Guerra entre presidente e governadores em nada contribui neste momento
Não é hora disso, senhores...
Guerra entre presidente e governadores em nada contribui neste momento
Batalha de egos entre Bolsonaro, Doria, Witzel e cia. foge ao interesse maior e real dos brasileiros em plena pandemia do coronavírus. Falta de sintonia e de coordenação de esforços só piora o que já é grave o bastante
Wilson Witzel, Jair Bolsonaro e João DoriaCrédito: Antonio Cruz/Agência Brasil, Wilson Dias/Agência Brasil e Governo do Estado de São Paulo
O momento clama por uma profunda união de esforços de nossas autoridades constituídas. Rixas pessoais, egos aflorados e rivalidades políticas com pano de fundo eleitoral não deveriam suplantar a integração de medidas que se faz extremamente necessária visando à contenção dos prejuízos humanos e materiais provocados pela pandemia do coronavírus. Em vez disso, o que tem preponderado por parte dos principais chefes do Executivo do país é uma atitude que significa, na verdade, o avesso do que se prega: a negação do conceito de integração. Por uma porta, entra o discurso de “união de todos”; pela outra, entram declarações que, na prática, só alimentam a desunião.
Falo dessa contenda sem sentido, fora de hora e de lugar, protagonizada, de um lado, por governadores como o do Rio, Wilson Witzel, e o de São Paulo, João Doria; do outro, pelo presidente Jair Bolsonaro, de quem se esperaria postura bem distinta: a de um grande serenador de ânimos e coordenador de ações governamentais entre União e unidades federativas.
Para preocupação geral, o que temos testemunhado é o predomínio dessa rixa entre presidente e governadores dos maiores Estados da federação; uma bataha de egos movida por vaidade política e por aspirações eleitorais que passam bem longe do interesse real e maior da população brasileira neste tão delicado momento.
Especialmente preocupante é a irredutível postura beligerante do presidente da República em tal contexto. Seria o momento de ele, como governante maior da nação, assumir postura magnânima, esquecer – ainda que momentaneamente – diferenças pessoais e políticas com o governador A ou B e atuar como grande pacificador nacional. Em vez disso, tem apagado o incêndio com a gasolina agora mais barata encontrada nos postos de combustível.
"Esse vírus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, posso até estar errado, que estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia."
Jair Bolsonaro (sem partido) - Presidente da República, em 15/03/2020
A exortação de quarta-feira sugeriu uma trégua, um gesto de pacificação nacional. Mas, em nova entrevista à CNN, concedida no sábado (21), o presidente voltou à carga:
Ainda que, no mérito, Bolsonaro possa ter algum percentual de razão, o fato é que não é hora disso. A entrevista foi mais uma oportunidade perdida de indicar a necessária conciliação geral. É preciso abaixar o fogo em vez de espalhar ainda mais a brasa.
Chama a atenção, ainda, a ausência de Bolsonaro no papel de coordenador de esforços nesta crise. Em vez de ficar a criticar a implementação de medidas no plano estadual, por que não convocar todos os governadores do país para uma reunião remota a fim de coordenar e definir o alinhamento de medidas integradas? Dado o seu papel institucional, não caberia a ele fazer isso, acima de qualquer diferença pessoal e de qualquer divergência político-partidária?
A título de comparação, imagine que sua empresa tem negócios no país inteiro, com uma filial em cada Estado. De repente a companhia passa por uma crise terrível e inesperada que ninguém poderia antecipar. É preciso tomar medidas rápidas e drásticas, em todas as unidades, a fim de mitigar ao máximo os danos.
Qual é a primeira coisa que você faz, como presidente da empresa? Reúne os gerentes de todas as filiais, a fim de concentrar e coordenar as ações de enfrentamento da crise. Pouco importa se você não simpatiza com o gerente A ou se teve aquele desentendimento no passado, mal resolvido, com o B. Depois resolve-se isso.
Vale o mesmo raciocínio, com papéis invertidos: ainda que eles tenham a sua razão, o tom está equivocado, até pelo papel que ocupam. Não é hora disso.
Enfim, nesta batalha de egos, ninguém ganha. É preciso substituí-la pela batalha que realmente importa aos brasileiros (de qualquer Estado) neste momento: aquela contra o alastramento da doença.
ADENDO: PLANOS ELEITORAIS EXTEMPORÂNEOS
Doria, como se sabe, é pré-candidato à Presidência em 2022 – aliás, desde que se elegeu prefeito de São Paulo, em 2016. Agora renega o bolsonarismo, diz se arrepender de ter votado no presidente. Mas não pode negar que dificilmente teria vencido a eleição a governador em 2018, em disputa apertadíssima contra Márcio França (PSB), se não tivesse colado a sua imagem à de Bolsonaro no segundo turno.
Witzel é ainda mais explícito. Em 2018, elegeu-se na mesma “onda bolsonarista”, com propostas e discurso muito parecidos aos do então candidato à Presidência. Mas, já em seu primeiro ano de goveno, passou a declarar publicamente, com prematuridade anormal, intenção de concorrer à Presidência (contra Bolsonaro) em 2022. Mostra amadorismo político. Primeiro porque dá margem para que qualquer atitude sua, boa ou ruim, desde o início de sua passagem pelo governo fluminense, seja associada a objetivos eleitoreiros.
Segundo porque, se eu sou cidadão fluminense, sou levado a pensar na mesma hora: o Estado está quebrado, cheio de problemas sociais, o homem mal sentou na cadeira e já está pensando na eleição seguinte. Witzel elegeu-se naquela onda renovadora, de supostas “novas práticas políticas”. Não há nada mais antigo na política do que já eleger-se para um cargo querendo ser guindado para outro.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.