estou a um passo de optar pelo silêncio

Vitória
Publicado em 06/02/2026 às 02h00

Nos últimos anos, cresceu em mim a fantasia de um retiro no carnaval. Não de um retiro qualquer, mas daqueles em que cigarras e grilos sejam os cantores, lua e céu estrelado desfilem todas as noites e o silêncio seja rei. Detox total. Falatório, telas, WhatsApp, redes sociais, todos esses sequestradores da paz foram excluídos do meu sonho de carnaval, ou carnaval dos sonhos, que seja.

Foi planejando o carnaval deste ano que descobri que eu ainda estou apegada ao ilariê dos bloquinhos. Ah, os bloquinhos, quanta história boa existe neles. Para começar as fantasias improvisadas. Coisa mais linda é ver a criatividade dos foliões de bloquinho. Claro, que aqui estou me referindo aos blocos menores, livres da abaderização, que uniformiza os blocões. Essa ausência de romance e poesia que a fantasia carnavalesca nos traz.

Amores que nascem no meio de tanto riso, tanta alegria, são abençoados. Nascem assim, em um segundo. Numa troca de olhares na fila do bloco. O semiólogo francês Roland Barthes escreveu que o enamoramento é um “rapto”, um sequestro da razão pelo encantamento. No carnaval, esse rapto é facilitado, porque ali todos já estamos meio sequestrados, meio fora de nós, meio disponíveis para o acaso. Os solteiros, claro. Aqueles do bloco “Namoro, mas não caso”.

Carnaval 2025 - Bloco Regional da Nair anima multidão na Avenida Beira-Mar, no Centro de Vitória
Carnaval 2025 - Bloco Regional da Nair anima multidão na Avenida Beira-Mar, no Centro de Vitória . Crédito: Vitor Jubini

O corpo nos impele em direção ao objeto desejado sem pedir permissão à consciência. No carnaval, os tamborins batem na cadência do coração, como disse o gênio Paulinho da Viola. A inibição fica fora da festa e a vergonha toma um banho de purpurina e já nem sabe mais quem é. Até quem não procura acha. Tá todo mundo querendo tirar o outro da solidão, meu amor.

Contra os amores carnavalescos jogam as cinzas da quarta-feira. Mas quem disse que brasas da folia não duram? Amor de carnaval não precisa morrer na praia e pode subir a serra, sim. Verdade que muitos não chegam nem sequer à segunda-feira. São aqueles que existem apenas na suspensão das regras, na bolha mágica. São intensos justamente porque não cabem no mundo comum. São relâmpagos. Mas existe amor pós-glitter, garanto.

Não sei como está sua vibe carnavalesca, caro leitor, depois de um janeiro repleto de fantasias rasgadas e máscaras caídas, mas eu estou a um passo de optar pelo silêncio. Pensando aqui em realinhar os chakras, pedir férias ao Zuckerberg, que não remunera meu trabalho mesmo, e ficar no modo off folia.

Ai, sei lá. Acho que estou meio apaixonada pelo silêncio. Mas não sei se isso vai durar muito tempo. Veremos. Darei notícias.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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