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Lidera ou delira?!?

Capitão Bolsonaro na guerra contra o coronavírus

Antes e depois de chegar ao posto, o presidente perdeu tanto tempo e energia a enfrentar inimigos imaginários que não se preocupou em preparar-se para enfrentar ameaças terrivelmente reais, como a pandemia do coronavírus. E não consegue nem sequer reconhecê-la

Publicado em 28 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

28 mar 2020 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Jair Messias Bolsonaro, capitão da reserva do Exército Brasileiro
Jair Messias Bolsonaro, capitão da reserva do Exército Brasileiro Crédito: Amarildo
O ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, no último dia 18, disse muito bem em coletiva de imprensa, acerca da difusão do coronavírus no Brasil: “Estamos diante de uma guerra”. Temos um oficial da reserva do Exército na Presidência da República. Mas o capitão não está pronto para essa guerra. Antes e depois de chegar ao posto de presidente, perdeu tanto tempo e energia a enfrentar moinhos de vento que não se preocupou em preparar-se para enfrentar ameaças reais*, como essa, terrivelmente verdadeira, da pandemia do coronavírus – invisível, mas não imaginária como a maioria dos inimigos que Bolsonaro sempre ocupou-se em combater**.
Apesar da patente militar, a prioridade do presidente sempre foi uma guerra de outra espécie: cultural, ideológica. Mas um país não se governa só fazendo-se embate ideológico. É preciso gerir, administrar. É preciso coordenar esforços. É preciso comunicar as ideias certas, da forma mais correta e clara possível. É preciso transmitir os exemplos adequados. Numa palavra, é preciso liderar. Bolsonaro, entretanto, desde que chegou à Presidência, exime-se de obrigações básicas do cargo. A maior delas, justamente: liderar de verdade o governo e o país.
Esta frase não contém uma crítica, mas mera constatação dos fatos: o presidente não é um líder de verdade. Não é, nunca foi nem dá mostras de que pode vir a ser, porquanto lhe faltem as qualidades, competências e habilidades primoridiais para o exercício da liderança: equilíbrio, sensatez, discernimento, serenidade, humildade, capacidade de diálogo, espírito público, conhecimento e sabedoria – acima de tudo, a sabedoria de admitir suas imperfeições e dar ouvidos a quem sabe muito mais que ele na respectiva área do saber. O capitão não cumpre tais pré-requisitos para, efetivamente, liderar. Tem um carisma monstruoso, é indiscutível. Lula também tem. Isso só não faz um líder, muito menos um bom governante. Faltam-lhe outros atributos.
O nosso presidente não é gestor. Não é administrador. Não é um coordenador de equipes. Não é um orador especialmente dotado. Não é um grande comunicador. Não se destaca particularmente por sua formação acadêmica nem por profundo conhecimento específico sobre alguma área – aliás, sempre que pode, reitera o seu desprezo pela academia, pela ciência, pela pesquisa, pela cultura, pelas artes e pelo pensamento crítico. De economia, assumidamente, nada entende. Qual é então, exatamente, a grande especialidade de Jair Bolsonaro, a grande qualificação técnica ou virtude que levaria você que me lê a contratá-lo para ser o CEO da sua empresa?
Ordem, alguém poderia citar. Disciplina, alguém poderia arriscar. Afinal, esses dois conceitos, comumente associados à instituição militar, ocuparam um lugar de destaque na plataforma de campanha do atual presidente em 2018. Ordem e disciplina levam à capacidade de planejamento e organização, algo bem-vindo em qualquer administração, na esfera pública ou privada. Mas, salvo por alguns oásis de excelência técnica e organização, também isso tem passado longe do governo Bolsonaro em geral. A própria gestão da crise presente, além de marcada por um ir e vir permanente, tem sido por demais politizada e ideologizada pelo próprio ocupante do Planalto***.
Em diversos setores estratégicos, onde as decisões deveriam ser regidas tão somente pela boa técnica, o governo está invadido pela ideologização e por uma balbúrdia encorajada pelo próprio Bolsonaro, que concede espaço demais a quem nem deveria influir em questões de Estado – a começar por sua prole. Em áreas como educação, cultura, meio ambiente, segurança, direitos humanos e diplomacia, nosso atual governo tem representado a aplicação pura do conceito da historiadora Barbara W. Tuchman: é a “marcha da insensatez”, ou, em alguns casos, da insanidade mesmo.
Só que essa marcha se dá entre acelerações e freadas bruscas, com o contínuo vaivém dos posicionamentos do presidente, em uma rotina de contradições que não condiz nem com a clareza esperada de um líder nem com a firmeza militar associada à mitologia construída em torno de sua figura: ora diz, institucionalmente, a coisa certa a se dizer naquele momento (tranquilizando as pessoas e o mercado); ora diz, espontaneamente, o que realmente pensa (e aí, via de regra, desencadeia incertezas e insegurança). O presidente sem filtros é certeza de novas e dispensáveis confusões.
O próprio mandatário dá reiteradas demonstrações de ou não ter noção do decoro e das funções institucionais inerentes a seu cargo ou de simplesmente fazer pouco caso delas. As grosserias gratuitas, os insultos distribuídos em série, os conflitos contraproducentes... tudo vai se empilhando ali no canto da sala. E uma obviedade se impõe: a inadequação do ocupante ao cargo, grande demais para ele.
Evidenciados a cada mês desde janeiro de 2019, a inaptidão do presidente para a Presidência e seu déficit de liderança explicitaram-se mais ainda neste mês de março, a partir da crise do coronavírus. Trocando o seu papel (e as primeiras sílabas do verbo), quando mais precisaria liderar, Bolsonaro se põe a delirar.
Tamanha falta de liderança já se mostrava muito danosa aos interesses maiores da nação em um sem-número de episódios anteriores, nos quais o presidente – por inação, atitudes controversas e/ou declarações desastrosas – ocasionou crises diplomáticas com outras nações e choques políticos com outros Poderes, instituições e governantes, colocando em risco relações comerciais e dificultando sumamente a retomada do desenvolvimento econômico do país até este ponto.
Mas agora a questão é muito mais grave. Não se trata só de economia. Estamos diante de uma crise humanitária. E, numa situação-limite como esta, em que vidas humanas estão em jogo, a falta de um verdadeiro líder sobressai ainda mais e põe ainda mais em risco a saúde dos brasileiros e a do Brasil, como nação. Sente-se ainda mais pujantemente a carência de um estadista sentado à cadeira que só deveria ser ocupada por verdadeiros estadistas.
No momento em que mais precisaríamos de um, temos o homem do “golden shower”, do “ela queria dar o furo a qualquer preço”, do “faz cocô a cada dois dias que resolve”, do “meu histórico de atleta”, do “brasileiro pula no esgoto e nada acontece”...
É muito aquém do que se espera de um estadista. E do líder de verdade que o nosso país merece.
* A bem da verdade, o capitão tem revelado dificuldade até em reconhecer uma verdadeira ameaça para o país, postada bem na sua frente e ao seu redor (com mais de 20 infectados na comitiva que o acompanhou em viagem este mês aos Estados Unidos). Isso é algo inconcebível para um homem supostamente versado na arte da guerra.
** A “grande mídia”, a “doutrinação ideológica”, o “comunismo”, o “marxismo cultural”, o Foro de São Paulo, a Venezuela e por aí vai...

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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