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Pandemia

Que o coronavírus sirva de exemplo para a defesa do SUS

Em crises como esta, a solução nunca virá do mercado. É o Estado que precisará se colocar na defesa da vida e das pessoas

Publicado em 16 de Março de 2020 às 08:32

Públicado em 

16 mar 2020 às 08:32
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Médico com placa do coronavírus alerta para a doença Crédito: Freepik
O medo tomou conta de todos nós. Há um sentimento de pânico pairando sobre todos diante da avalanche de notícias muitas vezes repetitivas, mas que inundam todos os meios de comunicação e as redes sociais de forma a nos manter cativos de expectativas quanto a novas medidas adotadas, seja por governos, seja por instituições.
O certo é que muito pouco se sabe sobre o coronavírus e seu comportamento, a não ser que ele se propaga de forma vigorosa, deixando atônitos e confusos todos aqueles que têm de tomar decisões de forma rápida, muitas vezes sem terem os elementos necessários, considerando os possíveis impactos na vida de tantas pessoas.
Colocam-se aqueles que decidem em uma vitrine, sempre sujeitos a críticas, considerando a possibilidade de erros de avaliação na tomada de decisões. Neste momento, estão todos confusos e, de uma certa forma, perdidos diante do caos que se apresenta inevitável.
Negar a gravidade da situação, minimizando o problema e afirmando que a gripe e outras doenças matam mais do que o coronavirus, é um demonstrativo de ignorância e falta de avaliação da conjuntura, que não é dada a gestores e a pessoas públicas com responsabilidades que se estendem a outros. Reconsiderar e assumir os equívocos avaliativos é condição imposta a pessoas que se imaginam formadoras de opinião.
Estamos vivendo uma pandemia de proporção incalculável. Ela atinge a todos nós de maneiras diferentes. A prudência em evitar medidas heroicas, em momentos de crise, deve ser valorizada. O que não podemos é, sabendo que medidas radicais e duras precisam ser tomadas, não agir no tempo correto, seja por medo das consequências econômicas, seja por medo dos enfrentamentos políticos e jurídicos.
Medidas de restrição de Direitos Fundamentais, como proibição de livre circulação, isolamento não voluntário, entre outras, devem ser tomadas com urgência, considerando, claro, os limites da lei e da prudência. Os impactos econômicos e políticos de tais medidas, não podem ser os balizadores das decisões.
O isolamento social, condição humana desaconselhada no cotidiano, deve ser considerado diante da crise que vivemos. O distanciamento social, como medida de contenção de propagação do vírus, precisa ser assumido como necessário e urgente. A mudança de hábitos, defendida sempre como difícil e demorada de ser incorporada deve ser radicalizada neste momento, no qual a vida das pessoas se encontra em risco.
A crise econômica não pode ser justificada pela pandemia que só agora é declarada. A destruição da economia brasileira já vinha sendo articulada em nome de um ultraliberalismo destruidor do Estado em defesa de um crescimento econômico que não veio e nem virá. As articulações políticas feitas no Congresso Nacional para a continuidade da destruição dos Direitos Sociais continuam enquanto nos quedamos perdidos e angustiados com o coronavírus.
Não radicalizar agora, com base em preocupações de natureza econômica, pode significar a perda do controle sobre o vírus e a desvalorização da vida humana em detrimento de valores éticos que devem estar acima de quaisquer outros interesses de grupos ou instituições.
Tomar medidas conservadoras, considerando a baixa letalidade do vírus, é esquecer que cada vida é única para aquela pessoa e para aqueles que a amam. Desprezar uma vida é desconsiderar a responsabilidade do Estado com o cidadão e seu Direito à vida e à dignidade.
Estamos vivendo um momento único que não se compara a nenhuma outro na história humana, ainda que já tenhamos passado por crises graves e epidemias com proporções consideráveis. A história é rica de exemplos de pestes e enfrentamentos que colocaram a humanidade em risco. Entretanto, essa pandemia nos coloca em uma encruzilhada que precisa ser avaliada com racionalidade e cientificidade.
Talvez agora sintamos na pele os efeitos de um neoliberalismo ampliador de desigualdades sociais e concentrador de rendas, direcionado a redução e ao apagamento do Estado, com destruição das Políticas públicas de universalização de Direitos sociais.
Em crises como esta, a solução nunca virá do Mercado. É o Estado que precisará se colocar na defesa da vida e das pessoas. Um Estado fragilizado não terá as condições para tal.
Que a lembrança do caso do hospital privado de Brasília no qual uma cliente de plano de saúde foi encaminhada para um hospital público, por suposta falta de condições de atendimento para o coronavírus, nos sirva de reflexão. Que nos coloquemos todos em defesa do SUS e contra a sua entrega nas mãos do Mercado. Que seja esse o nosso ganho nessa tragédia que se abateu sobre nós.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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