O novo coronavírus não é a única epidemia espalhada no solo brasileiro. Há outras. No campo comportamental, proliferam hostilidades. Intolerância. Uma delas, contra mulheres - uma barbaridade ainda vigorosa, infelizmente, em pleno século 21. Nada menos de 1.314 vítimas foram mortas no Brasil em 2019 apenas por serem mulher. Isso é monstruoso. Absolutamente inaceitável.
Outra forma de epidemia comportamental está revelada no relatório da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), divulgado há dois dias. Tratam-se das agressões à imprensa profissional: 11 mil ataques por dia - sim, por dia - nas redes sociais em 2019. A internet é um mundo ilimitado. Os 130 milhões de brasileiros com acesso ao Twitter (número que mostra a força desse canal de comunicação) produziram 6,2 bilhões de posts. Desse número, 39,2 milhões de posts citaram desfavoravelmente as palavras “mídia”, “imprensa”, “jornalista” e “jornalismo”.
É claro: nenhum jornalista, ou canal de comunicação, é intocável ou irrepreensível. Nem podem achar que são, em hipótese alguma. Cometem erros e equívocos. Muitos e frequentes. Também, não raramente, incomodam por divulgar o que muitos não desejam. Em situação de golpe, informações do interesse coletivo são amputadas, ou enterradas vivas.
Felizmente, há democracia no Brasil para dar suporte aos debates, esgrimas verbais, protestos, manifestações públicas etc. O tempo da repressão já passou e não deixou saudade. Mas vamos combinar: 11 mil ataques por dia é um ritmo ultrafrenético.
Ainda segundo a pesquisa, desse conjunto, 3,2 milhões (10%) de publicações surgiram em sites ditos conservadores e continham palavras de baixo calão ou citações visando a descreditar, ou desqualificar, o trabalho da imprensa. Foi a primeira vez que a Abert monitorou casos ocorridos em redes sociais - trabalho que produziu informações importantes.
Já um relatório feito pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) assinala que os ataques a jornalistas e veículos de comunicação cresceram 54% em 2019 no país. Foram 208 casos contra 135, em 2018. Certamente, influíram nesses números a polarização política vista hoje no país. Foi acentuada a partir das eleições do ano passado, não apenas em função da eleição de Bolsonaro, mas também refletida em ampla modificação nos quadros do Congresso.
Notadamente no Senado, onde das 54 cadeiras disputadas no pleito de outubro, 46 foram conquistadas por novos nomes, uma renovação de mais de 87%. Na Câmara dos Deputados, a taxa chegou a 52% dos parlamentares eleitos.
O objetivo de descredibilizar a imprensa, generalizadamente, pode servir a interesses escusos e é perigoso à democracia. O crescimento na educação é o caminho para que o debate civilizado entre contrários leve a soluções para problemas comuns a todos.