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Coronavírus

Bolsonaro segue falando muito sem dizer nada

Neste momento precisamos dos lideres políticos e da sociedade com observações inteligentes, respostas rápidas e sensibilidade humana e política

Publicado em 31 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

31 mar 2020 às 05:00
Paulo Brandão

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Paulo Brandão

Pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro em Rede Nacional de Rádio e Televisão
Pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro em Rede Nacional de Rádio e Televisão Crédito: Isac Nobrega
Se alguém disser que sua fala é sem nexo, que você não fala a verdade e suas palavras não condiz com a realidade, certamente você não vai concordar! Mas o autor de um pequeno livro com o titulo “On Bullshit”, o professor emérito de filosofia da Universidade de Princeton, Harry Frankfurt, fala sobre como nosso discurso pode esta carregado de merda. E o quanto isso é perigoso para todos nós. Com 72 paginas o livro foi traduzido para o Brasil há alguns anos, com o titulo “Sobre falar merda”.
Dado os discursos e atitudes de presidente Jair Bolsonaro, sua relação polarizada com os governadores e as consequências que trouxeram um claro retardo em tempos de pandemia, em ações que exigiam resposta rápida do poder público. Diante deste fato apresento a ideia principal do livro para contribuir com o debate. No entanto é preciso entender o que significa a expressão bullshit? A palavra bull significa touro e shit significa merda, bosta, cocô. Daí logo pensam em “cocô de vaca”. Mas como a língua é dinâmica não se pode tomar a palavra assim ao pé da letra.
O autor toma a expressão “bullshit” e faz uma reflexão bem interessante para os dias atuais. As primeiras palavras de Frankfurt são diretas: "Uma das características mais marcantes da nossa cultura é que há tanta (falação de) merda". E uma das questões centrais do livro é diferenciar entre "falar merda" e "mentir". Ele explica que o falador de merda quer apenas passar uma impressão diferente sobre si mesmo, não interessa se ela é falsa ou mentirosa. Está mais preocupado com sua imagem, cargo ou projeto de poder. O falador de merda não está nem aí para verdade e os fatos.
O mentiroso, porém, esconde fatos que conhece. Inventa deliberadamente sua história, mas respeita a verdade, mesmo fugindo dela. Justamente por conta do desrespeito pela verdade é que o falador de merda, para Frankfurt, é mais perigoso que aquele que mente. Tomo como exemplo a frase usada por Bolsonaro, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Ela é usada para encerrar seus inflamados discursos. Segundo a analise de Frankfurt, ao usar esta frase e tantas outras como o mesmo sentido, pode até não mentir, mas também não se importa com o que a plateia pensa sobre o seu país e o papel de Deus na história do Brasil. O foco é ele, “a opinião dos outros sobre ele é o que o preocupa. Ele quer ser considerado um patriota”, por isso é importante adotar a frase em questão.
Para que você vai mentir então? Ele responde: “Nunca conte uma mentira se você pode conseguir as coisas falando merda.” O ato de falar merda virou um risco embutido e tão rotineiro, e se difundiu mais ainda com as redes sociais e a polarização politica ideológica. E agora, com a pandemia, a ideologia que se sustenta na falação de besteiras, pela análise de Frankfurt, tem nos discursos e ações de nosso presidente, o seu líder maior. Com seus discursos inflamados, ele se tornou um dos maiores faladores de merda do Brasil. E, o pior, conseguiu milhões de seguidores, que andam por ai defendendo suas merdas.
Isso é tão evidente neste momento que se exigem dos lideres políticos e da sociedade, observações inteligentes, respostas rápidas e sensibilidade humana e política. Quando o drama humano de tamanha gravidade pede ações dignas de um estadista e chefe de Estado, para enfrentar casos como o da pandemia do coronavirus, o presidente, em seus discursos, dispara todos os dias um monte de merda. E ainda recebe apoio e aplausos de seus seguidores.
Frases como o Brasil deveria "voltar à normalidade" mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus. E “grande parte dos meios de comunicação foram na contramão. Espalharam exatamente a sensação de pavor”. “O vírus chegou, está sendo enfrentado por nós e brevemente passará”. E também, “o que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. Noventa por cento de nós não teremos qualquer manifestação, caso se contamine.” E, “no meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.
Para o filólogo Igor Sibaldi, todas estas frases falam muito sem dizer nada. Traz uma mensagem composta de palavras vazias ou termos excessivamente ambíguos e muitos são contraditórios entre si. Esta é a linguagem de todos aqueles que querem se destacar, mas não têm nada importante para contribuir com o mundo. É também a linguagem daqueles que querem exercer controle sem recorrer à razão ou ao entendimento.
Enquanto isso estamos em pleno avanço do coronavirus no Espirito Santo. O governador, como tantos outros, enfrenta na contramão dos faladores de merda o desafio de criar as condições na economia e na saúde, para enfrentar o pico da contaminação do vírus. Enganar, enrolar e falar merda é fácil; liderar é um desafio e exige acima de tudo responsabilidade e compromisso com todas os cidadãos e suas famílias.
E em tempos como este se faz necessário lideres comprometidos com a verdade e a vida das pessoas. Mas é preciso, acima de tudo, ter coragem e estar preparado para fazer escolhas difíceis. Todos nós, além de oração, temos que fazer a nossa parte e ajudar o nosso Estado e país a vencer esta pandemia. E não tem outra saída neste momento a não ser ficar em quarentena.

Paulo Brandão

É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

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