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Pandemia

Divisões sociais ficam mais evidentes na crise do coronavírus

O que a religiosidade do povo brasileiro pode fazer, portanto, não é tentar se impor contra a ciência e sim espalhar a sua ética de amor ao próximo e solidariedade por todos e para todos

Públicado em 

01 abr 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Coronavírus - Covid19
Isolamento: a religiosidade que permeia a sociedade brasileira pode vir a demonstrar bons frutos por meio de uma rede de solidariedade Crédito: Gerd Altmann/Pixabay
De acordo com os estudos do Imperial London College, especificamente o Relatório 12 divulgado na última quinta-feira, dia 26 de março, a projeção de contaminação com o coronavírus na população brasileira pode ser comparada aos efeitos de uma grande guerra ou de uma catástrofe ambiental, ambas sem precedentes no Brasil.
A partir desses dados, mesmo se considerarmos aquelas opiniões que acreditam que eles podem estar superestimados, temos uma ideia de como serão os próximos dias no país. Todos os nossos vizinho latino-americanos já estão em sistema de quarentena ou lockdown (com proibição de circulação nas ruas), o que provavelmente deverá ser adotado por aqui também, em algum momento desta pandemia, e não o contrário.
Várias questões saltam aos olhos em meio a esse crise, muitas na área da saúde pública, da economia, mas principalmente as questões sociais e a gravidade do fato de vivermos em um mundo extremamente dividido entre pobres e ricos. Se analisarmos os impactos sociais do coronavírus, podemos tirar algumas conclusões sobre a perversidade da forma de viver em sociedade no mundo contemporâneo.
Primeiramente, vemos que o vírus infecta nações ricas e nações pobres, e, consequentemente, não faz distinção entre ricos e pobres. Todavia, nações ricas, se agirem de forma organizada e sabiamente, poderão lidar mais facilmente com a pandemia do que nações pobres.
Assim, seguindo essa linha de raciocínio, não podemos negar, que é mais fácil converter a produção industrial norte-americana para atender às demandas dos hospitais por respiradores e máscaras, do que converter a produção industrial brasileira para esses utensílios. Isso por diversas razões, mas por uma primordial: a de que as nossas indústrias são voltadas para a industrialização de bens sem grande complexidade, a maioria delas somente agrega valor a produtos de extração natural como aqueles produzidos por mineradoras, produtores de grãos e alimentos.
Somos grandes produtores de minério de ferro, suco de laranja, soja, carnes de boi e de frango, o que não nos ajudará na produção de ventiladores e máscaras que em breve faltarão para o atendimento das vítimas do coronavírus, tanto na rede particular de saúde como na rede pública de saúde (o SUS).
Além disso, a nossa força econômica está empregada, em sua maioria, no terceiro setor, ou seja, o setor do comércio, com trabalhadores formais e um enorme exército de reserva de mão de obra que se mantém ativo através do comércio informal de bens, numa rede mal organizada de prestadores de serviços sem carteira assinada.
Essas pessoas serão atendidas pela renda básica que acabou de ser aprovada pelo Congresso Nacional nesta segunda-feira, dia 30 de março, de R$ 600 por pessoa, podendo chegar até um mil e duzentos reais por domicílio. Mesmo assim, há dúvidas se os benefícios aprovados serão concedidos a todos que necessitam e se efetivamente serão suficientes para que a dignidade humana de todos os indivíduos no Brasil seja respeitada.
Se a situação é tão desoladora e mesmo as medidas financeiras não darão conta de aliviar a dor de milhares de brasileiros que perderão entes queridos para o coronavírus, indagamos, então, o que poderia ainda nos salvar nesse caos? Porque algumas pessoas ainda parecem tão confiantes?
Diferentemente de outras nações no mundo, a sociedade brasileira é permeada por uma religiosidade intrínseca, que se diferencia desde a sua fundação por meio de diversos cultos e religiosidades, chegando até mesmo, na atualidade, a incorporar religiosidades estranhas à nação brasileira, como a religião islâmica vindo da tradição dos migrantes e refugiados sírios aqui acolhidos, desde a Guerra na Síria que começou em 2011.
A religiosidade que permeia a sociedade brasileira pode vir a demonstrar bons frutos por meio de uma rede de solidariedade que eventualmente venha a se formar de forma mais forte, agora, em época de grave crise. Isso porque, eventuais dissidências religiosas podem ser superadas em nome de um valor maior representado por uma ética de amor ao próximo pregada por várias matrizes religiosas.
De acordo com Habermas, em seu novo livro "Auch eine Geschichte der Philosophie", a solidariedade inspirada nas tradições religiosas são um grande diferencial das sociedades contemporâneas. A professora da Universidade de Giessen, a filósofa alemã Regina Kreide, escrevendo sobre o novo livro de Habermas, no jornal Der Tagesspiegel, de 16 de novembro de 2019, chega mesmo a falar que este resíduo religioso da solidariedade social é o que mantém as sociedades unidas.
Para Habermas, segundo Kreide, as sociedades liberais contemporâneas dependem das religiões, por dois motivos: “Primeiro, ideias de liberdade, solidariedade e vida autônoma são um legado da justiça judaica e da ética do amor cristão. Segundo, as sociedades liberais confiam na solidariedade de seus membros, mas não podem criá-la.”
Entendemos que este entendimento de Habermas, se aplicado à sociedade brasileira, devido ao seu alto grau de miscigenação religiosa, pode impactar positivamente para a criação de uma rede de solidariedade que albergue as dores e as perdas que veremos no país nos próximos dias, fazendo com que as pessoas ajam de forma mais humana e menos egoísta do que as vistas em outros países, onde a religiosidade não é tão essencialmente cultivada como no Brasil.
Essa solidariedade que vem da ética do amor cristão, da justiça judaica, aparece também nas tradições religiosas e rituais dos povos tradicionais e da comunidade afrodescendente no Brasil, de modo que permeia todas as esferas da sociedade brasileira. Frise-se que para Habermas, esta religiosidade subjacente não invade os poderes estatais, o estado continua laico, o que ela inspira é o agir social. Nesses tempos de crise, o que a religiosidade do povo brasileiro pode fazer, portanto, não é tentar se impor contra a ciência, e sim, espalhar a sua ética de amor ao próximo e solidariedade por todos e para todos.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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