Em 1806, quando Napoleão Bonaparte entrou na cidade de Jena à frente do exército francês, comandando-o pessoalmente na Guerra contra a Prússia, ele foi visto bem de perto pelo filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel, que lecionava na Universidade de Jena naquela época.
Hegel ficou tão impressionado com a figura de Napoleão, que logo em seguida escreveu uma carta ao seu amigo Franken Friedrich Immanuel Niethammer, carta que ficou super conhecida na história da filosofia, porque retrata o espírito de uma época (Zeitgeist). Por estarmos vendo um novo espírito do tempo e vivendo um momento único de mudança da nossa forma de vida no planeta é que escrevo hoje esta coluna.
"Se cada um de nós fizer uma reflexão e aceitar a mudança de paradigma que estamos vivenciando, adequando-se desde já à nova era, os efeitos sociais, psicológicos e políticos desta crise poderão ser mais positivos no futuro"
Os relatos daquela época e a própria carta de Hegel ao seu amigo Niethammer relatam que Napoleão não era tão famoso ainda fora da França, mas que Hegel o observando naquele momento, montado em seu cavalo e inspecionando o lugar da batalha que venceria de lavada nos dias seguintes, tinha a postura daquele homem que já sabia que em breve mudaria o curso da história.
Ou seja, o mais marcante para Hegel é que contrariamente à maioria das pessoas que sequer percebem o acontecer da história, Napoleão Bonaparte não só percebia o curso da história ao mesmo tempo em que ela acontecia, como também tinha consciência da sua importância na mudança da vida social, política e de tudo mais que seria a Europa do Século XIX.
O mais interessante dos relatos e dos estudos que foram feitos a partir desta constatação de Hegel, atrelada ao seu livro, então recém-publicado, “A Fenomelogia do Espírito” (Phänomenologie des Geistes, 1806, 1ª Edição), é que naquele momento Hegel viu que Napoleão entendia perfeitamente que ele era o espírito do mundo, ou seja, que ele – um único homem – mudava sozinho o curso da história. Para Hegel, o espírito do mundo (Weltgeist) é alguém que irá marcar o espírito de uma época (Zeitgeist).
Da mesma forma que Napoleão marcou uma época, modificando-a definitivamente, a crise que estamos vivendo atualmente, com o espalhamento do coronavírus a partir da China para todo o planeta, tem também o condão de modificar toda a história do mundo. A vida social, psicológica, financeira, política e científica será alterada de uma forma que sequer se pode prever ainda. Todos os cientistas e filósofos são unânimes em dizer que teremos uma grande mudança, mas que não sabemos como ela será, que pouco sabemos sobre as consequências e efeitos colaterais deste vírus.
Assim, ao contrário de Napoleão e Hegel, que por sua genialidade, viam o acontecer da história no mesmo momento em que ela acontecia, hoje uma avançadíssima tecnologia de transmissão de informação, disponível à grande maioria da população humana por meio da internet, nos permite acompanhar o desenvolvimento dos fatos à medida que eles vão acontecendo em vários lugares do mundo.
Era de se esperar, portanto, nos dias atuais, que todos percebessem que a crise que vivemos é um divisor de águas, causado não só por um único homem, como aconteceu no passado (veja-se o exemplo de Sócrates, Jesus Cristo, Carlos Magno, Guttemberg, Martinho Lutero, Napoleão, Martin Luther King, Nelson Mandela, dentre outros que poderíamos indicar aqui), mas por um vírus, um ser irracional que se espalha sem sequer ser visto, não operando com a mesma lógica de outros vírus ou seres semelhantes.
O que importa nesta crise atual, portanto, não é a percepção que tem o causador da crise sobre o seu papel na história, mas a racionalidade nas reações humanas a essa pandemia, as reações das pessoas e dos entes políticos nacionais e mundiais à crise. Todo o agir, agora e no futuro próximo, terão consequências permanentes.
Por isso temos que agir e refletir coletiva e rapidamente a fim de responder a muitas perguntas ficam, para as quais ainda não temos respostas: por que, ao contrário de Hegel ou mesmo de Napoleão, o ser humano do nosso tempo tem dificuldade de perceber a grande mudança pela qual estamos passando? Por que as pessoas relutam em aceitar que ficar em casa nesse momento é a melhor saída para combater o vírus? Por que as pessoas estão mais preocupadas com o dinheiro que irão perder ou estão perdendo do que com as vidas humanas que serão perdidas? Por que dizem que é melhor perder algumas vidas do que perder investimentos financeiros?
Falta dentre nós um espírito napoleônico que consiga perceber que estamos prestes a mudar o curso da história, isso porque não podemos mais esperar de um só homem a liderança da humanidade nessa crise, mas sim de cada um de nós. Se cada um de nós fizer uma reflexão e aceitar a mudança de paradigma que estamos vivenciando, adequando-se desde já à nova era, os efeitos sociais, psicológicos e políticos desta crise poderão ser mais positivos no futuro.