Em tempos de pandemia, cinéfilos lembraram-se de alguns filmes como “Vírus Fatal” (2006), “Epidemia” (1995), “Contágio” (2011) e “Vírus” (2009), cujos títulos deixam bem claro do que se trata.
Pra mim, porém, vieram à mente dois outros filmes, também fatalistas, mas por razões ligeiramente distintas. São os filmes de ficção científica “Matrix” (1999) e “Substitutos” (2009), o primeiro bem mais famoso e estrelado por Keanu e Laurence Fishburne, enquanto que o segundo tem como atores protagonistas Bruce Willis e Rosamund Pike, que, mesmo com abordagem e roteiros distintos, tratam da mesma coisa: seria possível um mundo no qual as máquinas tomassem o lugar dos homens? Ou então, caso seja possível, seria isso bom ou ruim para o ser humano? Afinal, desde a mecanização proporcionada pela Revolução Industrial, temos tido o auxílio das máquinas para a facilitação da nossa vida diária.
De modo geral, todos os filmes deste gênero colocam a iminência da catástrofe no colo do homem, isto é, foi ele, com sua ganância, irresponsabilidade ou até ingenuidade quem provocou o colapso que quase pôs a fim a vida humana na terra. E aí, no limiar da hecatombe, do apocalipse, pelo menos na ficção, por meio de um herói salvador, conseguimos recuperar nossa humanidade e a esperança de que tudo voltará ao normal.
Mas os heróis são humanos, e, portanto, podem também falhar.
Passado a pandemia, ou pandemônio, após ficarmos em quarentena, trancafiados em casa, nos comunicando à distância, resolvendo tudo por videoconferência, estaremos acostumados a manter a distância uns dos outros, nos comunicando apenas através de uma tela, tal como os adolescentes já fazem cotidianamente em jogos on-line, e tudo isso sem necessidade de pôr os pés no chão da rua.
Esse é um processo que já vem ocorrendo, afinal cada vez mais usamos aplicativos para pedir comida remotamente, ou seja, o processo de isolamento está em curso, provocando o fechamento de vários restaurantes pequenos, ao mesmo tempo que tem proporcionado a abertura de restaurantes virtuais (sem espaço físico para clientes) e o crescimento no número de motoristas de entrega de comidas.
O fato é que, por meio de máquinas, robôs, aplicativos, algoritmos, vamos resolvendo nossas vidas e nos afastando do contato físico entre pessoas. E agora mais ainda, graças ao coronavírus...
Em “Matrix”, uma única máquina cria um mundo virtual no qual nós humanos, conectados a ela, vivemos uma vida de eterna felicidade. Por que então Morpheus tenta convencer Neo que a realidade, nua, crua e dura, é melhor do que a sensação de prazer proporcionado pela Matrix?
Pra que enfrentar a insegurança das ruas se podemos nos divertir em casa? Afinal, estamos conectados uns aos outros!
E se antes a insegurança, principalmente nas cidades brasileiras, se devia aos assaltos, acidentes de trânsito etc, a tudo isso se soma agora a covid-19.
Em “Substitutos”, a coisa é mais direta: no futuro contaremos com robôs à imagem e semelhança de cada ser humano, porém, na sua versão mais jovem, quando gozava de plena saúde e energia para viver a vida plenamente. Como se sabe, a customização de máquinas já é mesmo uma realidade. No filme, serão os robôs, coordenados à distância por cada indivíduo dono dele, seu avatar, quem estarão nas ruas vivendo nossas vidas, enquanto nós estaremos monitorando as suas experiências (ou seriam as nossas experiências?) em segurança, no abrigo da nossa casa.
É claro que numa crise inédita como esta, o isolamento é a medida mais acertada, tal como já estamos todos cientes. Resta aguardar, porém, como ficará nossa humanidade depois de tudo isso.