O momento clama por uma profunda união de esforços de nossas autoridades constituídas. Rixas pessoais, egos aflorados e rivalidades políticas com pano de fundo eleitoral não deveriam suplantar a integração de medidas que se faz extremamente necessária visando à contenção dos prejuízos humanos e materiais provocados pela pandemia do coronavírus. Em vez disso, o que tem preponderado por parte dos principais chefes do Executivo do país é uma atitude que significa, na verdade, o avesso do que se prega: a negação do conceito de integração. Por uma porta, entra o discurso de “união de todos”; pela outra, entram declarações que, na prática, só alimentam a desunião.
Falo dessa contenda sem sentido, fora de hora e de lugar, protagonizada, de um lado, por governadores como o do Rio, Wilson Witzel, e o de São Paulo, João Doria; do outro, pelo presidente Jair Bolsonaro, de quem se esperaria postura bem distinta: a de um grande serenador de ânimos e coordenador de ações governamentais entre União e unidades federativas.
Para preocupação geral, o que temos testemunhado é o predomínio dessa rixa entre presidente e governadores dos maiores Estados da federação; uma bataha de egos movida por vaidade política e por aspirações eleitorais que passam bem longe do interesse real e maior da população brasileira neste tão delicado momento.
Especialmente preocupante é a irredutível postura beligerante do presidente da República em tal contexto. Seria o momento de ele, como governante maior da nação, assumir postura magnânima, esquecer – ainda que momentaneamente – diferenças pessoais e políticas com o governador A ou B e atuar como grande pacificador nacional. Em vez disso, tem apagado o incêndio com a gasolina agora mais barata encontrada nos postos de combustível.
Na última quarta-feira (18), correta e institucionalmente, o presidente conclamou todas as autoridades à união neste momento. Foi digno de aplausos. Até porque pareceu ter caído em si: três dias antes, havia colidido com governadores, em entrevista à CNN, criticando severamente medidas tomadas por eles nos respectivos Estados em caráter emergencial:
"Esse vírus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, posso até estar errado, que estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia."
A exortação de quarta-feira sugeriu uma trégua, um gesto de pacificação nacional. Mas, em nova entrevista à CNN, concedida no sábado (21), o presidente voltou à carga:
“No momento, a minha grande preocupação é com a vida das pessoas, bem como com o desemprego que é proporcionado por esses governadores irresponsáveis”. Já neste domingo (22), dessa vez falando à TV Record, tornou a bater forte nos governadores:
"Brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus."
Como já questionei aqui: afinal, em qual dos dois Bolsonaros nós devemos acreditar?
Ainda que, no mérito, Bolsonaro possa ter algum percentual de razão, o fato é que não é hora disso. A entrevista foi mais uma oportunidade perdida de indicar a necessária conciliação geral. É preciso abaixar o fogo em vez de espalhar ainda mais a brasa.
Chama a atenção, ainda, a ausência de Bolsonaro no papel de coordenador de esforços nesta crise. Em vez de ficar a criticar a implementação de medidas no plano estadual, por que não convocar todos os governadores do país para uma reunião remota a fim de coordenar e definir o alinhamento de medidas integradas? Dado o seu papel institucional, não caberia a ele fazer isso, acima de qualquer diferença pessoal e de qualquer divergência político-partidária?
A título de comparação, imagine que sua empresa tem negócios no país inteiro, com uma filial em cada Estado. De repente a companhia passa por uma crise terrível e inesperada que ninguém poderia antecipar. É preciso tomar medidas rápidas e drásticas, em todas as unidades, a fim de mitigar ao máximo os danos.
Qual é a primeira coisa que você faz, como presidente da empresa? Reúne os gerentes de todas as filiais, a fim de concentrar e coordenar as ações de enfrentamento da crise. Pouco importa se você não simpatiza com o gerente A ou se teve aquele desentendimento no passado, mal resolvido, com o B. Depois resolve-se isso.
Do mesmo modo, em nada contribuem neste momento as críticas muito incisivas feitas por Witzel e Doria ao presidente e ao governo federal. O governador do Rio já disse, por exemplo, que Bolsonaro só “fica fazendo política”, enquanto o paulistano afirmou que os governadores estão “fazendo o que o presidente não está”.
Vale o mesmo raciocínio, com papéis invertidos: ainda que eles tenham a sua razão, o tom está equivocado, até pelo papel que ocupam. Não é hora disso.
Enfim, nesta batalha de egos, ninguém ganha. É preciso substituí-la pela batalha que realmente importa aos brasileiros (de qualquer Estado) neste momento: aquela contra o alastramento da doença.
ADENDO: PLANOS ELEITORAIS EXTEMPORÂNEOS
Doria, como se sabe, é pré-candidato à Presidência em 2022 – aliás, desde que se elegeu prefeito de São Paulo, em 2016. Agora renega o bolsonarismo, diz se arrepender de ter votado no presidente. Mas não pode negar que dificilmente teria vencido a eleição a governador em 2018, em disputa apertadíssima contra Márcio França (PSB), se não tivesse colado a sua imagem à de Bolsonaro no segundo turno.
Witzel é ainda mais explícito. Em 2018, elegeu-se na mesma “onda bolsonarista”, com propostas e discurso muito parecidos aos do então candidato à Presidência. Mas, já em seu primeiro ano de goveno, passou a declarar publicamente, com prematuridade anormal, intenção de concorrer à Presidência (contra Bolsonaro) em 2022. Mostra amadorismo político. Primeiro porque dá margem para que qualquer atitude sua, boa ou ruim, desde o início de sua passagem pelo governo fluminense, seja associada a objetivos eleitoreiros.
Segundo porque, se eu sou cidadão fluminense, sou levado a pensar na mesma hora: o Estado está quebrado, cheio de problemas sociais, o homem mal sentou na cadeira e já está pensando na eleição seguinte. Witzel elegeu-se naquela onda renovadora, de supostas “novas práticas políticas”. Não há nada mais antigo na política do que já eleger-se para um cargo querendo ser guindado para outro.