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Para não se arrepender depois

Sim, o Brasil precisa parar. Parar para, literalmente, respirar

Temos assistido a uma dicotomia entre “salvar a economia” ou “salvar mais vidas”, como se o governo brasileiro tivesse que escolher entre um ou outro. Nada mais enganoso. Essa dicotomia é falsa. E plantada

Publicado em 30 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

30 mar 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Acima, carreata na orla de Camburi, Vitória, pelo fim da quarentena; abaixo, comboio de caminhões do Exército da Itália conduz caixões com corpos de vítimas do Covid-19
Acima, carreata na orla de Camburi, Vitória, pelo fim da quarentena; abaixo, caixões com corpos de vítimas do Covid-19 são transportados por comboio de caminhões do Exército da Itália (país que subestimou o coronavírus) Crédito: Montagem: Vitor Vogas
Ah, mas e a economia? Pois é. Pelas redes sociais, sobretudo a partir do pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro na noite da última terça-feira (24), temos assistido a uma dicotomia entre “salvar a economia” ou “salvar mais vidas”, como se nós e, principalmente, o governo brasileiro tivéssemos que escolher entre um ou outro. Nada mais enganoso. Essa dicotomia é falsa.
O Estado brasileiro, ao qual pagamos os nossos impostos desde que nascemos, tem o dever constitucional de proteger a economia do país, os empregos, os negócios e a vida das pessoas. E é por isso que o governo Bolsonaro deveria fazer o que todas as maiores economias mundiais estão fazendo: promover a quarentena já na chegada do vírus, ou seja, agora, para minimizar as perdas humanas, enquanto adota providências e injeta dinheiro público, dos nossos impostos, para minimizar os impactos econômicos.
O que as pessoas precisam entender é que crise econômica vai haver de qualquer maneira. De qualquer maneira. E será uma crise profunda. Será dolorosa, em muitos aspectos. O governo, se atuar corretamente, poderá (e deverá) atenuar os impactos socioeconômicos, mas só até certo ponto.
Haverá demissões. Haverá empresas fechando. Haverá queda aguda do PIB. Só que empresas e empregos podem ser recuperados. Vidas, não. Empresas se reerguem do chão; corpos não se levantam do caixão. É mais fácil recuperar a economia do que ressuscitar pessoas, como bem assinalaram três cientistas políticos da UFPE em artigo da “Superinteressante”.
A gente tem um privilégio que outros países não tiveram. A gente ainda pode escolher entre:
a) fazer a quarentena agora e enfrentar uma crise econômica profunda, com o sistema de saúde operando no limite, mas ainda dando conta de atender os pacientes (salvando, assim, mais vidas);
b) ignorar a quarentena agora e lidar com uma crise econômica profunda de qualquer maneira daqui a poucas semanas, ao mesmo tempo em que lidamos com um sistema de saúde em colapso. E, se o sistema de saúde entrar em colapso, pode apostar, esta crise só tende a ser pior.
O que você escolhe?
A lição da Itália deveria nos ensinar alguma coisa. O prefeito de Milão acaba de pedir desculpas a seu povo por ter subestimado a gravidade desse vírus e demorado demais a decretar a quarentena.
Lá a ordem dos fatos foi:
1. Primeiro ignoraram geral os riscos do Covid-19 e seguiram o ritmo de vida normalmente.
2. De repente, boom! Todos os pacientes em estado grave foram parar nos hospitais ao mesmo tempo! Sistema de saúde em colapso. Idosos abandonados à morte. Médicos obrigados a "brincar de Deus", escolhendo quem vai sobreviver e quem vai morrer, com base em idade e chances de sobrevivência.
3. Em desespero, o governo cai em si e manda todo mundo entrar em quarentena, depois que o bicho já pegou. Mas ops, aí já é tarde.
4. Crise econômica acaba se abatendo de qualquer modo, em dimensão ainda maior.
Então, a crise econômica, infelizmente, é um fato dado: nós a teremos de qualquer maneira. E, talvez, sem precedentes.
Quanto à tão odiada quarentena, não se enganem: por mais perturbadora que seja, nós teremos que fazê-la em algum momento. Se não for agora, terá que ser depois (quando a propagação da doença no Brasil também tiver fugido do controle).
A única variável que a gente pode efetivamente mudar nessa equação agora é, precisamente, a mais importante de todas: o número de mortes.
Se aqueles que podem realmente fizerem o isolamento agora, este número será menor do que poderia ser.
É isso que está em jogo, gente. A prioridade, penso eu, deveria ser sempre a vida humana.
Não consigo conceber como é possível que alguém, principalmente autoridades, tenham concepção diferente. Além de doentio, chega a ser criminoso.

NA CONTRAMÃO DO MUNDO CIVILIZADO

E por isso o comportamento e as declarações do presidente Jair Bolsonaro têm sido absolutamente irresponsáveis, para dizer o mínimo. É "imprecionante", como diria Weintraub, ver que o nosso senhor presidente prefere seguir na contramão do mundo civilizado. Ainda mais "imprecionante" é ver um governante dar tanta desimportância ao fator que deveria ser prioritário neste momento. É bom lembrar que o presidente foi eleito para proteger a Constituição, o bem-estar e a vida das pessoas que o elegeram.
No entanto, Bolsonaro foi bem-sucedido. Essa dúvida plantada por ele colou. E eu mesmo tenho ouvido de conhecidos próximos coisas assim: “Ah, as pessoas morrem todo dia. A influenza matou tantos. A gripe suína matou tantos. A dengue mata tantos todo ano. O que não pode é parar a economia”. É um desprezo e uma banalização terríveis da vida humana.
Só me resta rogar a políticos, empresários, profissionais liberais e trabalhadores em geral que estão aderindo a essa campanha suicida: ponham a mão na consciência.

GUEDES PRECISA SAIR DA CAIXINHA

Aquela política econômica liberal de Paulo Guedes, de reformas, de cortes de gastos, de ajuste fiscal, de redução do papel do Estado e de não intervenção estatal na economia, essa política não serve para tempos de guerra. Não serve para tempos de crise econômica instaurada. Pode servir para evitar crises. E esta não veio por culpa do governo, mas o fato é que está instaurada. O governo tem que agir e gastar para proteger financeiramente os cidadãos, sobretudo os mais vulneráveis. O Estado precisa (re)agir. Já começou, mas ainda de forma lenta, tímida e, por vezes, confusa.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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