O padre Celso Pôrto Nogueira, da paróquia São Francisco de Assis, em Itapoã, fez no início da tarde deste domingo (29), em seu perfil no Facebook, um post com um alerta mais que urgente e um clamor derradeiro, quase em tom de desespero, aos membros da sua comunidade que estão se recusando a dar ouvidos às recomendações técnicas do Ministério da Saúde e da OMS de isolamento social neste momento por conta da expansão do coronavírus.
Na publicação, o religioso relata a ocorrência de aglomerações, na manhã deste domingo, pela orla de Vila Velha (que concentra bairros populosos, como Praia da Costa, Itaparica e Itapoã):
"Diante dos sinais contraditórios das autoridades, a orla de Vila Velha (epicentro do coronavírus no ES) está em pleno movimento. Aglomerações nas praias, nos restaurantes, idosos nas ruas, ninguém de máscara... Não contem comigo nessa brincadeira de roleta russa. Não contem comigo nesse ato de culto com sacrifícios humanos oferecidos ao deus Mammon."
Termo derivado da Bíblia Sagrada, Mammon é identificado como o deus do dinheiro e da cobiça.
Aos incautos fiés que insistem em ignorar os alertas das autoridades sanitárias sobre as formas de transmissão do coronavírus e a gravidade da pandemia mundial, o padre deixa um recado definitivo:
"Contem sim comigo (enquanto eu tiver vida e saúde) para dar os últimos sacramentos aos parentes agonizantes e mortos, que estão sendo infectados hoje de forma irresponsável e criminosa."
Em outras palavras, o padre se prepara para ter que ministrar em grande escala o sacramento da unção dos enfermos (também conhecido como unção dos mortos ou extrema-unção), um dos sete da religião católica.
Celso Pôrto Nogueira tem 50 anos e é titular da paróquia São Francisco de Assis, em Itapoã, há dois anos e meio. Confira, abaixo, a entrevista:
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O que o levou a fazer o post neste domingo?
Simplesmente a vista do que está acontecendo. Da varanda do meu prédio, em Itapoã, pude ver muitas pessoas na praia, como se fosse um domingo normal de sol, fazendo todo tipo de ação que contamina pelo coronavírus, como se a restrição à circulação pelas ruas tivesse acabado. Em Vila Velha, boa parte do comércio está praticamente reaberto, principalmente ontem, com um comício e tudo, uma carreata pedindo o fim do fechamento do comércio. Vi também algumas manifestações de evangélicos aqui na pracinha de Itapoã ontà noite.
O senhor abre seu post fazendo referência aos “sinais contraditórios das autoridades”. A quem se refere especificamente?
Não farei especificação, até porque as notícias estão aí na imprensa. Mas vejo, sim, que é uma coisa generalizada. Houve várias falas que depois se desfizeram. Então da parte do povo, da recepção que o povo teve, acabou ocorrendo essa confusão generalizada. No momento em que a fala não é uniforme e consistente, cada um toma a decisão que mais lhe favorece. É claro que o comerciante que precisa pagar suas contas vai compreender que pode então fazer aquilo que é melhor para o seu comércio. As pessoas estão estressadas dentro de casa, então é claro que vão entender: “Bom, então não é tão grave assim, então vamos sair às ruas e nos encontrar”. É até compreensível. Quando se tem várias ordens e contraordens, isso é um convite para que cada um faça o que quiser e siga a própria cabeça.
No fim da publicação, em seu trecho mais pungente, o senhor dá a entender que já está se preparando para ministrar o sacramento da unção dos enfermos em larga escala. É isso mesmo?
Sim. É lógico que isso vai ocorrer. No Brasil todo vão ocorrer milhares de mortes, principalmente de idosos. O Brasil não será exceção ao que está ocorrendo no mundo inteiro. E acredito que todos nós, padres, já estamos conscientes de que teremos que entrar em campo com essa missão, dentro daquilo que as autoridades sanitárias nos permitirem. Não sei se será permitido ao sacerdote realizar uma exéquia. Estou vendo que alguns países não estão permitindo velórios dos mortos por causa da restrição a aglomerações. Mas temos que estar preparados. Teremos que levar o sacerdócio àqueles que pedirem. Um padre não pode se furtar. Somos como uma equipe médica.