Infelizmente já viraram rotina, no cotidiano brasileiro, as declarações contraditórias e atitudes incoerentes e/ou inconsequentes por parte do presidente Jair Bolsonaro. Na última quarta-feira (18), porém, em uma coletiva de imprensa crucial para prestar esclarecimentos fundamentais à população brasileira sobre a pandemia do coronavírus, o mandatário foi além, superando um limite já bastante elástico estabalecido por ele próprio, com afirmações ora paradoxais, ora incorretas, ora, simplesmente, não verdadeiras. Compilamos aqui uma lista com os sete erros capitais de Jair Bolsonaro e analisamos cada um. Confira:
1. MANIFESTAÇÕES DE RUA: “NÃO CONVOQUEI”
Na coletiva da última quarta-feira, Bolsonaro afirmou que não convocou ninguém para as manifestações do último dia 15 organizadas por grupos de direita. Com todo o respeito, é desrespeitar sua Excelência, o Fato, bem como a inteligência alheia.
O presidente não apenas compartilhou mensagens convocatórias para o ato com contatos seus, via Whatsapp, na terça-feira de carnaval, como disse textualmente as seguintes palavras sobre as manifestações, durante discurso feito no dia 7 em base militar de Roraima: “Então participem”. Já no próprio dia 15, postou 42 tweets ao longo do dia sobre os protestos de rua em sua conta oficial – o que equivale a “endosso oficial”. Não só convocou, como estimulou os protestos.
2. RISCO AMBULANTE: “ESTIVE AO LADO DO POVO”
Sobre a atitude temerária de se misturar com populares durante a manifestação, mesmo ainda estando tecnicamente sob suspeita de infecção por coronavírus: “Estive ao lado do povo, sabendo dos riscos que eu corria”.
A frase demonstra que o presidente falha não apenas em compreender o seu papel institucional. Também não entendeu a dimensão da gravidade da situação e a própria dinâmica de transmissão do vírus: no episódio em questão, como potencial transmissor da doença, não foi ele quem se arriscou a nada, mas quem colocou em risco as pessoas inocentes com as quais interagiu. Diga-se de passagem, admiradores dele.
3. “FORAM ELES QUE VIERAM AO MEU ENCONTRO”
“Não fui a encontro de movimento nenhum”, disse Bolsonaro. “Foram eles que vieram ao meu encontro”. Isso é absolutamente irrelevante: quando um não quer, dois não se encontram. Principalmente quando esse “um” deveria estar em isolamento, por ter estado fora do país poucos dias antes e por ter tido contato com várias pessoas contaminadas pelo coronavírus.
4. “SOMENTE UMA PESSOA”
“É surreal fazer uma crítica a somente uma pessoa”, queixou-se Bolsonaro. Primeiro: passou da hora de ele compreender que, como presidente, deixou de ser uma pessoa qualquer, ou “somente uma pessoa”. Com a faixa presidencial, ele perdeu esse direito de se crer e se comportar como um “brasileiro comum”, mas insiste em não compreender esse fato. Surreal é isso.
Como ele mesmo dissera minutos antes, em outro trecho da mesma entrevista, ele é só o “chefe do Executivo”... Fica parecendo que, quando isso é conveniente para a mensagem que deseja transmitir, o presidente faz questão de frisar sua condição. Quando não lhe convém, “se esquece” desse detalhe. É um grande paradoxo.
5. “METRÔ E BARCAÇA”: LOUCURA OU ATO HEROICO?
“Eu vejo jornalistas na frente de batalha. Eu, como chefe do Executivo, preciso estar junto com meu povo. Não se surpreenda se você me ver (sic) nos próximos dias entrando em um metrô lotado em São Paulo, numa barcaça, na travessia Rio-Niterói, ou em um ônibus em Belo Horizonte. E, longe de demagogia ou populismo, é uma demonstração de que estou ao lado do povo”.
Errado. É uma demonstração de irresponsabilidade: a orientação de seu ministro da Saúde àqueles que puderem é justamente a de evitar meios de transporte público lotados. E, sim, a fala é essencialmente o que Bolsonaro diz não ser: um exemplo genuíno de demagogia e populismo na sua forma pura.
Assim, num contorcionismo retórico, Bolsonaro tentou transformar em ato heroico de bravura e lealdade ao povo o que na verdade foi uma atitude desnecessária e inconsequente que só fez colocar em risco a saúde de representantes desse povo que o admiram.
6. BATAM PANELAS (E PALMAS) PRA MIM
Além da já surrada tática de atacar a imprensa e da velha cantilena de que “a culpa é da mídia” (Lula e petistas fazem o mesmo), Bolsonaro demonstrou preocupação desmedida com o próprio prestígio e a própria imagem, num momento em que essa deveria ser a última de suas preocupações. Frisou, duas vezes, em plena coletiva, o horário da manifestação contra os contrários a ele, às 21 horas daquela noite.
De maneira quase inverossímil dada a gravidade do assunto tratado, Bolsonaro, em atitude personalista, não só transformou parte da entrevista em uma sessão de autoelogios como expressou um descabido desejo de também ser elogiado, além de frustração por não ouvi-los da imprensa ali representada: “Se o time está ganhando, vamos fazer justiça. Vamos elogiar seu técnico, Jair Bolsonaro.”
7. QUE PLACAR É ESSE?!?
Na concepção de Bolsonaro, “o nosso time está ganhando de goleada”. Aqui também cumpre destacar a já habitual dessintonia de Bolsonaro com a realidade: que “goleada” exatamente é essa? Que jogo é esse a que só ele parece estar assistindo? Quais os gols que seu time está marcando?
E os gols contra que o país está sofrendo e que ele não está levando em conta? Para citar sete: o Ibovespa em queda livre, o dólar explodindo, o risco-Brasil galopante, o desemprego renitente, o PIBinho em 2019, o Ministério anti-Meio Ambiente, o MEC sem gestão e paralisado... Para citar um gol de honra: Mandetta em meio a esta crise. Sete a um.
“A realidade vai chegando aos poucos”, proferiu o presidente.
Oxalá chegue logo também para ele.