Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

A tensa relação entre ciência, economia e fé em tempos de coronavírus

O vírus está exigindo que tomemos partido ou que acatemos decisões daqueles que tem por obrigação definir as politicas, as estratégias e os novos modos de viver e conviver nas cidades, no trabalho e nas casas

Publicado em 30/03/2020 às 05h00
Atualizado em 30/03/2020 às 05h01
Coronavírus - Covid19
Coronavírus - Covid19 . Crédito: Syaibatul Hamdi/Pixabay

A crise desencadeada pela ascensão do coronavírus ao status de estrela máxima internacional, presente em todos os noticiários do mundo, tem mantido cativos dos políticos das nações mais poderosas aos prefeitos das menores cidades, dos CEO das empresas mais lucrativas ao microempresário individual, das atrizes mais lindas e premiadas de Hollywood ao lanterninha do pequeno cinema da esquina, do papa em seu palácio ao pastor da menor igrejinha de um pequeno povoado, do homem branco de terno alinhado que transita pelas ruas imponentes de Nova York ou São Paulo ao morador de rua deitado nas calçadas e enrolado em caixas de papelão.

O certo é que o poderoso e imbatível coronavírus tem nos levado a conviver com uma permanente tensão entre ciência, economia e fé, exigindo, muitas vezes, que tomemos partido ou que acatemos decisões daqueles que tem por obrigação definir as politicas, as estratégias e os novos modos de viver e conviver nas cidades, no trabalho e nas casas.

Não havendo, por parte dos governantes, consenso, acordos ou pactos acerca dos fundamentos que sustentam suas decisões que, em tese, afetam a todos nós, ficamos perdidos sobre a quem devemos obedecer, a que líder devemos seguir e a que argumentos estamos submetidos ou devemos nos submeter.

Dos séculos de obscurantismo, no qual a humanidade viveu mergulhada nas trevas de uma religiosidade mediada não pelo verdadeiro Cristo, mas pelas instituições religiosas que ditavam a verdade a partir de seus próprios interesses, ao século das luzes, no qual a ciência enfrenta os dogmas da fé e afirma uma nova verdade, agora não mais baseada em um sistema de crenças de caráter dogmático, mas em uma verdade estabelecida a partir da submissão aos métodos científicos, com suas técnicas, sistematizações e experimentos, o certo é que nos acostumamos a ver na ciência a solução para a maioria de nossos problemas.

O confronto entre ciência e fé, que levou muitos à fogueira e à guilhotina, na Idade Média, nos tempos da Inquisição, retorna agora, nas quadras da Covid-19, mediado pelos poderes econômicos que se utilizam, seja de uma, seja de outra, para criar novas e perversas verdades capazes de lhes auferir e garantir ainda mais lucros, mesmo que seja às custas de milhares de vidas, às quais pouco valor parecem dar.

Em tempos de coronavírus, uma pandemia de dimensão incalculável, capaz de nos levar, talvez, à maior morbimortalidade que o mundo já vivenciou, bem como de depressão econômica, politica e social, não pode haver dúvidas sobre as verdades que devem nortear as decisões tomadas nos gabinetes daqueles que governam a nação.

As ciências da Saúde, a Medicina, a Enfermagem, a Saúde Coletiva, a Epidemiologia, a Infectologia e tantas outras, como as ciências básicas experimentais, por exemplo, a Química e a Biologia devem ser as grandes protagonistas desse momento histórico, no que respeita à tomada de decisões políticas.

A ciência econômica, de relevância indiscutível, precisa considerar o momento especial no qual o mais importante é a vida humana, devendo a ela tudo se submeter.

Decisões políticas baseadas em evidencias científicas estão sendo assumidas por líderes de todo o mundo. Não podemos, de forma isolada, irresponsável e criminosa, decidir sobre a vida das pessoas tomando por base falsos sistemas de crença e de ideologias neoliberais mais interessadas na garantia da sobrevivência econômica do que na sobrevivência humana.

A ciência já confirmou o que alguns ainda teimam em não aceitar. A covid–19 não é uma “gripezinha” que pode ser desafiada pelos jovens, pelos atletas, pelos políticos ou por qualquer pessoa que se sinta, de alguma forma, detentora de poderes especiais, sejam eles econômicos, sejam advindos dos cargos que ocupam, sejam das classe sociais e culturais às quais pertencem.

A “gripezinha” se espalha e mata, desafiando a todos com sua virulência, rapidez de disseminação, dificuldade de controle e por todos os mecanismos ainda obscuros que utiliza para nos manter impotentes, incapazes de enfrentá-la no tempo necessário, de forma a nos livrarmos das consequências de seu ataque.

Não estamos lidando com um inimigo que conhecemos e a quem podemos enfrentar com as armas e os remédios que já temos. Ao tempo em que buscamos nos prevenir, fugindo de seu envolvente enlace, precisamos construir as armas para definitivamente sermos capazes de um confronto que não nos abata no primeiro encontro.

Devem estar o Estado e seus governantes submetidos à ciência, fundamento que nos une a todos, verdades construídas não de forma neutra, porque a neutralidade é, em si mesma, um mito.

A ciência, alicerce à priori de todas as decisões políticas, deve estar, de forma sustentável e racional, baseada nas melhores evidências.

As instituições de ensino e pesquisa, com seus cientistas e educadores, precisam ser chamadas à mesa daqueles que tomam as decisões por todos nós. Não podem ser eles desvalorizados e desrespeitados em tempos de paz e chamados a se posicionarem apenas diante de crises como a que vivemos hoje.

A economia deve, agora, preocupar-se em encontrar os mecanismos de distribuir riquezas de forma a que todos possamos sobreviver, ricos e pobres.

A fé, elemento indispensável para os que creem, pode ser a esperança do futuro que hoje nos parece tão incerto. Que a esperança de um mundo para além deste possa comprometer a todos com o aqui e agora, onde vivem, convivem, trabalham e amam os seus semelhantes . O que não pode é, em um Estado laico, a fé de uns sobrepor-se à de outros, impondo riscos à vida e à saúde de todos.

O que não pode é, em um Estado Democrático de Direito , os interesses econômicos de uns se sobreporem aos limites éticos e morais sobre os quais estão assentadas a dignidade e a vida das pessoas.

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