Domingo, após um tour por Brasília, Jair Bolsonaro, o presidente da República do Brasil, disse aos jornalistas no Palácio do Planalto o seguinte: “Tem mulher apanhando em casa. Por que isso? Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Como é que acaba com isso? Tem que trabalhar, meu Deus do céu. É crime trabalhar?”. De forma cínica, sinaliza que a mulher que apanha em razão da ausência de trabalho do homem não tem razão de reclamar e que só em situações de vulnerabilidade econômica é que acontece violência doméstica contra mulher. Nenhuma surpresa vinda de um representante que está em constante campanha eleitoral genocida, misógina e dissociada da ciência e do que a realidade mostra e recomenda.
Na mesma linha desgovernada do Palácio do Planalto, temos como principal programa, na atual crise mundial do coronavírus, do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos a campanha “Como aproveitar o isolamento para fortalecer os vínculos familiares”.
A ministra Damares nunca escondeu que manter a ideia de família unida e irrompível é o maior – e talvez único – objetivo da pasta que lidera, custe o que custar. Para o governo federal, não importa o custo para a vida das mulheres e das crianças submetidas às violências domésticas e familiares, desde que a ideia de família sólida seja mantida, ou ao menos a ideia dessa família perfeita.
Eu sempre questiono os nomes que são dados às coisas, pois eles são importantes para forjar a opinião pública e para esconder ou escancarar os problemas existentes. Quando o governo veicula uma campanha de fortalecimento de vínculos familiares, indica que as políticas públicas serão nesse sentido e somente nele. O direito das mulheres de viverem uma vida livre de violências não pautará o Ministério da Mulher, que vem junto com “Família” e não é por acaso.
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Aliás, acredito que nada seja por acaso. Nenhuma fala ou ação do atual governo é feita de inopino. Tudo faz parte de um jogo de ódio, desrespeito e violência. Posso atestar que sofri isso na pele no mesmo último domingo em que Jair Bolsonaro resolveu dar um rolezinho por Brasília: ao me manifestar em casa junto com outros vizinhos insatisfeitos com a política de morte do governo, um morador do prédio da frente se espelhou no Chefe do Executivo Nacional e gritou em direção à minha casa “Fora Bolsonaro é a sua mãe”.
A culpa é sempre da mãe, aquela que nosso leitor acusou de ser 1,99 e, pelo visto, deve ter resolvido sair de casa pra trabalhar no lugar de educar corretamente o meu vizinho e o presidente.